Tribuna
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Rede de rabos presos

Como explicar para um estrangeiro que o presidente da Câmara dos Deputados no Brasil tem contas não declaradas na Suíça e permanece no cargo?

Meu olhar constrangido para o amigo japonês traduz o impossível. Como explicar para um estrangeiro que o presidente da Câmara dos Deputados no Brasil tem contas não declaradas na Suíça e permanece no cargo?

Na terra do sol nascente não restaria um único congressista vivo. A vergonha seria suficiente para um sepuku coletivo. O suicídio ritual japonês permanece como possibilidade para redimir o Congresso. O Senado e as demais instâncias dos três poderes podiam inspirar-se na imagem em um necessário mea culpa.

Sem divagar em esperanças utópicas, volta a pergunta. Por que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, permanece no cargo, apesar das contas na Suíça?

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A resposta me surge na imagem mais trágica do que cômica. Cunha se protege na rede de rabos presos que liga praticamente toda a sociedade brasileira. Seja por participar ou nos omitir, estamos envolvidos com o jogo sujo que permeia nossa sociedade.

Meu amigo japonês me abraça com um calor baiano e põe panos quentes. “Corrupção existe em toda parte. Lá em casa a seriedade dos vazamentos nucleares de Fukushima foi abafada. Nos Estados Unidos, o limite de tolerância radioativa nos alimentos foi multiplicado centenas de vezes após a contaminação. Esta rede de rabos presos é planetária. No Brasil é apenas mais evidente."

Nunca houve tanta informação disponível como hoje. Na multidão de vozes encontrar fontes confiáveis é um desafio. Na cacofonia de opiniões, duas vozes me aparecem como faróis. Ricardo Semler e Eliane Brum tecem análises maduras e pertinentes sobre o momento que vive nosso país. Vale clicar em seus nomes para entender estas leituras e pensar em como navegar no mar de lama.

O mais difícil da situação que vivemos no Brasil é que qualquer mudança, passa por cortar da própria carne, mudanças internas dentro de cada um de nós.

Acredito que já passamos do ponto de inflexão, críticas como as do filme Que horas ela volta? de Anna Muylaert, expõe quem somos e de onde viemos com uma honestidade necessária para a sociedade brasileira.

Assim como o racismo a falta de integridade só pode ser combatida se a reconhecermos.

Assim como é impossível acordar alguém que finge estar dormindo, não podemos aprender nada sobre um tema que acreditamos dominar. Minha contribuição e proposta é um banho de humildade. Precisamos desta limpeza.

Como uma lagarta em seu casulo, é hora de nos dissolver se de fato queremos alçar o voo da borboleta. Fica a esperança biológica: um percentual ínfimo de células da lagarta começam sua mutação que de início é combatida com todas as forças pelo sistema imunológico da lagarta. Estas células são chamadas de imaginais. Sugestivo não?

Por um Brasil que tece sua crisálida e não seus rabos presos.

Lucas Tauil de Freitas é jornalista, ouve e conta histórias. Vive com a família na Nova Zelândia, quando não está atravessando a grande água a bordo do Santa Paz.