Desolação na área devastada por um deslizamento de terra na Guatemala

Autoridades confirmaram 62 mortos e 400 desaparecidos em El Cambray II

Dezenas de voluntários esperam sua vez para entrar na área devastada
Dezenas de voluntários esperam sua vez para entrar na área devastadaJ. Elías T.

Uma mulher com o olhar perdido, sentada na porta da igreja católica deste povoado, murmura o que pode ser uma oração. Seus olhos refletem dor, fadiga e insônia. Parece que a esperança por encontrar duas de suas filhas e sete netos, enterrados sob toneladas de rochas e lama, é o único fio que a mantém neste mundo. Uma luz que enfraquece com o passar das horas.

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A poucos metros do lugar, Josué Chacón, de 18 anos segura um bebê em seus braços. Ele se aproxima do jornalista para perguntar se tem alguma lista de sobreviventes ou de cadáveres resgatados nas últimas horas. “A polícia não nos deixa chegar perto da vila para saber como ficou a casa da minha sogra e da minha cunhada. Só nos disseram que está debaixo da terra”, diz em tom de queixa. Acrescenta que sua sogra tem 36 anos e sua cunhada, 10, e sua esposa está devastada, com forças apenas para cuidar do bebê de ambos. “Minha esposa está viva porque desde o casamento veio morar na minha casa na cidade”, conclui.

No centro do povoado, a prefeitura instalou um abrigo onde alguns dos sobreviventes passaram a noite. Além de uma cama e cobertores, receberam alimentos e assistência médica e psicológica. Para os mais jovens, alguns brinquedos para entretê-los. Hugo Recinos, diretor de Desenvolvimento Social do município local, conta que no albergue estão sendo atendidas 141 pessoas e poderiam atender mais sobreviventes se for preciso.

Entre os refugiados, Matilde Raymundo, segura um bebê em seus braços, enquanto dois de seus seis filhos se divertem com brinquedos. Conta que sua família sobreviveu, mas seis pessoas da família imediata de seu marido, continuam desaparecidas. “Eles foram enterrados. Não tiraram nenhum corpo, mas ainda tenho fé em Deus de que serão resgatados vivos”.

A população, que este sábado tenta recuperar a normalidade, é patrulhada por forças combinadas do exército e da polícia. Dezenas de voluntários com picaretas, pás e enxadas, esperam sua vez de viajar até El Cambray II, a aldeia enterrada na noite de quinta-feira por uma avalanche. As medidas de segurança foram aumentadas desde as primeiras horas, depois que se descobriu que um bando de ladrões estava pilhando algumas casas em ruínas.

A patrulha militar que percorre o povoado está sob o comando do coronel Fernando Rodriguez Cifuentes, porta-voz oficial das forças armadas. Ele conta que, desde a madrugada, 381 soldados, entre os quais destaca a Unidade Humanitária de Resgate com experiência nesse tipo de atividade, foram deslocados para o local da tragédia. “Eles fizeram cursos com especialistas da Espanha e dos Estados Unidos”, disse ao EL PAÍS.

Até o meio-dia do sábado o número de mortos subiu para 62 mortos. “São números preliminares”, diz Rodriguez, acrescentando que existem 125 casas literalmente enterradas sob toneladas de terra. Questionado sobre o número de desaparecidos – pessoas informadas por parentes ou vizinhos como habitantes da zona afetada –, o porta-voz do Exército disse que são entre 450 e 600 pessoas.

Enquanto isso, na capital, cidades e vilas de todo o país foram organizados centros de recepção de ajuda, que flui generosamente. O acesso ao povoado é feito em caminhões com suprimentos coletados pelo Rotary e Emissoras Unidas, e dezenas de particulares se aproximam com seus próprios carros até o local para “contribuir com seu grão de areia”.

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