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Globo de Ouro 2016: Iñárritu lidera triunfo latino com ‘O Regresso’

O ‘western’ do mexicano leva os prêmios de melhor drama e direção

Gael García Bernal e Oscar Isaac também ganha troféus

Um ano depois de arrasar no Oscar com Birdman, o mexicano Alejandro Gonzalez Iñárritu voltou a conquistar Hollywood com O Regresso, um filme sobre a sobrevivência que levou os prêmios de melhor drama, melhor direção e melhor ator no Globo de Ouro. Os outros dois filmes com mais indicações da noite, Carol e Spotlight, foram apenas coadjuvantes no passeio de Iñárritu na primeira grande premiação do ano.

Alejandro Gonzalez Inarritu e Leonardo DiCaprio, com seus prêmios.

A temporada de prêmios da indústria cinematográfica norte-americana, um período de aproximadamente três meses no início de cada ano em que se distribuem também prêmios mais discretos, tem como uma de suas pedras angulares o Globo de Ouro, um evento que desfruta da fama de ser descontraído e que vem aperfeiçoando essa imagem ano após ano. Em resumo: segundo a Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, sua organizadora, o filme dramático do ano é O Regresso, a melhor comédia ou musical é Perdido em Marte (sim, até mesmo o apresentador Ricky Gervais fez uma brincadeira sobre essa categoria) e as melhores séries de televisão são Mozart in the Jungle e Mr. Robot. Mas três nomes latinos brilharam especialmente: Alejandro Gonzales Iñárritu, Gael García Bernal e Oscar Isaac, que ampliaram o reconhecimento dos latinos em Hollywood em um movimento inaugurado no ano passado, no mesmo palco, por Gina Rodriguez.

O prestígio do mexicano Alejandro Gonzales Iñárritu na indústria do cinema não tem limites. No ano passado, não levou nenhum Globo de Ouro, mas arrasou no Oscar. Agora, recebeu o prêmio de diretor por O regresso, um filme épico sobre a sobrevivência estrelado por Leonardo DiCaprio. O filme obteve enorme sucesso nas salas de cinema dos Estados Unidos, onde, neste fim de semana, em sua estreia, registrou uma bilheteria acima das expectativas, pouco atrás de Star Wars. Sua filmagem já se tornou uma lenda pelas dificuldades encontradas pela equipe para trabalhar em cenários naturais com temperaturas abaixo de zero. “Todo filme é difícil de fazer, mas este foi o mais difícil de que participei”, disse o diretor mexicano. “A dor passa, mas o filme é para sempre”. Iñárritu fez uma menção ao seu protagonista: “Leo, você é o cara, você é que fez esse maldito filme, meu amigo”.

Meia hora depois, DiCaprio subiria ao palco para receber o prêmio de melhor ator, aplaudido de pé pela plateia. Desde que se divulgaram as primeiras imagens do filme, o nome de DiCaprio é comentado para receber todos os prêmios. Este é um daqueles anos em que paira no ar a sensação de que agora sim, desta vez, o ator, que já foi indicado quatro vezes ao Oscar, terá finalmente o seu reconhecimento maior. “É um filme sobre a sobrevivência, sobre o espírito humano”, disse DiCaprio, que devolveu a Iñarritu os elogios. “Nunca tive uma experiência como essa em toda a minha vida”. O ator encerrou sua fala comparando o seu diretor a Stanley Kubrick. O Globo de Ouro entrega dois prêmios para cada categoria mais destacada, o de drama e o de comédia ou musical. Nesta segunda, o vencedor foi Matt Damon, pela atuação em Perdido em Marte.

Além de Iñárritu, outros dois latinos ganharam a noite. O primeiro foi o ator mexicano Gael García Bernal, que se tornou um astro internacional há cerca de uma década. “Estive aqui pela primeira vez há 16 anos com Amores Perros”, lembrou ao EL PAÍS no tapete vermelho. Neste domingo, ele teve a sua primeira indicação e seu primeiro Globo de Ouro como protagonista de Mozart in the Jungle, da Amazon. García Bernal superou ninguém menos que Jeffrey Tambor, o padre travesti de Transparent, vencedor no ano passado, e Aziz Anzari, o comediante de origem indiana que estreou na Netflix com uma comédia urbana, Master of None, sobre o amor e a amizade nos tempos do Google. Mozart in the Jungle ganhou também o prêmio de melhor série de comédia do ano para televisão.

Até dois anos atrás, poucas pessoas reconheceriam Oscar Isaac. O ator de origem guatemalteca consagrou-se como estrela de Hollywood com o prêmio de melhor ator de minissérie, por sua atuação em Show me a Hero, da HBO, um retorno às tragédias das ruas e aos conflitos raciais do aclamado David Simon. Em uma entrevista recente ao EL PAÍS, Simon mostrava seu espanto com a vertiginosa carreira desse ator latino, que, além disso, participou nesta temporada de Ex Machina e é um dos jovens heróis da Aliança galáctica em Star Wars - O Despertar da Força, filme de maior bilheteria da história. “Agora ele nem atenderia uma ligação minha”, dizia Simon sobre Isaac.

