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Filho de Pablo Escobar: “Narcos’ não se interessou pela versão da família”

Juan Pablo Escobar diz que série da Netflix só exibe lado da agência antidrogas dos EUA

Depois de lançar um livro, o filho do maior capo das drogas diz que quer produzir a sua

Juan Pablo, filho do traficante Pablo Escobar.
Juan Pablo, filho do traficante Pablo Escobar. EFE

Dos 38 anos de vida de Juan Pablo Escobar, arquiteto colombiano radicado na Argentina, a menor parte ele passou ao lado do pai, o maior traficante de drogas que o mundo conheceu. Mas a intensidade dos 16 anos durante os quais viveu no coração do cartel de Medellín não só marcou sua vida, como inspira cada vez mais o trabalho com o qual ele “paga as contas” e se mantém com a mãe e a irmã “no exílio”, em Buenos Aires.

Sebastián Marroquín – nome que adotou depois de 1993, quando Pablo Escobar foi abatido pelas polícia colombiana em colaboração com os EUA – hoje viaja o mundo dando conferências sobre seu pai com o objetivo, segundo ele, de compartilhar sua história de fracasso e dissuadir jovens do suposto glamour da vida de um narco. Escreveu um livro, Meu pai – As histórias que não deveríamos saber, editado no Brasil pela Planeta, e lançou uma marca de roupas, a Escobar Henao, para comercializar camisetas que estampam documentos ampliados de Escobar com frases do tipo “vale realmente a pena?”.

Ele diz que a marca, “sem fazer apologias”, é bem-sucedida principalmente no México (país que experimenta hoje uma violência semelhante ou superior à que viveu a Colômbia com seu pai e outros capos da droga nos anos 90). É de lá, em mais uma viagem de trabalho, que Juan Pablo/Sebastián responde às perguntas da entrevistadora com voz calma e argumentação afiada.

Só manifesta impaciência quando fala sobre José Padilha e o resultado “irresponsável”, para ele, alcançado pelo diretor em Narcos – série da Netflix do qual gostaria de ter participado, mas com cuja colaboração o brasileiro preferiu não contar. Com essa e outras tentativas que não passem pelo seu próprio baú de recordações, ele considera que já gastou tempo demais. Convencido de ser o guardião de uma trajetória da qual “a humanidade parece ter virado especialista”, anuncia finalmente que pretende fazer sua própria produção: “Vou fazer direito e como corresponde, com sentido de responsabilidade e uma mensagem positiva”.

Pablo Escobar para as massas

Chris Brancato.
Chris Brancato.

C.M.

Juan Pablo Escobar pode ter restrições sobre como a televisão e o cinema vêm tratando seu pai e sua família em produções cada vez mais frequentes sobre sua história nos últimos anos. Mas a onda escobariana parece dar para muito mais.

A opinião é do norte-americano Chris Brancato, principal roteirista da primeira temporada de Narcos, que esteve no Brasil em novembro para participar do Telas – Festival Internacional de Televisão de São Paulo. O evento promoveu uma série de palestras e encontros com especialistas nacionais e internacionais, e ele foi quem abordou as mudanças em curso na indústria televisiva por causa de serviços por demanda como o da Netflix. “Narcos nunca seria possível com um modelo de TV com pausas para comercial. O assunto é muito obscuro, não comporta anunciantes. Essa é uma das diferenças em relação ao negócio tradicional, que está sendo profundamente afetado nos EUA, com muita concorrência pelos melhores conteúdos. Quem ganha, a meu ver, são os espectadores”, opina Brancato.

O roteirista – que já atua na segunda temporada da série que tem direção executiva do brasileiro José Padilha (Tropa de elite), só que agora como consultor – explica, detrás dos bastidores, o que os responsáveis por Narcos queriam desde o princípio com essa abordagem de Pablo Escobar: “Queríamos justamente criar uma história com os elementos que funcionaram em Tropa de elite, como a voz em off e um registro documental. Também um toque de humor, porque, do contrário, um tema como esse resultaria muito pesado”. Apesar de ter esperado boas reações sobre a série desde o princípio, Brancato se diz surpreso com o nível de êxito que ela alcançou nos EUA e em países europeus como a Alemanha. “O Wagner Moura virou uma estrela de primeiro nível nesses lugares. As críticas em relação ao sotaque foram só na América do Sul, o resto do mundo está fascinado por ele”, conta.

