Tribuna
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De uma poça d’água ao Ganges

Há quem diga que somos feitos de moléculas e células. Pode ser, mas somos mesmo é feitos de histórias

Hindus tomam banho no rio Godavari, durante festival na Índia.
Hindus tomam banho no rio Godavari, durante festival na Índia.Bernat Armangue (AP)

Nunca fui à Índia, nem me banhei nas águas do rio sagrado. Não esparramei as cinzas dos meus ancestrais nas margens de Varanasi, a mais velha das cidades. Ainda assim amo o Ganges, arquétipo último das águas sag’radas.

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Vou morrer. Cada um dos que amo vai morrer. É certo, todos nós vamos morrer.

Ter data marcada, entretanto, dá um matiz diferente ao óbvio. Minha partida foi agendada por telefone. Um diagnóstico de câncer e um médico pouco cuidadoso e lá estou, com o fone na mão e a cara no piso.

Menos de uma semana antes da chamada telefônica, a mulher que amo me contou que esperamos nosso primeiro neném. Tem pão no forno. A esperança ajuda a lidar com a notícia. Deixo Manaus, onde a campanha amazônica do Greenpeace continua sem meus textos.

De volta a São Paulo, a romaria de médicos e procedimentos é aviltante. Realizo na pele o que é o ato médico. Depois de um chá de cadeira de hora e meia, o homem de branco me recebe com um cigarro aceso no vão do mindinho.

As palavras me escapam, estou absorvido pelo cigarro que, já quase na bituca, ascende um segundo. O médico fala algo sobre rádio ou quimioterapia, parece que as estatísticas não estão a meu favor. Com menos de trinta anos, meu metabolismo jovem esparrama o câncer na próstata rápido. Dois anos de vida.

O terceiro cigarro em cadeia é a gota d’água, subo meu olhar do avental amarelado para os olhos opacos. Cuspo as palavras enquanto me viro para a porta.

— Doutor, o senhor não trata mais de mim.

Foi outro médico de ancestrais comuns quem me ajudou.

— Tauil, disse o Dr. Sami Arap, com sua voz calma e profunda, tem algo nessa sua história que não fecha. Seus exames de PSA, o indicativo de problemas de próstata, estão normais, não pedem uma biópsia. Por que você fez um exame tão invasivo?

Para tornar uma longa história curta, um reexame das lâminas da biópsia feita por um patologista mais experiente reagendou minha partida.

— Tauil, você tem uma infecção feia, mas não vai morrer disto.

Entre os cigarros do primeiro médico e o libanês desembaraçar do Dr. Arap, passaram longos quatro meses. Com o pãozinho no forno, devolvi minha casinha alugada na Lapa e mudei para o apartamento da namorada.

Numa das tardes daquele outono difícil, estávamos na banheira quentinhos, quando Sandra, com as mãos na barriguinha, me perguntou:

— O que você quer fazer nestes meses que temos juntos? Quais são seus sonhos?

A perspectiva do tempo revela detalhes que passaram desapercebidos quando os vivi. Sandra e eu nos beijamos pela primeira vez no dia dois de fevereiro de 2001, dia de Janaína, rainha do mar.

Na água, outra vez tecíamos nossos sonhos, nossa odisseia.

— Queria escrever, mas não tenho nenhuma história para contar.

— Fora isso, o que mais você sonha fazer?

Em plena Vila Madalena o Ganges faz sua mágica. Pelos canos da cidade invade nossa poça de água branquinha, nossa banheira.

— Menino, eu sonhava em velejar o mundo.

Dez dias antes do solstício, veio à luz, Clara nossa primeira filha. Antes que ela completasse um ano, havíamos feito meia dúzia de cursos de navegação, Sandra e eu, deixado nossos empregos e a rotina urbana em São Paulo e comprado um veleiro oceânico de 39 pés, o Santa Paz.

Nos últimos doze anos velejamos metade do Planeta. Da Inglaterra a Grécia. Dali para o Brasil e da nossa terra até a Nova Zelândia.

No caminho aprendemos a desacelerar, a ser pais, professores e marujos. Nasceu a alegria de Júlia, nossa segunda menina. Juntos, forjamos uma família resiliente, que se move devagar, saboreia cada ancoragem, cada encontro.

