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A igualdade alcançada é uma brincadeira?

O machismo não vai desaparecer, mas é preciso encurralá-lo. A primeira coisa é conquistar o debate público para ir ganhando terreno na esfera privada

Marcha das mulheres no Rio, no final de outubro.
Marcha das mulheres no Rio, no final de outubro. AP

Existe o temor de que as mobilizações não sirvam para nada, mas servem. Que se manifestar pela igualdade entre os sexos na rua –no Brasil, na Espanha, no México, na Índia, no Canadá–, que romper o silêncio na mídia ou nas redes sociais não vai fazer ceder a pressão do machismo. E é verdade que o machismo não vai desaparecer depois de uma marcha pública ou de uma campanha na Internet, mas também é verdade que pouco a pouco a mentalidade da população está mudando. Continuarão as notícias de mulheres assassinadas, as estatísticas de maltratadas, continuará a discriminação salarial e trabalhista, o teto de vidro que bloqueia a ascensão profissional das mulheres, continuarão o assédio nas ruas, os estupros e abusos, continuarão a ocorrer inúmeras manifestações de micromachismos: piadas grosseiras, desprezos, apalpadas, desrespeitos, mensagens envenenadas nos meios de comunicação.

O machismo não vai desaparecer, mas é preciso encurralá-lo. A primeira coisa é conquistar o debate público para ir ganhando terreno na esfera privada. Que as mulheres que sofrem e suportam a violência saibam que não têm de aguentar nem mais um minuto, e que não estão sozinhas. Que os valentões que desprezam a mulher, mesmo que o façam a partir de um falso galanteio paternalista, se deparem com a resposta de seu entorno. Que aqueles que se gabam de serem machos por serem rudes e agressivos não recebam os aplausos de seus comparsas. Que os machos alfa não pensem que são atraentes. Que as mulheres lutadoras que seguem em frente tenham ao menos esperança que os obstáculos começarão a diminuir. Que as pessoas que têm poder ou influência, que têm microfones e escritórios, os usem com responsabilidade e sensibilidade.

Existe um discurso perverso que se ouve muito segundo o qual o feminismo seria o inverso do machismo, e, portanto, ambos seriam discriminatórios. É tão absurdo quanto defender que o racismo é a mesma coisa que combater o racismo, a escravidão e o abolicionismo, a intolerância e a tolerância, ser homossexual e ser homofóbico. Martin Luther King e a Ku Klux Klan. O feminismo é uma das causas mais justas do nosso tempo porque não persegue o domínio, mas a igualdade. Suas propostas podem ser discutidas com serenidade, mas não seus objetivos. O feminismo não é uma causa das mulheres, como o combate à escravidão não foi um problema dos negros. Por isso é muito importante a presença de homens em manifestações como as que aconteceram no final de outubro no Rio em São Paulo e no dia 7 em Madri.

Outra mensagem envenenada: não há necessidade de lutar pela igualdade porque ela já foi alcançada, pelo menos no mundo ocidental. Estão brincando? De acordo: há muito pouco tempo as leis dos países democráticos foram eliminando discriminações por razão de sexo que estavam em vigor (e não todas: veja-se a delicada questão da saúde sexual e reprodutiva em tantos países da América). Mas, mesmo supondo que tenham desaparecido todas as injustiças na lei, se pode dizer seriamente que se conquistou a igualdade na vida real? Nem em casa nem no espaço público: vejam as estatísticas de crimes ou de emprego, observem a divisão das tarefas em suas próprias famílias, perguntem às suas conhecidas e vizinhas, preocupem-se por suas colegas de trabalho, prestem atenção ao que ainda se vê diariamente em qualquer esquina. Ponham-se no lugar de quem convive diariamente com o medo: o medo do desconhecido em um beco, com medo do explorador do seu trabalho ou do seu corpo, com medo do traficante de sua viagem em busca de uma vida digna, com medo do monstro com o qual compartilha colchão. Realmente esses problemas não afetam especificamente as mulheres? Vocês realmente acreditam que é uma tragédia de magnitude similar para ambos os sexos as agressões, o assédio, os assassinatos, o tráfico, a exploração sexual? Vocês sabem em que mundo vivem?

Eles não estão brincando. Sabem o que dizem e por que o dizem. Querem que nada mude. Mas estão perdendo. A história não está do lado deles.

Ricardo de Querol é editor-chefe do El PAÍS e coordenador do blog Mujeres

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