Independentistas da Catalunha sacrificam Artus Más em prol da causa

Partidos que são a favor da independência da região do resto da Espanha chegam a acordo de última hora para tirar o atual presidente e empossar Carles Puigdemont

Mas, durante seu comparecimento ao Palau de la Generalitat.G. BATTISTA (atlas)

O acordo foi alcançado no último minuto, quando todos os partidos já davam como certo que teriam de repetir as eleições na Catalunha. Uma negociação agonizante e com pinceladas quase surrealistas culminou com o comparecimento do próprio Mas, que explicou os principais aspectos do acordo. Este estabelece que a CUP facilitará hoje a posse de Carles Puigdemont como presidente e que os anticapitalistas, em uma guinada inesperada e que se choca com sua tradição, renunciam a atuar como partido de oposição nas questões que ameaçam a “estabilidade do Governo”. Embora restem muitas lacunas por resolver, Mas deu a entender que segue vigente tudo o que se havia negociado com a CUP nos últimos meses no que se refere ao processo independentista e à estrutura do novo Governo. Ou seja, que o plano independentista segue adiante intacto.

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O que mudou para que Artur Mas aceite agora retirar-se? Mas respondeu a essa pergunta afirmando que “o tempo e os acontecimentos evoluíram, e algo que dificilmente se poderia prever ocorreu, e há um acordo de estabilidade em todas as circunstâncias”. “O que também mudou é que a CUP assume os próprios erros”, acrescentou, fincando pé em que os anticapitalistas renunciassem a fazer oposição parlamentar. Além do mais, desse insólito acordo também transcendeu que Carles Puigdemont não foi a primeira opção para substituir Mas. Pela manhã a presidência foi oferecida a Neus Munté, atual vice-presidenta da Generalitat, que a rejeitou por motivos pessoais.

A CUP não fará oposição

Mas também tentou negar a evidência de que sai por exigência da CUP. “Não houve novas concessões à CUP. Tomei uma decisão política que tomo podendo ter me negado a isso. As eleições eram uma opção”, insistiu para justificar sua retirada. De acordo com Mas, o acordo implica “corrigir” o resultado das eleições de 27 de setembro, quando a Junts pel Sí não conseguiu a maioria absoluta. “O que as urnas não nos deram diretamente foi preciso corrigir através da negociação.”

Dessa forma, a CUP fará com que dois de seus dez deputados trabalhem dentro do grupo da Junts pel Sí. Os anticapitalistas se comprometem a não votar nunca no mesmo sentido que os partidos “contrários ao direito de a Catalunha decidir”, nas palavras de Mas. Com isso, a Junts pel Sí, acredita ter desativado a CUP como fator de oposição parlamentar. Será preciso ver até que ponto chega esse compromisso, especialmente levando em conta o caráter assembleísta da CUP, que a qualquer momento poderia obrigar sua direção a mudar de rumo e transformar os acordos em letra morta.

O novo presidente catalão deu o salto da política municipal à autonômica ao ostentar a presidência da Associação de Municípios para a Independência. Mas defendeu a candidatura de Puigdemont destacando sua experiência como prefeito e seu perfil político: “Tem muito claro que à Catalunha convém exercer o direito à autodeterminação para ter um Estado próprio.”

O futuro político de Artur Mas está agora em aberto. Afirmou que não se aposenta e deixou a porta aberta a voltar como candidato a presidente da Generalitat, apesar de que, por lei, a legislatura catalã tem que durar um mínimo de 12 meses. Segundo ele, fica “liberado” do compromisso de não se apresentar que havia estabelecido para facilitar os acordos com a CUP e com o ERC (Esquerda Republicana da Catalunha). Mas, que não esclareceu se seguirá em sua cadeira parlamentar, alegou que o veto ao qual foi submetido o libera não só para voltar a se apresentar como para seguir à frente de seu partido, a Convergência Democrática, que propôs refundar para contornar os casos de corrupção. De fato, Mas saiu no sábado da Generalitat andando, dando-se um banho de massas e sorrindo aos que repetiam “presidente, presidente”.

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