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A extrema direita não conquista nenhum governo regional na França

"Somos o principal partido da oposição", disse Marine Le Pen, líder da Frente Nacional

A líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, vota em Henin-Beaumont. ATLAS

A reação do eleitorado francês foi fulminante contra a Frente Nacional (FN). A mobilização e a chamada “frente republicana” funcionaram como um cordão sanitário contra a extrema direita no segundo turno das eleições regionais francesas. A FN foi o partido mais votado em nível nacional no primeiro turno e ganhou em seis regiões, mas não conseguirá governar em nenhuma. “Fomos vítimas da manipulação e da difamação”, disse a líder ultradireitista Marine Le Pen. “Mas seremos o principal partido da oposição na maioria das regiões.”

A alta taxa de participação neste segundo turno, que se aproxima de 60% (em comparação com os 49,9% da semana passada), já prenunciava a derrota da Frente Nacional. É preciso remontar às eleições presidenciais de 2002 para encontrar uma diferença tão grande de participação entre o primeiro turno e o segundo. Naquela ocasião, com quase oito pontos porcentuais de diferença entre um e outro, a França impôs uma derrota ao fundador da FN, Jean-Marie Le Pen, frente ao conservador Jacques Chirac.

O terremoto político do dia 6, quando a Frente Nacional foi a grande vencedora das eleições regionais, ficou atenuado. O presidente do Partido Republicano (de centro-direita) conclamou, entretanto, a não esquecer o ocorrido. No domingo anterior, a FN não só foi o partido mais votado nacionalmente (com 27,73%), como ganhou em seis regiões. O primeiro-ministro socialista Manuel Valls manifestou uma opinião similar. “Não podemos cair em nenhum triunfalismo”, afirmou. “O perigo da extrema direita não foi afastado”.

Estas eleições demonstraram que o bipartidarismo é coisa do passado na França. “Já não há um abismo entre a direita e a esquerda”, declarou Marine Le Pen, “e sim entre os pró-globalização e os patriotas”. Em nível nacional, segundo dados oficiais referentes a 84% dos votos, a centro-direita obteve 40,26% dos votos, a Frente Nacional conseguiu 29,23% e a esquerda (Partido Socialista, Verdes e esquerda radical), 27,78%. Apesar desses números, a vitória da centro-direita –e, portanto, do ex-presidente Nicolas Sarkozy– é questionável. Parte de seu êxito se deve à retirada dos candidatos socialistas nas duas regiões onde Marine Le Pen e sua sobrinha, Marion Maréchal-Le Pen, tinham obtido resultados impressionantes e à conclamação de Valls a votar nos candidatos conservadores. “Agora, devemos ser capazes de gerar em nossos eleitores o desejo de votar a favor, em vez de votar contra”, disse Valls.

Estas foram as últimas eleições antes das presidenciais de 2017. “A esquerda resistiu”, afirmou o primeiro secretário do Partido Socialista, Jean Christophe Cambadélis, acrescentando, porém: “Este é um êxito sem alegria”. De fato, o Partido Socialista foi o perdedor destas eleições. Ele governa 21 das 22 regiões atuais. Depois que for reformado o mapa das regiões (serão 13 metropolitanas e 4 de ultramar), talvez seja capaz de manter meia dúzia. Mas as pesquisas previam uma derrota muito maior dos socialistas. A gestão pós-atentados de 13 de novembro, que aumentou em 22 pontos a popularidade do presidente François Hollande, e a rejeição a Sarkozy, que se negou a fazer qualquer sacrifício para conter a Frente Nacional, influíram provavelmente no resultado final.

Sarkozy, de fato, deverá enfrentar nas próximas semanas uma crise interna já anunciada por seus principais rivais internos em sua corrida de volta ao Palácio do Eliseu. A dirigente republicana Nathalie Kosciusko-Morizet se somou neste domingo às críticas. Ela disse que, se os eleitores tivessem seguido a orientação de Sarkozy de não votar na FN, mas também não apoiar uma frente republicana, a centro-direita teria perdido as duas regiões favoritas da ultradireita: Nord-Pas de Calais-Picardie e PACA (Provença-Alpes-Côte d’Azur). Os candidatos de centro-direita em ambas as regiões, Xavier Bertrand e Christian Estrosi, respectivamente, agradeceram pelo apoio recebido dos eleitores de esquerda. O primeiro derrotou Marine Le Pen por 57,21% a 42,79%, com 97% dos votos apurados. O segundo, em PACA, bateu Marion Maréchal-Le Pen por 52,61% a 47,39%, com 74% dos votos apurados.

Ser o partido mais votado em cada região é essencial porque o sistema eleitoral francês, projetado para favorecer as maiorias, dá um prêmio de 25% das cadeiras legislativas ao primeiro colocado. Embora a distância seja proporcionalmente pequena, esse bônus dá ao ganhador uma ampla margem de manobra.

Pela primeira vez na história da República, um primeiro-ministro pediu voto para seus rivais conservadores, com nomes e sobrenomes. “Na região de PACA, peço que votem em Christian Estrosi contra a extrema direita”, disse Valls com os resultados do primeiro turno na mão. “Na região de Nord-Pas de Calais-Picardie, peço que votem em Xavier Bertrand contra a extrema direita. Na grande região do Leste, peço que votem em Philippe Richert contra a extrema direita, que não pode ganhar”. Nesta última, o socialista Jean-Pierre Masseret se negou a retirar sua candidatura, o que aumentaria as chances do vice-presidente da FN Philippot, mas mesmo assim Richert venceu.

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