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Com novas provas da Suíça, cresce pressão sobre Cunha na Câmara

Lula e ala do PT negociam sobrevida para ele, que não controla Conselho de Ética da Casa

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, no dia 15.
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, no dia 15. AFP

"O Eduardo Cunha tem prazo de validade: 90 dias. Este é o tempo que o Conselho de Ética tem para analisar a denúncia contra ele." O prognóstico feito nesta semana pelo deputado Silvio Costa (PSC-PE), um dos vice-líderes do Governo Dilma Rousseff (PT), pode estar próximo de se concretizar. A cada dia que passa, a situação do peemedebista que preside a Câmara dos Deputados se complica ainda mais.

Os detalhamentos dos dados das contas correntes que Cunha teria na Suíça e a abertura de um novo inquérito no Supremo Tribunal Federal contra ele, sua mulher (Claudia Cordeiro Cruz) e sua filha (Danielle Dytz da Cunha Doctorovich) são mais combustível para seus opositores. Nos corredores do Congresso Nacional, há os que dizem que ele cairá antes mesmo de analisar os quatro pedidos de destituição de Rousseff.

“Hoje há mais evidências contra o Cunha do que ontem. E amanhã, pode ser que tenha mais ainda. Já estava passando da hora de ele responder a um processo no Conselho de Ética”, afirmou o deputado Adelmo Carneiro Leão (PT-MG). Ele é um dos 50 signatários do pedido de cassação de mandato do presidente da Câmara que deve começar a tramitar na próxima semana e tem a conclusão prevista para dezembro, conforme a própria comissão.

Movimentação de Lula

A perda de apoio de Cunha foi gradual, mas movimentações do PT e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a favor dele mostram que o peemedebista ainda está vivo. A fritura política de Cunha começou em meados de maio, quando seu nome apareceu na Operação Lava Jato. Em junho, quando ele rompeu com o Governo Rousseff, sob a alegação de que era alvo de vazamentos seletivos da investigação, os apoiadores se afastaram um pouco mais. O primeiro sinal de que a oposição a ele estava crescendo surgiu em agosto, quando um pequeno grupo de 18 parlamentares assinou um manifesto pedindo que ele se afastasse da Mesa Diretora da Câmara. Foi nesta ocasião que começaram a aparecer os principais indícios de que ele teria se beneficiado do esquema ilícito que desviou ao menos 6 bilhões de reais da Petrobras.

Nesta última semana, 50 deputados, entre eles um grupo de 32 petistas, assinaram o pedido de cassação de seu mandato e líderes de quatro legendas de oposição ao Governo Rousseff (PSDB, DEM, PPS e SD) fizeram um jogo de cena ao elaborarem um documento pedindo seu afastamento da presidência da Casa. Até mesmo no Senado o assunto ganhou corpo. Nas sessões de quarta e quinta-feira, por exemplo, parlamentares se revezavam na tribuna para criticar o presidente da Câmara e para defenderem sua cassação.

Acordão

Tentando aproveitar a onda negativa do peemedebista e vendo a possibilidade de dar uma sobrevida ao mandato de Rousseff, Lula e outras lideranças do PT sinalizaram a Cunha que ele poderia ter o seu mandato mantido no Conselho de Ética desde que engavetasse os pedidos de impeachment presidencial que ainda tramitam na Casa. Oficialmente todos negam essas tentativas de acordo, mas as intensas movimentações em Brasília e o passado recente mostram que elas são mais verdadeiras do que falsas.

Em 2007, quando o então presidente do Senado Renan Calheiros quase teve seu mandato cassado, o próprio Lula fez um acordo para que ele não perdesse o cargo. Primeiro, Calheiros foi absolvido (por 40 votos a 35, e 6 abstenções) no plenário do Senado de ter quebrado decoro parlamentar. A acusação era de que ele teria usado recursos do lobista de uma empreiteira para pagar o aluguel e a pensão alimentícia para a jornalista Mônica Veloso, com quem ele tem uma filha. Depois, Calheiros renunciou à presidência antes de enfrentar outros cinco processos, um deles era o de usar laranjas para controlar duas emissoras de rádio e um jornal em Alagoas. Com a renúncia, ele acabou inocentado pelo plenário.

O caso de Cunha é bem mais complicado que o de Calheiros. As cifras envolvidas nas denúncias são superiores (só nas contas da Suíça a suspeita é que ele tenha movimentado mais de 24 milhões de dólares) e a perda de apoio parlamentar é cada vez maior.

Um sinal negativo para o deputado é que, ao contrário das outras comissões da Casa, o Conselho de Ética não está sob comando um aliado seu. O presidente do órgão é o deputado do PSD da Bahia, José Carlos Araújo, que derrotou Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), um defensor de Cunha, na eleição interna. Além disso, o presidente da Câmara terá de escolher a quem agradar se o Governo, que garantiria ao menos nove dos 19 votos do Conselho de Ética, ou os opositores de Rousseff, que tem seis votos. Os outros quatro votos ainda são considerados uma incógnita.

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