“É incrível. Foi um ano de louco”, dizia Isaac na sala de imprensa. “Como homem, eu fico muito emocionado. Como latino, orgulhoso”. Isaac compartilha a visão que várias das novas estrelas latinas têm sobre a sua presença em Hollywood: estamos ali, mas ainda não estamos ali. “É algo que ainda está começando. Não há muitos como nós. Para os que não têm aquela aparência padronizada deste país, é difícil obter papeis importantes. Espero que as pessoas que fazem os filmes mudem suas ideias sobre etnias”.

A expectativa que o cômico britânico Ricky Gervais gera toda vez que aparece no palco para apresentar o Globo de Ouro, algo que vem ocorrendo há quatro anos seguidos, é plenamente justificada. Seu poder de atração reside em que ele não se envergonha de censurar ou insultar os presentes nem de se queixar de que tudo não passa de uma representação. E não decepcionou. A tal ponto que isso tem se tornado quase um clichê. Virou arqui-inimigo de Mel Gibson desde que riu de seus comentários antissemitas. Neste domingo, eles voltaram a se encontrar em um mesmo recinto. “Gosto de encontrar o Ricky a cada três anos, pois isso me faz lembrar que está na hora de fazer uma nova colonoscopia”, disse Gibson, em um momento divertido — mas tenso — que ninguém sabia muito bem se não acabaria em briga.

Um salão de festas do hotel Beverly Hilton com o que há de melhor da indústria do cinema ficou de pé para aplaudir Sylvester Stallone, um dos astros mais rentáveis da história e que nunca havia recebido um prêmio importante. Stallone começou sua carreira de estrela em Hollywood em 1977 com Rocky. Foi indicado, então, como ator e roteirista, tanto no Globo de Ouro quanto no Oscar. Quase quarenta anos depois, ganhou o Globo de Ouro de ator coadjuvante por sua atuação em Creed, uma excelente revisão daquele clássico em que faz uma penetrante e poderosa interpretação de um Rocky Balboa envelhecido, cansado e adoecido que decide treinar o filho de seu amigo morto, Apollo Creed. “Na vida, as coisas nunca acabam enquanto não terminam”, disse Stallone. Chamou Balboa de “meu amigo imaginário” com quem fala de vez em quando. Seu personagem já se tornou um clássico. “Balboa viverá para sempre, porque fala daquilo que é o essencial da vida. A vida não pode ser derrotada. O tempo permanece. Morrer é fácil. Difícil é viver”, disse aos jornalistas um Stallone em fim de carreira, em tom reflexivo.

Igualmente emocionante foi o prêmio dado a Jon Hamm, que prosseguiu em seu ano de homenagens e despedidas com um dos personagens mais memoráveis da história da televisão, o executivo de publicidade Donald Drapper. Ele recebeu o prêmio de melhor ator pela última temporada de uma série — Mad Men — já mítica. É a segunda vez que leva o prêmio por esse personagem, com o qual já acumulou seis indicações. Neste domingo, mostrou-se tão humilde quanto em meados do ano passado ao receber um prêmio Emmy que lhe havia sido negado durante toda a série e que teve um sabor de homenagem. “É uma honra incrível ser incluído no grupo da minha lista de indicados”, disse Hamm na sala de imprensa. “Assisti a cada segundo de Mr. Robot; Narcos me cativou. Vi Bob Odendirk em Better Call Saul. O simples fato de estar junto desses caras é algo que nunca imaginei que fosse acontecer”.

Muito surpresa, Kate Winslet levou o terceiro Globo de Ouro de sua carreira como atriz coadjuvante em Steve Jobs, a segunda biografia do fundador da Apple lançada desde a sua morte. Ela concorria com legendas como Jane Fonda e Helen Mirren, presentes ao evento. As duas melhores atrizes de televisão, segundo a associação de correspondentes estrangeiros de Hollywood, são Maura Tierney, a esposa em The Affair, e Rachel Bloom, da série Crazy exgirlfriend.

O Globo de Ouro reúne a maior concentração de estrelas por metro quadrado do mundo. De Harrison Ford a Matt Damon, de Jennifer Lawrence a Cate Blanchett. A organização exibiu a sua impressionante lista de convidados, por exemplo, reunindo no palco Ryan Gosling e Brad Pitt, ambos atores em A Grande Aposta, que fizeram um belo número em que Gosling se mostrava incomodado como se tivesse que mostrar que Pitt não lhe fazia sombra. Neste 2016, o Globo de Ouro teve uma cerimônia ágil, divertida, com todas as estrelas possíveis presentes, premiações bastante razoáveis e palavrões, ditos no palco, inimagináveis em qualquer outro espetáculo. Totalmente à altura de sua fama como “a maior festa de Hollywood”.

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