Coluna
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A Síria é aqui

Se é verdade que não há uma guerra declarada no Brasil, também é verdade que vivemos sob um clima de medo, como se estivéssemos em uma zona conflagrada

Policiamento na Favela da Maré, no Rio de Janeiro, em maio deste ano.
Policiamento na Favela da Maré, no Rio de Janeiro, em maio deste ano.Fernando Frazão/ Agência Brasil

Acompanhamos comovidos e solidários a guerra civil na Síria, cujo resultado mais visível é o deslocamento de quatro milhões de pessoas do território – quase 20% do total da população –, boa parte delas em direção à Europa. E, muitas vezes, nos felicitamos por estar tão longe de regiões conflagradas (há 12 guerras em curso no mundo atualmente, segundo a ONU), o que nos proporciona uma sensação de alívio, confirmando, de certo modo, o estereótipo de que somos um país “abençoado por Deus e bonito por natureza”. Em quatro anos e meio, calcula-se que 220.000 pessoas perderam a vida na Síria, mais da metade cidadãos comuns, o que significa uma média de 50.000 mortos por ano.

No entanto, se é verdade que não há uma guerra declarada no Brasil, também é verdade que vivemos sob um clima de medo e tensão, como se estivéssemos em uma zona conflagrada. Os dados são sempre precários, mas segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 58.497 pessoas foram assassinadas em 2014 no país, um crescimento de 3,8% em relação ao ano anterior. Esse número nos coloca em primeiro lugar mundial no ranking da violência em termos absolutos, e em 11º lugar em termos relativos –ou seja, considerando o número de mortos em proporção à população total. A ONU considera violência epidêmica quando os números atingem mais de 10 assassinatos por 100.000 habitantes –e nós já alcançamos quase três vezes essa média.

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É interessante observar que a violência vem crescendo ano a ano, desde a década de 1980, ignorando importantes ganhos sociais, como a estabilização da economia, conquistada no governo Fernando Henrique, e os programas de transferência de renda, implementados nos governos Lula e Dilma. Não por acaso, este período coincide com a forte ampliação do poder do tráfico de drogas, que deslocou-se das margens para o coração mesmo da sociedade, inserindo-se até nos intestinos dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Coincide ainda com o desmantelamento do sistema de educação –um dos piores do mundo– e com a disseminação da cultura da corrupção, que, favorecida pela percepção de impunidade, contamina o dia a dia da coletividade de alto a baixo.

A análise do perfil das principais vítimas dessa violência descontrolada demonstra que os mecanismos de inclusão social, embora relevantes, fracassaram de forma cabal por aterem-se a problemas conjunturais. Do total das mortes violentas registradas no ano passado, 68% envolveram negros ou pardos, e mais da metade das vítimas eram homens pobres entre 15 e 29 anos. Para resolver questões a longo prazo seriam necessários esforços no sentido de mudanças estruturais na sociedade, o que não foi realizado por nenhum governo, nem do PSDB, nem do PT. Preocupados apenas com a manutenção do poder, fomentaram a constituição de indivíduos consumidores –e não a formação de cidadãos inseridos em uma comunidade.

Nós, brasileiros, egoístas que somos, somente nos damos conta da tragédia da brutalidade extrema em que o país está mergulhado quando ela nos afeta diretamente. Mas a violência faz parte do cotidiano da maior parte da população –são seis assassinatos por hora. Vivendo em condições adversas em bairros distantes de cidades sem planejamento, carentes de opções de lazer, ausentes transporte público decente e educação de qualidade, jogados no desemprego, assediados pela polícia corrupta e oprimidos pelos bandidos, quase nada resta aos jovens senão escolher entre o tráfico de drogas ou as igrejas evangélicas.

O Brasil possui uma das maiores concentrações de renda do planeta: para cada dólar que os 10% mais pobres recebem, os 10% mais ricos ganham 68, situação melhor apenas que alguns países africanos (Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia) e a Guatemala. Em outras palavras, os 10% mais ricos detêm 40% de toda a riqueza nacional. Em situações de crise –como a que enfrentamos agora, quando devemos terminar o ano com uma retração de 3,15% do PIB– a tendência é de aumento das tensões sociais e, por consequência, de expansão da violência. A questão é saber se as instituições permanecem sólidas o suficiente para oferecer soluções ou se acompanharemos, impotentes, a nossa própria derrocada.

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