Guerra Civil na Síria

Obama e Hollande exigem que Rússia priorize derrotar o Estado Islâmico

EUA e França condicionam incluir a Rússia em coalizão se o país deixar de defender Assad

Obama e Hollande na Casa Branca.
Obama e Hollande na Casa Branca.NICHOLAS KAMM / AFP

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e seu homólogo francês, François Hollande, condicionaram ontem a colaboração com a Rússia contra o Estado Islâmico (ISIS, na sigla em inglês) a uma mudança de política do russo Vladimir Putin na Síria. A prioridade de Moscou deve ser derrotar os jihadistas e não defender o regime de Bashar al Assad, como faz agora, segundo Obama e Hollande.

A derrubada de um avião russo por mísseis turcos horas antes da reunião entre Obama e Hollande na Casa Branca serve para lembrar, como se fosse necessário, a complexidade do tabuleiro sírio.

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A Turquia é aliada dos Estados Unidos e da França na OTAN. A Rússia, no papel, combate o ISIS, como os Estados Unidos e a França, mas esses países suspeitam que sua intervenção na Síria obedece a outro motivo, salvar o ditador Assad. E Assad é responsável, segundo norte-americanos e franceses, de acender o pavio que desencadeou a guerra civil em 2011 e avivou o terrorismo sunita no Oriente Médio.

A visita de Hollande a Washington faz parte de um giro em busca de apoio depois dos atentados de 13 de novembro em Paris, que deixaram 130 mortos. Uma de suas propostas é a criação de uma coalizão internacional ampla e única. Hoje, na Síria, competem no mínimo duas: a liderada pelos Estados Unidos e integrada por mais de sessenta países, e a composta pelo regime sírio e seus protetores russos e iranianos.

Na entrevista coletiva após a reunião de Obama e Hollande, ficou claro que será difícil incluir a Rússia. Ambos assinalaram que é cedo para conseguir isso: os objetivos são diferentes.

“Não queremos excluir ninguém”, disse o presidente francês. Mas acrescentou que, quando se reunir com o presidente Vladimir Putin nesta semana, dirá a ele que a França pode trabalhar com a Rússia contanto que este país concentre os ataques aéreos no Estado Islâmico, e não em grupos moderados. Também exigirá dele um compromisso com uma transição política na Síria que exclua Assad.

Mais ataques

Obama disse que a Rússia será bem-vinda se quiser integrar-se à coalizão internacional, e destacou que ampliar a coalizão facilitaria a luta contra o terrorismo. Mas acrescentou: “Acredito que é importante recordar que nós organizamos uma coalizão global e que a Rússia é a exceção”.

A derrubada do avião russo evidencia, segundo o presidente dos Estados Unidos, um dos problemas da presença russa na Síria: os russos bombardeiam muito perto da fronteira turca e miram grupos rebeldes apoiados pela Turquia.

“Nous sommes tous français”

Após os atentados de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos, o jornal francês Le Monde publicou o título: "Nous sommes tous américains" (Somos todos norte-americanos).

Em 2003, a França se opôs à invasão do Iraque. Em Washington as french fries (batatas fritas, literalmente batatas francesas) foram batizadas como freedom fries, ou "batatas da liberdade".

Os atentados de Paris foram comparados ao 11 de Setembro. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que se opôs à invasão do Iraque, retomou ontem a velha citação. “Nous sommes tous français” (Somos todos franceses), disse.

Obama e Hollande se comprometeram a intensificar os ataques ao ISIS e melhorar a coordenação em matéria militar e estratégica. Salvo a retórica bélica dos últimos dias e as expressões de solidariedade de ambos os lados do Atlântico, a reunião teve poucos resultados concretos.

Nem a Rússia entrará logo na coalizão, nem se alterará a estratégia contra os jihadistas que os Estados Unidos, a França e outros aliados mantêm desde meados de 2014. Essa estratégia consiste em realizar bombardeios por ar e, paralelamente, em dar apoio às forças locais na Síria e no Iraque, os bastiões do ISIS.

Obama, apesar das críticas em Washington por suas hesitações na Síria, resiste a um envio maciço de tropas como o realizado no Iraque e no Afeganistão na década passada. Hollande, na Casa Branca, também descartou que o envio de tropas. Estados Unidos e França concordam: a solução para a ascensão do ISIS não será só militar.

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