Obama contrapõe força dos EUA ao discurso apocalíptico republicano

Em seu último discurso do Estado da União, presidente pede uma política mais civilizada

Obama discursa diante do Legislativo.

Com um pé na Casa Branca e outro já na história, o democrata Barack Obama exaltou, na noite desta terça-feira, a força dos Estados Unidos como contraponto à retórica apocalíptica do Partido Republicano e a inquietação de amplos setores do país com a economia, as elites nacionais e a rapidez das mudanças sociodemográficas. Em seu último discurso do Estado da União, o presidente norte-americano pediu o fim da política do medo encarnada pelo pré-candidato presidencial republicano Donald Trump. E afirmou que uma das tarefas pendentes da sua presidência é a necessidade de injetar civilidade num discurso público ácido e crispado.

Obama não se referiu explicitamente Donald Trump, o magnata e showman nova-iorquino que, com uma retórica agressiva contra os imigrantes latinos e muçulmanos, lidera desde meados de 2015 as pesquisas relativas à indicação republicana para a eleição presidencial de novembro nos EUA. Não citou Trump nem qualquer outro republicano que faz do medo – o medo de um atentado, dos imigrantes, do cataclismo econômico ou simplesmente de uma decadência inexorável da superpotência – um argumento de campanha. Mas Trump e outros republicanos estavam na mente de toda a plateia.

Havia um ar de despedida no Capitólio. Obama, a não ser que profira algum discurso imprevisto neste ano, não voltará a se dirigir ao Congresso numa sessão conjunta da Câmara e do Senado. Mas não havia nostalgia. Em alguns momentos suas palavras soavam a discurso de abertura da campanha eleitoral à sua sucessão; em raros momentos a maioria republicana o aplaudiu. O discurso foi, em parte, um manifesto anti-Trump, erigido em uma incômoda bandeira do Partido Republicano, e em parte um programa para o Partido Democrata – para a ex-senadora Hillary Clinton ou para o principal rival dela na disputa pela indicação, o senador Bernie Sanders.

Em todo momento de transformação, disse o presidente, houve pessoas que desejaram frear a mudança, que prometiam restaurar uma imaginária glória do passado e que ameaçavam um grupo ou uma ideia determinada. “Devemos rechaçar qualquer política que aponte as pessoas por sua raça ou religião”, afirmou. “Não se trata de correção política. Trata-se de entender o que nos torna fortes.”

Em vez de apresentar, como é habitual, seu programa legislativo para este ano, Obama olhou para as próximas décadas. A três semanas do início das assembleias eleitorais (caucus) e eleições primárias que definirão os candidatos democrata e republicano à Casa Branca, o presidente estabeleceu os termos do debate – ou levar adiante o seu programa político, elegendo um presidente democrata, ou o contrário disso, um republicano que desmonte o seu legado.

Obama estabeleceu quatro prioridades: uma economia mais equitativa e segura; uma tecnologia que mantenha este país na vanguarda da inovação e permita combater ameaças como a mudança climática; uma política externa que garanta a liderança dos EUA sem fazer o papel de polícia do mundo; e um estilo de fazer política mais amável e menos polarizado.

O presidente tentou persuadir os norte-americanos de que os EUA estão melhores hoje do que em janeiro de 2009, quando ele tomou posse em meio à pior recessão das últimas décadas e com o país embarcado em duas guerras sem final à vista. Citou sinais de melhora na economia e feitos como a reforma do sistema de saúde, que permitiu que milhões de pessoas passassem a ter acesso a cobertura médica. Atribui-se os sucessos diplomáticos do restabelecimento das relações com Cuba e do acordo com o Irã, exemplos de uma política externa apoiada numa mistura de diplomacia e multilateralismo, de um lado, e capacidade de levar a cabo guerras silenciosas, com drones e comandos especiais.

“Quem argumentar que a economia norte-americana está em declive faz ficção”, disse. Também é ficção “toda a retórica que se escuta sobre como nossos inimigos estão se tornando mais fortes, e como a América está cada fez mais fraca”, acrescentou mais tarde. “Os Estados Unidos da América são a nação mais forte da terra. Ponto.”

A frase – otimista, patriótica – soava a Ronald Reagan, presidente do sorriso perene e totem da direita norte-americana. No plenário, os republicanos hesitaram alguns segundos antes de aplaudir. Ao final ficaram em pé e se uniram às palmas democratas.

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