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‘Os Oito Odiados’: cinema do oeste ou teatro do oeste?

O início é um prazer para os olhos: uma diligência cruza uma bela paisagem enquanto neva e o som do vento nos envolve

Fotograma de “Os Oito Odiados” El País Vídeo

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Os Oito Odiados (um título medonho) é o segundo faroeste e o oitavo filme de Tarantino, como nos revela jocosamente nos créditos a exagerada egotrip do diretor. Achei fascinante o filme anterior, o cínico e brutal Django livre, o mais contundente e selvagem retrato que já vi sobre o racismo, muito mais impactante, corrosivo e radical do que o ganhador do Oscar Doze anos de escravidão. O talento é sempre mais eficiente do que as boas intenções. E o de Tarantino é inquestionável.

O começo de Os 8 odiados é um prazer para os olhos. Uma diligência cruza uma bela paisagem enquanto neva sem parar, e o som do vento nos envolve. A música de Morricone soa profunda e épica. A prazerosa sensação de que a ação se desenvolverá nos amplos horizontes dura pouco, uns quinze ou vinte minutos. O restante (e são três horas de filme) se passa em espaço claustrofóbico de uma hospedaria isolada. E os personagens, pitorescos, falam sem parar. Todos nós sabemos que Tarantino é um excelente criador de diálogos, com um estilo inconfundível, original, com um senso de paradoxo muito acentuado. Mas, às vezes, o excesso de conversas brilhantes me cansa.

‘Os Oito Odiados’

Direção: Quentin Tarantino.

Intérpretes: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh.

Gênero: wéstern. EUA, 2015.

Duração: 187 minutos.

Sei que o duelo estabelecido por meio de palavras é a construção de uma boneca russa. Que o desfecho nos surpreenderá, que as intenções dos personagens não são as que parecem ser, que Agatha Christie já exercitou esse jogo mortal em Os dez negrinhos, mantendo até o final o suspense quanto à identidade e as motivações do assassino. Neste caso, todos o são, desde os caçadores de recompensas ortodoxos ou heterodoxos, bandidos tontos ou refinados, militares filosóficos e sanguinários sulistas ou unionistas, todos eles com um linguajar pausado e gatilho rápido, pessoas perigosas cujos destinos não saberemos até o fim do filme.

Há coisas, como sempre acontece com Tarantino, que funcionam maravilhosamente nesse filme, como a criação do clima, a progressão do suspense, as réplicas e tréplicas ácidas, os atores habituais de Tarantino cumprindo obedientemente as ordens de seu diretor. Mas me parece que há filme demais (as sequências densas e muito longas em um único cenário, como a do começo de Bastardos Inglórios ou a cena da taverna ou a da mansão do infernal DiCaprio em Django Livre, são modelares, mas não ocupavam 90% do filme, como em Os 8 odiados) e uma complacência gore com o derramamento de sangue, além do fato de o tema principal da música de Morricone ser utilizado de forma rangente, soando a dodecafonia. Tarantino gosta demais de si mesmo. Imagino que agradará aos fãs. No meu caso, foi mais ou menos.