globo de ouro 2016

Guia para fingir que viu os filmes do Globo de Ouro

Contamos quais são as chances dos nomeados e dizemos para você, segundo os seus gostos, quais deveriam ser as suas apostas

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Melhor drama

O Regresso. Você gostou, mas achou pretensioso demais, por isso não o considera o melhor filme dramático. Não por acaso é dirigido por Gonzáles Iñarritu, especialista em autopromoção cinematográfica que já nos demonstrou o desejo de se elogiar com Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância). Você também não aposta em Iñarritu como diretor, mas a coisa muda com Leonardo DiCaprio, autêntico pilar desse drama naturalista. DiCaprio não tem sorte no Oscar, mas o Globo de Ouro é outra história. No mais, além de sua brilhante interpretação, o pobre Leo teve que submergir em águas geladas, introduzir-se nas entranhas de um cavalo e comer todo tipo de animais vivos. Merece um Globo de Ouro. E uma férias.

Room. Você adora e (se você gosta de filmes que contam histórias deprês de uma perspectiva meiga) é a sua favorita como melhor drama. Room é algo assim como A Vida é Bela, mas sem nazistas, sem música melosa e sem Roberto Benigni. Ou seja, uma maravilha. Conta a história de uma mulher que é sequestrada e como ela apresenta a seu filho –fruto dos estupros a que é submetida diariamente–, um mundo alternativo no qual só existem ela, ele, o senhor mágico que lhes traz comida e o quarto onde estão encerrados. Parece deprimente e brutal, mas, se vir o filme (e, lembre-se, você viu), você se dá conta de que é lindo. Brie Larson realiza uma interpretação magistral. Se você gosta de arriscar, essa é a sua aposta; se você for um pouco mais conservador nas escolhas, continue lendo.

Carol. Esta história de amor entre duas mulheres é a grande favorita do Globo de Ouro, por isso será a aposta de todos os que não viram os filmes nomeados e não leram um artigo para fingir ter visto. É a escolha fácil. Portanto, não aposte nela. Prefira o romance de Patricia Highsmith no qual se baseia (que, claro, você também leu). Suas protagonistas, Cate Blanchett e Rooney Mara, competem pelo prêmio de melhor atriz dramática. Blanchett está mais elegante que em um anúncio de colônia e Mara tem uma interpretação brilhante –e já triunfou em Cannes com esse papel. Se você não quer arriscar, aposte em uma das duas. Todd Hayes foi indicado a melhor diretor e tem muitos votos. Assim, se você gosta de filmes de temática homossexual (além de Carol, dirigiu Veneno, Longe do Paraíso e Velvet Goldmine), é o seu homem.

Spotlight: Segredos Revelados. É um wanna be Todos os Homens do Presidente bem resolvido. Narra a investigação do jornal Boston Globe que trouxe à luz centenas de casos de abusos de menores no seio da igreja católica de Boston em 2002. Se você é jornalista ou detetive, é o seu filme; se não, pode dizer que gostou, mas achou denso demais (e é). Você se divide entre odiar e amar o diretor, o nomeado Tom McCarthy, não tanto por seu correto trabalho nesse filme, mas por ter atuado em filmes horríveis como O Guru do Sexo e ter escrito obras primas como UP – Altas Aventuras.

Mad Max: Estrada da Fúria. Fúria na estrada. Se você for feminista é o seu filme favorito para levar o Globo de Ouro. Se você for realista, acredita que Hollywood não vai premiar um filme de ação futurista como melhor drama. O filme de George Miller se transformou em todo um arrazoado do poder feminino sem dizer uma palavra a respeito durante toda a história. Aqui não se fala do quão importantes ou essenciais são as mulheres, simplesmente se mostra de forma natural. Para você, o filme pareceu imaginativo e diferente: visualmente espetacular. A sua opinião mudou um pouco quando você se deu conta não de que era um remake (isso você já sabia, pois também viu o primeiro e adorou Mel Gibson), mas que o currículo de Miller como diretor se reduz aos três filmes de Mad Max, seu remake, Happy Feet: O Pinguim 1 e 2, Babe, o Porquinho Atrapalhado 1 e 2 e um par de filmes para esquecer. A propósito, Miller já adiantou que vai fazer um novo filme. De Mad Max.

Melhor comédia ou musical

Perdido em Marte. Você considera que o filme é um enorme product placement da NASA e bem podia ter servido de propaganda norte-americana durante a corrida espacial com a URSS. Ainda assim você aposta na película de Matt Damon como melhor comédia? Porque representa o regresso de Ridley Scott ao cinema de qualidade, e porque os dramas espaciais – veja Interestelar ou Gravidade– deram muitas alegrias ao cinema ultimamente. Além do mais, um filme que conta com a trilha de sonho de David Bowie e Donna Summer não pode ser ruim

Joy: O Nome do Sucesso. David O. Russell tem um talento inegável para transformar roteiros de telefilmes em fortes candidatos a filme do ano. Já tinha feito isso com O Lado Bom da Vida e Trapaça. Este ano repete a fórmula com sua musa Jennifer Lawrence –e, em menor medida, seu muso, Bradley Cooper. Joy conta a típica história do sonho americano e mulher que faz a si mesma. É como Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento, mas mudando os tribunais pelos

estúdios dos programas de vendas pela TV, uma fórmula tão pouco inovadora como eficaz. Aposte em que Jennifer Lawrence cairá no tapete vermelho e, se você for muito fã, que cairá outra vez no caminho para pegar o Globo de Ouro.

A Espiã que Sabia de Menos. Uma comédia nomeada como melhor comédia? Os jornalistas devem ter ficado loucos, mas para você parece fantástico. Jude Law rindo de si mesmo como o James Bond que nunca foi –mas sempre pareceu– é um elogio mais que suficiente, mas o autêntico acerto desta película hilária é a dupla formada por Melissa McCarthy e Paul Feig, atriz e diretor da louvável Missão Madrinha de Casamento. Não vai ganhar, mas se você disser que adorou não vai perder pontos.

A Grande Aposta. É uma comédia dramática sobre as pessoas que criaram a bolha imobiliária nos EUA, e apoiar algo assim vai te dar um ar de pessoa bem informada, comprometida e levemente hipster, mas sem ser pedante. Tem Ryan Gosling, Brad Pitt e Christian Bale no elenco, ou seja, que importa o que acontece? Você não deveria fingir que o viu, deveria ir ver.

Descompensada. Pelo título poderia ser uma comédia romântica de Jennifer López, mas o último filme de Judd Apatow é muito mais que isso. Infelizmente, uma reflexão sobre a monogamia, o sexo e o compromisso não parece algo do gosto da imprensa, de modo que é difícil que saia com o prêmio. Os princípios do diretor, que há tempos jurou colocar um pênis em cada um de seus filmes, tampouco ajudam muito a ganhar pontos, mas o roteiro irreverente e a lúcida interpretação de Amy Schumer transformam este filme em uma grande opção. A opção dos perdedores com critério.

A grande perdedora a exaltar:

Beast of no Nation. Somente está indicada na categoria de ator coadjuvante e para você isso parece inconcebível. Este drama realista sobre crianças soldados une um diretor cultuado –Fukunaga, autor do primeiro True Detective—com uma rede de culto –Netflix, que com esse trabalho dá o salto para a produção de filmes. Somente por isso você já fica encantado e apoiaria qualquer candidatura dele, mas se ainda por cima o nomeado é Idris Elba, AKA Stringer Bell de The Wire, o seu apoio é comparável ao de uma belieber em pleno show.