É ação – “narração musculosa”, como Chris Brancato define – o que impera em Narcos. Mesmo assim, seus produtores foram ao encontro dE Juan Manuel Santos para escutar o apelo do presidente colombiano sobre a produção (que o Governo da Colômbia auspicia através de uma lei de cinema que devolve 40% dos gastos em produção audiovisual às empresas que filmem em território nacional), antes de ela ter sido filmada. “Ele nos disse que acredita em liberdade de expressão. Seu único pedido foi que ficasse claro que a Colômbia tinha conseguido se livrar desses caras [os narcotraficantes] e que os heróis e as vítimas dessa guerra foram os colombianos, não os norte-americanos. É o que tentamos mostrar”, diz.

Pergunta. Como é a sua relação com a Colômbia nos dias de hoje?

Resposta. É de afeto. Continuo gostando da minha pátria e desejo a ela muito paz. Mas a relação é pouca, por causa da distância e do exílio. Gostaria que nós, os cinco milhões de colombianos que foram deslocados pela violência, tivéssemos o direito de escolher voltar para lá.

P. O que você opina sobre o processo de paz na Colômbia, que finalmente parece avançar?

R. Celebro qualquer intenção e gestão que se realize para levar a paz aos cidadãos. Estamos fartos da guerra. Porém, desconfio dos meios de comunicação, já que li tantas mentiras neles sobre mim ao longo da minha vida. Imagino que essa não seja uma exceção sobre a vida de outras pessoas. De qualquer maneira, minha postura é celebrar toda tentativa de paz, para que nós, colombianos, possamos conhecer o que é viver em um país pacífico.

Juan com o pai em frente à Casa branca. ampliar foto
Juan com o pai em frente à Casa branca.

P. Depois de ter lançado seu livro, inclusive no Brasil, a que você mais se dedica atualmente?

R. Sigo dando conferências para instigar os jovens, para que não continuem a história do meu pai, que não a repitam e sejam conscientes de suas consequências. Essencialmente, é o que faço.

P. Você tem uma marca de camisetas que estampa documentos do seu pai, a Escobar Henao. Como nasceu esse projeto e qual é seu objetivo com ele?

R. O objetivo primordial desse projeto, que nasceu faz uns quatro ou cinco anos, é utilizar a moda como um veículo de comunicação para enviar o mesmo tipo de mensagem das minhas conferências. Buscamos que os jovens sejam conscientes de histórias como a nossa para que não as repitam. Não é apologia de nenhum tipo. Também queremos poder contribuir com a comunidade dando dinheiro. Contribuimos atualmente com uma fundação na cidade de Medellín que cuida de crianças com câncer e que não têm recursos para seu tratamento de saúde.

P. Quem compra essas camisetas?

R. É muito variado. Desde mulheres e pais de família, até seus filhos. Fico surpreso com a diversidade de pessoas que a marca atinge. Parece estar dedicada a um público específico, mas ele é amplo. Sem dúvida, meu pai é um personagem que desperta muito interesse, mas não compram nossos produtos para fazer alarde de narcos. Todo o contrário: compram porque entendem que tive a oportunidade de seguir o caminho do meu pai e não o fiz. Usam as nossas roupas, porque valorizam essa atitude.

P. As camisetas estão à venda aqui no Brasil?

R. Ainda não. É no México, principalmente, onde temos mais distribuição. Não vendemos na Colômbia por respeito à dor das pessoas que sofreram com a violência e para que não digam que queremos lucrar com isso. Renunciamos ao nosso maior mercado.

P. E seu lado escritor, como surgiu? Você também escreve ficção?

R. Foi uma possibilidade que encontrei de gerar uma catarse, na qual pudesse contar tudo o que tinha vivido com muita liberdade – coisa que a editora me garantiu. Acho que a realidade supera qualquer ficção, e amplamente. Gosto mais de falar e de escrever sobre ela.

