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Setor privado se movimenta para blindar a economia brasileira

Empresários vêm a público para interferir na crise política

O objetivo é manter a confiança necessária para preservar a atividade econômica

Dilma Rousseff, no início de agosto.
Dilma Rousseff, no início de agosto. REUTERS

Os representantes do setor privado estão dando sua contribuição para garantir um mínimo de estabilidade em meio à crise política. Neste domingo, o presidente do Itaú-Unibanco, Roberto Setúbal, disse em entrevista à Folha de S. Paulo que seria “um artificialismo” tirar a presidenta neste momento. “Não se pode tirar um presidente do cargo, porque ele momentaneamente está impopular”, afirma Setúbal, que diz não ver neste momento nenhuma condição para um impeachment.

Setúbal é o segundo banqueiro que vem a público falar sobre a crise política e econômica. No dia 8, o presidente do Bradesco, Luis Carlos Trabuco disse ao jornal O Globo que o país precisava de serenidade para resolver suas dificuldades. “Os problemas econômicos se resolvem pois são o resultado da matemática de certas variáveis que podem ser consertadas. Mas os problemas políticos não. Eles são de ideias, de ideologia, de postura. É uma energia para provocar calor, e hoje o país precisa de energia para provocar luz”, declarou Trabuco.

Um dia antes, as Federações das Indústrias do Rio de Janeiro e de São Paulo haviam divulgado nota cobrando responsabilidade no mundo político para garantir a estabilidade institucional.

A mudança repentina no clima se deve a um pacto silencioso entre atores econômicos e políticos para frear o que parecia um turbilhão sem fim, que chegou ao auge dez dias antes de os gritos anti-Dilma invadirem as ruas. Em 6 de agosto, a Câmara, insuflada por Cunha, instaurou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a entidade pública que concedeu crédito a quase todas as principais empresas brasileiras.

“A investigação colocaria todos os empresários que negociaram com o BNDES em um clima perigoso, como se houvesse algo ilícito. Todos se viram sob o risco da exposição”, observa o cientista político Fernando Limongi.

Naquele mesmo dia, a Câmara votou a favor do aumento do salário de alguns servidores públicos que passariam a ganhar mais que a presidenta. Era um golpe contra o ajuste fiscal de que o país precisa para restabelecer a credibilidade na economia.

Eduardo Cunha dificultou a vida de Dilma desde que assumiu a presidência da Câmara em fevereiro. Deixou de votar projetos importantes e criticou-a em todas as oportunidades que teve. A má relação azedou com a divulgação do vídeo do delator Julio Camargo, em meados de julho. O lobista de uma empresa que trabalhava para a Petrobras, investigado pela Operação Lava Jato, denunciou que Cunha o pressionava para receber um suborno de cinco milhões de dólares. Foi então que o presidente da Câmara anunciou a ruptura com o Governo. Acreditava que Dilma estava envolvida no vazamento do vídeo para prejudicá-lo politicamente.

Ninguém se queixou da fúria de Cunha enquanto seus ataques tentavam desgastar apenas a mandatária. Mas quando a sede de vingança do deputado pôs em risco a já fragilizada economia (e aumentou as possibilidades de o Brasil perder a atual nota de investimento das agências de risco) o establishment reagiu. E advertiu, publicamente, que os donos do capital – que financiam as campanhas eleitorais – não podiam continuar vivendo nesse ambiente de insegurança política que contamina a economia.

A bronca parece ter funcionado, ao mesmo tempo em que Eduardo Cunha começou a ver minguar o seu poder. Dois dias antes dos protestos, a Justiça determinou que as contas públicas de Dilma devem ser avaliadas pela Câmara e pelo Senado, e não só pelos deputados, como queria Cunha. Os gastos públicos do Governo em 2014 estão sob análise do Tribunal de Contas. Se esse órgão encontrar irregularidades, pode reforçar uma petição de impeachment no Congresso, o que seria uma possibilidade remota, segundo vários cientistas políticos.

Aos poucos, cresce um sentimento no país de que, independentemente do que acontecer – guerras políticas que podem até levar a um impeachment – não se pode perder o que foi conquistado até agora. Já se perderam, neste ano, 345.000 empregos e a expectativa é de que muitos mais trabalhadores fiquem desempregados até dezembro. A inflação também castiga o Brasil, com uma alta que pode chegar a 10%, ultrapassando a meta estabelecida pelo Banco Central pela primeira vez em uma década.

Mas o Brasil criou 20 milhões de empregos nos últimos 13 anos e venceu uma inflação de 80% ao mês em 1994. Mais ainda, o Produto Interno Bruto (PIB) triplicou desde 1995, quando o país domou a hiperinflação. Todas essas conquistas estão em risco. Mas se o furacão continuar, as consequências serão mais graves.

A percepção de boa parte da sociedade brasileira – dos empresários e da população inconformada com o Governo, mas que não se uniu aos protestos contra Dilma Rousseff – é que o país está mal com a presidenta, mas estaria pior sem ela, porque não há alternativas de liderança. Ao menos por enquanto. Os burburinhos em torno do nome de Michel Temer mostram que a estabilidade ainda é frágil e qualquer passo em falso piora o que já está ruim.

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