Análise

Um crime inseparável do nazismo

Afirmação de Netanyahu contraria fatos que só os negacionistas desconsideram Quando Hitler conversou com o mufti de Jerusalém, o Holocausto já havia começado

Britânicos e americanos no campo de concentração de Vittel em 1944.
Britânicos e americanos no campo de concentração de Vittel em 1944.

Apesar de ser um dos acontecimentos mais bem estudados da história, sobre o qual nunca param de sair livros relevantes – como KL: A History of the Nazi Concentration Camps (inédito no Brasil), de Nikolaus Wachsmann, e Terra Negra (a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras), de Timothy Snyder, duas obras recentes que causaram enorme impacto no mundo anglo-saxão –, a Shoah continua cercada por zonas escuras. Faltam pedaços que provavelmente nunca serão conhecidos, talvez porque a própria atrocidade e escala do crime, a vontade de exterminar todo um povo, escapa à compreensão. Mas há pontos sobre os quais existe um consenso geral entre os historiadores, só desafiado pelos revisionistas e os negacionistas. Um deles é que, já no princípio da sua carreira política, Hitler tinha a clara vontade de exterminar os judeus da Europa, algo muito presente desde seus primeiros escritos. Isto não implica que soubesse como fazer isso, mas sua visão de mundo incluía a aniquilação dos judeus. Outra é que o Holocausto como extermínio industrial desse grupo é impossível de dissociar da Segunda Guerra Mundial, sobretudo da invasão nazista nos países que acolhiam uma maior população hebraica: a Polônia, em setembro de 1939, e a União Soviética, em junho de 1941.

MAIS INFORMAÇÕES

A afirmação do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de que foi o mufti de Jerusalém, Haj Amin al Husseini, quem teria convencido Hitler a exterminar os judeus, num encontro em 28 de novembro de 1941 na Alemanha, quando o líder nazista ainda pensava em deportá-los, não só contradiz a opinião de todos os historiadores sérios com também contraria fatos que só os negacionistas ignoram. Quando a reunião a que se refere Netanyahu ocorreu, o Holocausto já havia começado. Para citar apenas um exemplo, havia tido lugar, em 29 e 30 de setembro daquele ano, uma das maiores atrocidades cometidas pelos nazistas: o assassinato de quase 35.000 judeus nos subúrbios de Kiev, na vala de Babi Yar, numa só operação de extermínio maciço.

Em sua correspondência e no livro onde expunha sua doutrina política, Minha Luta, Hitler emprega a palavra Vernichtung, extermínio, quando fala dos judeus. Em uma carta de julho de 1920, descreve o povo judeu como “a tuberculose racial das nações” e afirma que, como tal, deveria ser eliminado. Muitos revisionistas sustentam que o fato de não se ter notícia de um só documento assinado por Hitler autorizando o Holocausto o exime de culpa. Quase nenhum historiador acredita que algo assim exista, pois as ordens definitivas teriam sido orais, apesar de o Holocausto ter gerado uma gigantesca quantidade de documentação, como se se tratasse de uma atividade administrativa qualquer – nisso se baseiam o conceito da “banalidade do mal” de Hannah Arendt e os estudos do grande pesquisador Raoul Hilberg, autor de A Destruição dos Judeus Europeus, uma obra de referência.

Dos seis milhões de mortos que o Holocausto deixou, mais ou menos metade foi assassinada em campos de extermínio como Auschwitz e Treblinka, em câmaras de gás ou forçada a trabalhar até morrer, mas a outra metade foi aniquilada por grupos especiais das SS, os Einsatzgruppen. Esses esquadrões da morte começaram a atuar na Polônia em 1939 e depois se estenderam por toda a Europa Oriental, especialmente a URSS. Primeiro chegavam as tropas, e em seguida apareciam esses sinistros grupos cuja missão não era militar nem estratégica. Só tinham uma tarefa: assassinar em massa os judeus e outros grupos raciais considerados inferiores. Quando Heinrich Himmler, responsável pelas SS e um dos encarregados por Hitler de levar a cabo o extermínio, viu o efeito que essas execuções maciças causavam sobre os soldados, manchados de sangue e restos de ossos após passar horas atirando contra crianças, mulheres e homens, decidiu procurar um método que não abalasse o moral das tropas. Assim surgiram as câmaras de gás, que, por outro lado, os nazistas já tinham utilizado dentro do seu programa de eutanásia.

Ian Kershaw, um dos grandes historiadores do nazismo, biógrafo de Hitler e estudioso da Solução Final, afirmou em uma conversa com o jornalista Laurence Rees, da BBC, ele próprio um pesquisador dos crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial, que “as políticas contra os judeus foram se tornando mais radicais nos 18 meses transcorridos entre a invasão da Polônia e a invasão da URSS”. “Desde o começo, os judeus estavam sendo exterminados aos milhares na União Soviética, e no verão [boreal] de 1941, no fim de julho ou começo de agosto, foi tomada a decisão de assassinar também as mulheres e crianças judias. O genocídio dos judeus foi totalmente central na invasão da URSS. Isso levou, no outono/inverno de 1941/1942, ao genocídio total dos judeus no território dominado pelos nazistas. Mas a pergunta sobre se a invasão da URSS quer dizer genocídio só pode ser respondida com um sim”.

O nazismo teve em seu epicentro, desde o início, a vontade de exterminar todos os judeus, por isso começou a promover as matanças assim que pôde – com a invasão da Polônia e da URSS. Negar isso é negar a história e, portanto, a própria Shoah.