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Em livro, FHC elogia Odebrecht e diz que não se governa sem PMDB

Ex-presidente deixou de dar secretaria a Aécio Neves por receio de reação do PMDB

FHC e Sarney nas comemorações dos 15 anos do Real.
FHC e Sarney nas comemorações dos 15 anos do Real. Antonio Cruz/ABr

"Essa base de apoio eu a estendi depois das eleições e peguei o PMDB (...), e vejo assim o futuro também. Seja eu o presidente ou outro (...), ninguém vai poder governar o Brasil sem ampla base de apoio." A frase poderia ter sido dita pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou por sua sucessora, Dilma Rousseff, mas se trata de um trecho das memórias do tucano Fernando Henrique Cardoso. O livro, Diários da Presidência, que será lançado este mês pela Companhia das Letras, abrange os dois primeiros anos do Governo de FHC, de 1995 a 1996. "É melhor que ele [PMDB] se fortaleça nas mãos de gente que não seja um caudilho local", afirma o tucano.

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Já naquela época o partido que hoje tem a mandatária petista na palma de sua mão – com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de caneta em punho e a autoridade de aceitar ou não pedidos de impeachment contra ela – era o fiel da balança. A ponto de Fernando Henrique deixar de fazer nomeações para não irritar os peemedebistas: “Aécio [Neves, então deputado federal] (...) queria saber se, como não vai ser candidato a prefeito [de Belo Horizonte], poderia ir para o lugar do Cícero Lucena [secretário de Integração Regional]”. De acordo com o relato do tucano, o pedido foi negado, sob a justificativa, entre outras coisas, de que a nomeação “vai criar um problema com o PMDB e tudo mais”. Quase como um consolo para o parlamentar, FHC emenda que “aquela secretaria não tem muito significado, e não há sentido em tê-la por compensação”. O hoje senador Aécio Neves, em diversas passagens do livro, é tratado apenas como “Aecinho”.

As preocupações e dilemas acerca das privatizações conduzidas durante seu Governo permeiam todo o primeiro volume das memórias do tucano. Um dos focos de tensão entre os ministros da Fazenda (Pedro Malan) e do Planejamento (José Serra), o tema privatização preocupava FHC em particular com relação à Vale do Rio Doce. “Não tenho a mesma comichão em favor da privatização na Vale que vejo em vários outros setores e no próprio governo”, comenta em fevereiro de 1995. No mês seguinte, o então presidente conversa sobre o assunto com o ex-presidente militar Ernesto Geisel, que “tampouco é favorável à privatização da Vale do Rio Doce”.

O tucano, cuja passagem pelo Palácio do Planalto associaria todo seu partido às privatizações, muito por conta das críticas de oposicionistas, chega a dizer em seus comentários cotidianos que não sabe “se vamos realmente chegar a implementar algumas dessas privatizações, nem estou convencido de sua total necessidade”. “No geral, sim, mas em certos casos eu mesmo tenho ainda reservas mentais”, comenta. Em outro momento, FHC pondera: “Quero me convencer melhor, não que tenha alguma reação antiprivatista, mas porque ela é um instrumento muito grande de coordenação de políticas econômicas, se bem usado".

Almocei aqui com Emilio Odebrecht e a Ruth [Cardoso]. Emilio veio trazer sugestões, nada para ele, só a respeito de vários temas de interessa nacional."

Elogios à Odebrecht

Outro personagem das páginas do livro é Emilio Odebrecht, então presidente do grupo empresarial que leva seu nome — e que hoje está mergulhado no escândalo investigado pela Lava Jato. O filho de Emilio, Marcelo, está preso por envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras. Ao patriarca da empreiteira, FHC só tem elogios: “Almocei aqui com Emilio Odebrecht e a Ruth [Cardoso]. Emilio veio trazer sugestões, nada para ele, só a respeito de vários temas de interessa nacional. É curioso. Tem um nome tão ruim a Odebrecht, e o Emilio tem sido sempre correto, há tantos anos”. Mais à frente, nova menção ao empresário e a escândalos envolvendo a construtora: “Curioso, a firma Odebrecht ficou tão marcada pela CPI dos Anões do Orçamento, com o negócio da corrupção, e no entanto o Emílio é um dos homens mais competentes do Brasil em termos empresariais”.

O presidente afirma que em certo momento, Emílio o visitou para discutir “uma espécie de radiografia dos grupos empresariais brasileiros”. FHC diz que tem vontade de conversar com o empresário: “Temos que organizar o capitalismo brasileiro”. Atualmente, no âmbito da Lava Jato, a Odebrecht é acusada, entre outras coisas, de participar da formação de cartéis com outras construtoras para fixar preços em licitações.

Sobre a Petrobras, FHC relata reunião com Benjamin Steinbruch, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, na qual o presidente indagou o executivo sobre a estatal petrolífera. “Ele me disse que a Petrobras é um escândalo. Quem manobra tudo e manda mesmo é o Orlando Galvão Filho [então presidente da BR distribuidora e diretor financeiro da estatal]”, afirmou o tucano. Mais à frente o tucano diz que "o que há de mais grave é que todos os diretores da Petrobras são membros do conselho de administração".

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