P. Quais são suas críticas à série de ficção da Nefflix sobre seu pai, Narcos?

Juan posa com o livro, lançado esta semana no Brasil. ampliar foto
Juan posa com o livro, lançado esta semana no Brasil. EFE

R. Eu desconfiaria de uma série como essa, que não se interessou por escutar a versão da família, para contar a história desse homem. Escutar apenas uma das partes, sem dúvida dá a ela um aspecto estritamente político, instalando uma mensagem que não é a real, não é a que a história nos ensinou.

P. Que lado único é esse que a série escutou?

R. O lado da DEA.

P. Como a série se beneficiaria da sua colaboração, se seus criadores tivessem contado com você e com a sua família para escrevê-la?

R. Por exemplo, incluindo um capítulo no qual a DEA cobra propina do meu pai para que ele enviasse droga aos Estados Unidos através do aeroporto internacional de Miami. Há uma dupla moral na verdade que nos querem instalar. Muitas coisas mais contribuíram para que ele chegasse aonde chegou. Não foi só graças a ele mesmo, mas à colaboração de muitos setores.

P. José Padilha, diretor geral da série, disse à imprensa que você nunca o buscou formalmente.

R. Ele mente. Com ele esteve reunida uma pessoa que me representava. Tem uma memória muito curta, o senhor Padilha.

P. Li que uma das suas críticas a Narcos é que a série não inclui uma só cena do seu pai chorando. Então ele chorava?

R. Quiseram construir um super-herói, um homem todo-poderoso, que é capaz de tudo. Uma figura digna de ser imitada, [e uma realidade] em que o sofrimento, o abatimento e a derrota nunca existem – sendo que eu, sim, vi essas coisas ao lado do meu pai. Ensinam à juventude que ser narcotraficante é o melhor. Mostram aos nossos jovens uma cultura que os faz pensar que é muito cool ser narco.

P. Seria uma série muito diferente se quisesse incluir o lado da fragilidade. Outro produto.

R. Claro que seria diferente, muito mais responsável. Se tivesse querido, realmente, escutar a família, as lições de vida que ficaram para nós e que fariam bem à sociedade, a série teria uma função diferente e seria igualmente bem-sucedida. Ou muito mais bem-sucedida do que já é. E, além disso, estaria contribuindo com a paz e com a educação dos nossos jovens. Mas aproveitam e gastam grandes quantidades de dinheiro para mostrar a eles uma cultura de terror e ensinar-lhes a vaidade.

P. Padilha disse que considerou, como diretor da série, que a família de Pablo Escobar e você, especialmente, sendo pequeno na época, não tinham toda a dimensão do que acontecia.

R. Isso revela a grande ignorância dele sobre minha própria história. O que sabe o senhor Padilha sobre ela? Por acaso ele viveu com meu pai ou comigo para garantir isso? Sabe que, desde meus sete anos, ele contava pra mim quem matava e quem não, como traficava e como não? Ele ignora a história da minha família e nunca quis entendê-la. Além disso, está cometendo um delito ao ignorar nossa autorização para tornar públicas as nossas vidas. Meu pai há de estar morto, mas eu estou vivo ainda.

P. Mas, sendo seu pai uma figura pública, você considera preciso pedir autorização?

R. À minha mãe ninguém pediu autorização para representá-la. A mim tampouco, e no entanto lá estou eu representado. Meu pai é uma figura pública, mas eu não. Estão falando também de mim, da minha história e para isso ninguém me pediu permissão. Isso é delito aqui e na China. O que acontece com José Padilha é que, porque está contando a história de um delinquente, isso lhe dá permissão para ser mais delinquente e de roubar a família [de seu personagem].

P. Sua mãe e sua irmã concordam com você? Viram a série?

R. Eu vi e recomendei a elas que não perdessem seu tempo com idiotices.

P. E você pensa em processar os responsáveis?

R. Vou decidir isso no momento oportuno. Padilha disse que eu nunca o contactei, mas também disse em algumas entrevistas que nós lhe pedimos dinheiro. Qual das duas afirmações é verdadeira? Entramos em contato com ele e lhe pedimos dinheiro ou nunca nos conheceu?

