Atentados em Paris

Raqqa, na Síria, se torna alvo dos ataques internacionais

Bombardeios na cidade síria castigam ainda mais uma população controlada pelo EI

Combatente do EI em Raqqa caminha entre soldados sírios capturados durante uma batalha em 27 de agosto de 2014.
Combatente do EI em Raqqa caminha entre soldados sírios capturados durante uma batalha em 27 de agosto de 2014.ap

A 4.200 quilômetros de Paris, os civis que ainda habitam Raqqa (metade dos quase um milhão de habitantes de antes da guerra) estão isolados. A reação francesa aos atentados de sexta-feira consistiu em intensificar os bombardeios sobre a capital do autoproclamado califado do Estado Islâmico (EI) na Síria. “Raqqa está completamente isolada hoje pelo Daesh [sigla pejorativa do EI em árabe]”, diz por Skype Abu Ahmed, coordenador de um grupo chamado Raqqa Está Sendo Silenciosamente Sacrificada.

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Faz 24 horas que os cidadãos da capital jihadista estão sem água e eletricidade. Aos bombardeios se soma a pobreza informativa. “Por volta de 23h de quarta-feira, o Daesh cortou a Internet. Não querem que haja comunicação com o exterior”, diz Abu Ahmed. “Fecharam todas as LAN houses e cassaram seus alvarás. O Daesh diz que vai investigar seus donos e só expedirá novos alvarás aos autorizados”, corroborava, via mensagens de texto, Munira K., pseudônimo de uma ex-professora que vive na cidade.

As comunicações por telefone são instáveis, e a completa desinformação alimenta os rumores. “Ninguém sabe quem bombardeia onde. Se são os russos, os franceses, os norte-americanos ou os sírios”, relata, também via Skype, Zaher H., cidadão de Raqqa hoje a salvo na Alemanha, mas cuja mulher e filhos permanecem na Síria.

O Observatório Sírio dos Direitos humanos, com sede nos arredores de Londres, informava na quarta-feira que pelo menos 33 jihadistas morreram por causa dos bombardeios nos últimos três dias. Acrescentava ainda que dezenas de familiares de jihadistas estrangeiros tentavam fugir para Mossul, no Iraque. Os habitantes de Raqqa, no entanto, desmentem essa fuga. “Depois da queda de Sinyar [no Iraque], a rota não está tão acessível, e os bombardeios no caminho são intensos”, observa o ativista Abu Ahmed. O EI contaria com 25.000 radicais estrangeiros, sendo 20% deles europeus, entre os quais os franceses seriam majoritários.

Esperando a coalizão

Aos moradores de Raqqa só resta a possibilidade de se trancarem em suas casas. Os mais ricos recorrem a geradores ou baterias elétricas, enquanto os demais estão fadados ao isolamento. Os jihadistas endureceram os controles nas principais saídas da cidade, e as rotas empregadas pelos traficantes de pessoas se tornaram perigosas ou excessivamente caras. “Os traficantes cobram 150 euros [600 reais] por pessoa para chegar à Turquia, e em Raqqa as famílias são numerosas, e ninguém pode pagar esse dinheiro”, conta Zaher H.

A resposta dos líderes internacionais do G20 ao massacre de Paris despertou otimismo, com a perspectiva de que se forme uma aliança internacional que aproxime as posições da Rússia e as da Europa e EUA. Até agora, caças russos, norte-americanos, franceses, turcos e sírios compartilham o céu sobre território da Síria, mas cada um seguindo sua própria agenda.

Entretanto, numerosos especialistas se mostraram céticos com relação às declarações políticas. “É uma resposta simbólica que em nada irá alterar a situação no terreno”, opina Thomas Pierret, analista e professor da Universidade de Edimburgo sobre o anúncio do Governo francês de que pretende triplicar sua “capacidade de ação” na Síria. “Os interesses da Rússia diferem dos da França ou dos EUA. [O presidente russo, Vladimir] Putin pretende apoiar [o líder sírio, Bashar] Al Assad em vez de se centrar no EI. Mas ele pode tentar inserir a França em sua agenda política para preservar Assad”, acrescenta Pierret.

Outros especialistas ressaltam a ineficácia dos ataques aéreos iniciados um ano atrás pela coalizão liderada por Washington. Já foram feitos 8.125 ataques (2.804 em Síria), acabando com a vida de entre 8.000 e 10.000 dos 50.000 jihadistas supostamente presentes na Síria e Iraque. A maioria dos especialistas militares concorda a respeito da necessidade de mobilizar tropas terrestres – algo que até agora todos os atores envolvidos rejeitam.

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