Na prorrogação de minha partida entrei em contato com os elementos, aguçaram-se meus sentidos. Senti, nas águas de dentro, o passar das estações, os movimentos do sol e da lua.

Aprendi que o Ganges é muito maior do que os dois mil e quinhentos quilômetros que separam suas cabeceiras do delta. Em remotas baías de águas transparentes e salgadas, banhei-me em suas águas. Com as mesmas águas cozinhamos nosso alimento e filtramos nossa água de beber a bordo do Santa Paz. Ali, o Ganges que recebe tudo que sai de nós, nos alimenta em um ciclo indistinto.

Perceber-me parte do ambiente, este rio sagrado, como os peixes no mar e os animais nos prados me atinge em cheio. Eu também sou Mãe Ganga. A mesma divindade que escorre pela cabeleira de Shiva dos glaciares do Himalaia e serpenteia até a baía de Bengala. Eu sou parte deste todo, de cada gota que do delta no Oceano Índico, se esparrama pelo planeta.

Há um só planeta, um só rio. Ele não nos pertence, somos pastores de suas águas. Tudo que produzimos e descartamos, cada sacola plástica, cada descarga vai para o rio. Mas o Ganges tem dimensões insondáveis. Também vão para suas águas nossos pensamentos e palavras, sentimentos e ações. A mesma água que bebemos e que nos banha.

O Ganges não precisa de nós. Sem o Ganges nossa partida está agendada, nem é preciso um telefonema.

O dilema do Ganges está no encontro da realidade física com a dimensão mitológica. O paradoxo do Rio flui dos mesmos fiéis que reverenciam seu fluxo sagrado. Acreditam que o Ganges é Deus e que o Divino não requer cuidados.

Bem, os dejetos nas margens de Varanasi contam outra história.

Um sofisma parecido justifica a sanha por um progresso infértil que permeia o planeta. Vivemos sob o mito infantil de que a Terra, seus recursos, flora e fauna estão aqui para nos servir. Crescei-vos e multiplicai-vos...

Entretidos pela roda-viva, confundimos estudos climáticos com a última ficção científica, os protestos nas ruas com a novela das oito. Vamos anestesiados de frente a nossas caixas brilhantes. A vida segue sem verdadeiras mudanças. Tudo há de se acertar...

O aquecimento da atmosfera e a acidificação dos oceanos contam outra história.

Há uma anedota em que povos tradicionais referem-se à gente das cidades como o povo das caixas.

— Vivem em caixas. Usam caixas móveis para ir de uma caixa a outra.

— Passam horas a olhar caixas pequeninas e grandes, onde brilha um sol frio.

É mesmo hora de pensarmos fora da caixa. Esta em que estamos vai afundar.

Não há mudança ou revolução no outro, cada um pratica a sua mudança. Podemos, entretanto, tecer vínculos e integrar um tecido social. Podemos inspirar e transpirar a sua renovação.

Talvez de olhos fechados e em silêncio possamos ver sem tanto brilho a nos cegar, pensar e sentir sem tanto ruído a nos distrair.

Hollywood não conta, mas ser livre não é fazer o que se quer, ser livre é fazer o que tem de ser feito. Agir de acordo com nosso valores. A mudança acontece quando reduzimos o vão entre nosso discurso e nossos atos.

Há quem diga que somos feitos de moléculas e células. Pode ser, mas somos mesmo é feitos de histórias. Nossa narrativa é que conta quem somos, de onde viemos, dá norte e rumo a nossa rota. Sem identidade não há sentido e propósito. Não é de se estranhar que andemos tão deprimidos, sem esperança. Estamos sós em nossas poças d’ água. Não importa quão chique ela seja, uma poça d’água não é um rio.

É em fazer parte do ciclo da vida, no integrar uma comunidade que encontramos sentido. Venha para o Ganges compor uma nova narrativa, celebrar a vida de olhos abertos. Você também é Mãe Ganga.

Lucas Tauil de Freitas é jornalista, ouve e conta histórias. Vive com a família na Nova Zelândia, quando não está atravessando a grande água a bordo do Santa Paz.

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