P. Ele afirmou ter recebido contatos de muitas pessoas dizendo que eram parentes ou então ligadas a Escobar e que queriam oferecer colaboração à série em troca de remuneração. É possível que tanta gente ainda tenha informação exclusiva de Escobar e espere ser remunerada por ela?

R. Não sei. Respondo pela ajuda que eu ofereci, muito oportunamente, antes que filmassem. Ofereci à Netflix e ao senhor Padilha o acesso absoluto e irrestrito a toda minha história, todos os meus documentos e provas, para que as coisas fossem contadas como realmente teriam de ser, mas não lhes interessou. Ele acha que conhece melhor Pablo Escobar que seu próprio filho, que esteve ao seu lado toda a vida e foi criado no cartel de Medellín. Por sinal, nunca o vi por lá.

José Padilha acha que conhece melhor Pablo Escobar que seu próprio filho, que esteve ao seu lado toda a vida e foi criado no cartel de Medellín. Por sinal, nunca vi o senhor Padilha por lá"

P. Na Colômbia, a série não foi muito bem recebida. Você imagina o porquê?

R. Não, não sabia disso. Sei que El patrón del mal, anterior a essa que a Netflix fez, foi muito bem. Não vejo porque Narcos não teria. Cada vez que há algo sobre Pablo Escobar, surgem muitos comentários, mas trato de não prestar muita atenção. Tenho que viver a minha vida, trabalhar e pagar as minhas contas. Não posso me ocupar de séries que nunca se interessaram em me escutar.

P. Então você não viu El patrón del mal. Ia perguntar sua opinião sobre a série.

R. Tristemente também perdi meu tempo nesse caso. Não gostei, porque a série trata o Estado colombiano como se nunca tivesse violado os direitos humanos. Essa é outra versão da história de Pablo Escobar que não é real. A única versão real está no meu livro, Meu pai – As histórias que não deveríamos saber. Todo o resto que pretenda ter relação com a realidade é pura invenção.

P. Então você é contra a ideia de qualquer pessoa faça filmes ou séries sobre a história do seu pai que não seja do seu ponto de vista? Ou simplesmente você não gosta do que viu até agora?

R. Houve muita irresponsabilidade. José Padilha acha que é mais especialista na minha família do que eu! Queria ver se eu decidisse fazer uma série sobre a vida dele, sobre o pai dele, que eu nunca conheci, e ainda assim me apresentasse como especialista e negasse sua colaboração. Não acho que ele ficaria satisfeito.

P. Me coloco como exemplo: se eu quisesse fazer uma série sobre Pablo Escobar e não tivesse acesso a você, você seria contra minha iniciativa?

R. Você acha que esse seria um trabalho sério? Digno, decente e eticamente respeitável? Você gostaria que eu fizesse uma série sobre sua vida, sem nunca falar com você, contando o que quisesse, e ainda por cima vendesse isso ao mundo como sua verdadeira história? Isso não é ser profissional, e sim estafador e mentiroso. Estamos falando de um país e de milhares de vítimas, e não pode ser assim. Houve muita dor, muitas mortes e muito terrorismo para que se fale com tanta leviandade sobre a história de um país cujo rumo foi determinado por isso.

P. Alguma série ou filme já pediu a sua colaboração?

R. Não. Já chegará o momento de fazer a minha série, direito e como corresponde: com muito sentido de responsabilidade pela sociedade e uma mensagem positiva.

P. Vi que seu tio, Roberto Escobar, tem um filme sobre seu pai.

R. Nunca soube que ele tivesse feito um filme. O que ele fez foi dedurar meu pai e entregá-lo. É informante da DEA desde 1988. Esse é meu tio, se é que se pode chamar alguém assim de tio.

P. Vem aí um filme com Javier Bardem e Penélope Cruz sobre a relação do seu pai com a jornalista que foi informante da DEA. Você sabia?

R. Não. Nunca me chamam para esses projetos. A humanidade parece ter ficado especialista em Pablo Escobar, mas sua própria família não sabe nada a seu respeito.

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