oscar 2016
Crítica
Género de opinião que descreve, elogia ou censura, totalmente ou em parte, uma obra cultural ou de entretenimento. Deve sempre ser escrita por um expert na matéria

‘Os Oito Odiados’: cinema do oeste ou teatro do oeste?

O início é um prazer para os olhos: uma diligência cruza uma bela paisagem enquanto neva e o som do vento nos envolve

Fotograma de “Os Oito Odiados”El País Vídeoundefined
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Os Oito Odiados (um título medonho) é o segundo faroeste e o oitavo filme de Tarantino, como nos revela jocosamente nos créditos a exagerada egotrip do diretor. Achei fascinante o filme anterior, o cínico e brutal Django livre, o mais contundente e selvagem retrato que já vi sobre o racismo, muito mais impactante, corrosivo e radical do que o ganhador do Oscar Doze anos de escravidão. O talento é sempre mais eficiente do que as boas intenções. E o de Tarantino é inquestionável.

O começo de Os 8 odiados é um prazer para os olhos. Uma diligência cruza uma bela paisagem enquanto neva sem parar, e o som do vento nos envolve. A música de Morricone soa profunda e épica. A prazerosa sensação de que a ação se desenvolverá nos amplos horizontes dura pouco, uns quinze ou vinte minutos. O restante (e são três horas de filme) se passa em espaço claustrofóbico de uma hospedaria isolada. E os personagens, pitorescos, falam sem parar. Todos nós sabemos que Tarantino é um excelente criador de diálogos, com um estilo inconfundível, original, com um senso de paradoxo muito acentuado. Mas, às vezes, o excesso de conversas brilhantes me cansa.

Sei que o duelo estabelecido por meio de palavras é a construção de uma boneca russa. Que o desfecho nos surpreenderá, que as intenções dos personagens não são as que parecem ser, que Agatha Christie já exercitou esse jogo mortal em Os dez negrinhos, mantendo até o final o suspense quanto à identidade e as motivações do assassino. Neste caso, todos o são, desde os caçadores de recompensas ortodoxos ou heterodoxos, bandidos tontos ou refinados, militares filosóficos e sanguinários sulistas ou unionistas, todos eles com um linguajar pausado e gatilho rápido, pessoas perigosas cujos destinos não saberemos até o fim do filme.

Há coisas, como sempre acontece com Tarantino, que funcionam maravilhosamente nesse filme, como a criação do clima, a progressão do suspense, as réplicas e tréplicas ácidas, os atores habituais de Tarantino cumprindo obedientemente as ordens de seu diretor. Mas me parece que há filme demais (as sequências densas e muito longas em um único cenário, como a do começo de Bastardos Inglórios ou a cena da taverna ou a da mansão do infernal DiCaprio em Django Livre, são modelares, mas não ocupavam 90% do filme, como em Os 8 odiados) e uma complacência gore com o derramamento de sangue, além do fato de o tema principal da música de Morricone ser utilizado de forma rangente, soando a dodecafonia. Tarantino gosta demais de si mesmo. Imagino que agradará aos fãs. No meu caso, foi mais ou menos.

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