O legado de Obama: o último discurso do presidente sobre o Estado da União

Historiadores esboçam o legado histórico do presidente um ano antes de ele deixar a Casa Branca

O presidente antes de fazer seu discurso sobre o Estado da União em janeiro de 2015.
O presidente antes de fazer seu discurso sobre o Estado da União em janeiro de 2015.Pablo Martinez Monsivais (AP)

Todo presidente dos Estados Unidos se dedica a duas tarefas simultâneas: governar o dia a dia e preparar seu lugar na história. Quanto mais próximo o fim do mandato, mais se fala do legado. Que marca deixará? Barack Obama, presidente desde janeiro de 2009, pronunciará nesta terça-feira seu último discurso sobre o Estado da União, um ritual central da política norte-americana.

Dentro de pouco mais de um ano, o democrata Obama deixará a Casa Branca depois do fim do seu segundo mandato. Em uma entrevista à revista The New Yorker, publicada em 2014, Obama refletiu sobre a limitada capacidade dos presidentes de mudar o mundo e disse: “Nós só tentamos que o nosso legado seja correto”.

Justin Vaughn

O EL PAÍS perguntou a historiadores e especialistas na presidência como imaginam o parágrafo de Obama nos livros de história.

Justin Vaughn, cientista político da Universidade de Boise

“Dentro de algumas décadas, quando as adesões partidaristas tiverem desvanecido e os estudiosos mais jovens, sem o fardo da memória deste momento particular, controlarem como se determina o legado, veremos que Obama será lembrado como um pioneiro, mas também como alguém que não esteve à altura do que era esperado. Os futuros estudiosos ficarão maravilhados com a forma como Obama foi tão controvertido, algo que deixa em maus lençóis a retórica superexcitada da direita e sua atitude bastante tímida em relação à liderança política e à ação”.

David Blight, professor de História da Universidade de Yale

“Visto que os americanos estão agora, e num futuro previsível, extremamente divididos politicamente, a presidência do presidente Obama terá durante algum tempo, no mínimo, legados duais. A direita continuará a lembrar dele e a usá-lo como modelo favorito de um Estado grande e progressista [liberal, em inglês] e como objeto de seu ressentimento racial. Outros, especialmente os liberais, se lembrarão dele como o maior expoente do Primeiro Americano (como presidente negro), e como um líder político às vezes reticente, mas sempre profundamente sério, inclusive brilhante, em uma época de problemas intratáveis.

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Mas no renascimento depois da Grande Recessão, na imigração, no acesso à saúde, nos direitos dos homossexuais, talvez no controle de armas e, certamente, na mudança climática, Obama terá um legado duradouro e transformador. Devemos dizer também que talvez nenhum presidente de grande importância desde Lincoln (talvez Franklin Roosevelt) enfrentou uma oposição tão feroz e implacável. Durante a maior parte do tempo, lidou com os ataques da direita com uma graça que não mereciam”.

George C. Edwards III,  catedrático de Estudos Presidenciais da Universidade A&M do Texas

“Do fato de deter o deslizamento na direção de um abismo fiscal e aumentar a regulação das instituições que nos levaram a esse ponto, até ampliar o acesso dos americanos à saúde, ele fez este país mais forte e mais humano. Administrou uma situação internacional extremamente complexa sem enviar mais americanos para a guerra, aumentou o comércio e reduziu a ameaça de um Irã nuclear. É provável que a história o trate com amabilidade”.

Jennifer Mercieca, historiadora da Universidade A&M do Texas

“Obama tentou, desde o início, ser lembrado como um grande presidente. Os grandes presidentes lideram a nação em tempos de crise e mantêm o rumo do Estado em meio a tempestades convulsivas. Sob seu mandato a economia melhorou e a nação ampliou o direito ao casamento a todos os casais, mas a nação também lutou contra os medos da imigração, o terrorismo, a raça e a violência armada. Internacionalmente, o legado será ambivalente: ao mesmo tempo em que agiu para reparar as relações da nação com o exterior, viu como o extremismo radical continuava em todo o mundo”.

Michael Barone, coautor do Almanaque da Política Americana

“Num momento em que as mudanças econômicas e culturais estão produzindo uma sociedade menos centralizada, em que o crescimento da inovação e da produtividade surge a partir de baixo, ele busca um Estado de comando e controle, mais centralizado e maior. Em tempos nos quais as forças do terrorismo ganham terreno em partes importantes do mundo, ele tenta diminuir o poder americano para combatê-las com a esperança de que, com declarações brandas, fará com que sejam mais amigos da América e que estejam menos comprometidos com o terrorismo”.

Brandon Rottinghaus, cientista político da Universidade de Houston

“Os oito anos de Obama o colocam em um sólido lugar intermediário na curva dos grandes presidentes: forte em algumas áreas, mais fraco em outras. Os presidentes são julgados pela forma como navegam em grandes momentos históricos. Se reconhece que Obama reduziu grandes guerras no exterior e estabilizou uma economia vacilante. Mas apesar de suas corajosas promessas, sua incapacidade para atenuar as dificuldades econômicas da classe média e o aumento da desigualdade de renda prejudicam sua agenda doméstica. O legado do presidente será sustentado apenas pelo sucesso da reforma do sistema de saúde”.

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