Crise Política

Depois de breve trégua, Dilma vive tensão com passos de Michel Temer

Vice-presidente deixa a articulação política, o que preocupa o mercado financeiro

Dilma Rousseff, na última quarta-feira.
Dilma Rousseff, na última quarta-feira. (REUTERS)

A adrenalina dos recentes protestos pelo impeachment da presidenta foi dando lugar a uma curiosa serenidade nos dias que se seguiram ao domingo, 16. Pelo menos no centro do poder. Depois de várias humilhações públicas que culminaram com as manifestações, Dilma teve dias menos ácidos. Uma vitória para o ajuste fiscal, com a aprovação no Senado de um projeto que aumenta a tributação das empresas, na quarta-feira passada. No dia seguinte, a visita da chanceler alemã, Angela Merkel, para ampliar negócios entre os dois países, e 50.000 pessoas na rua em protestos contra o impeachment nesse mesmo dia.

Muito menos que os 800.000 do domingo passado, em todo caso, mas um fôlego no deserto da baixa popularidade. Para completar o quadro, uma denúncia contundente no Supremo contra o grande inimigo, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, acusado de fazer chantagens para obter subornos milionários de empreiteiros da Petrobras.

O Governo, porém, teve pouco tempo para celebrar e teve de correr para apagar outro incêndio. O vice-presidente Michel Temer anunciou nesta segunda-feira que está deixando a articulação política, que assumiu em abril, por não estar à vontade com as limitações impostas pela equipe econômica. “Ele tinha o poder mas não tinha a caneta para decidir”, segundo uma fonte próxima a Temer. O ministro da Aviação Civil, Eliseu Padilha, que vinha atuando como braço direito do vice-presidente na articulação, também deixa a função a partir de setembro.

Cabe ao articulador negociar emendas e cargos de segundo escalão com os interlocutores políticos. Dilma Rousseff nunca conseguiu acertar o nome adequado para essa função, e Temer parecia o nome certo para ‘domar’ o Congresso, dirigido na Câmara pelo seu rival, Eduardo Cunha. Por isso, a informação de que Temer estava saindo dessa função, divulgada pelos jornais na semana passada, levou tensão aos agentes financeiros. “Eles enxergam no vice-presidente a estabilidade necessária para o Governo”, explica Thiago Aragão, da Arko Advice, que tem como cliente três das quatro maiores agência de risco.

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Desde sexta, Aragão recebeu seguidas ligações de representantes de fundos preocupados com os movimentos de Temer. “A saída dele não é um bom sinal para o mercado”, diz. Para os agentes econômicos, o vice-presidente representa um dos pilares fundamentais deste segundo mandato do Governo Dilma. O outro é o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. As rusgas entre ambos teriam surgido por um desentendimento entre os compromissos assumidos por Temer, enquanto articulador, e a liberação de caixa necessária para cumpri-los.

Alguns analistas políticos destacam, ainda, uma certa animosidade que haveria entre Dilma e seu vice-presidente desde que ele falou sobre a necessidade de ter alguém para unir o Brasil, no início deste mês. Isso teria sido visto como uma auto-campanha – como se ele fosse a pessoa a ter as condições de unir o país - que teria causado desconforto à presidenta. Ilações à parte, o Governo estaria trabalhando para desfazer o mal-estar com o vice, que é parte fundamental para realizar a “travessia” exigida pelo ajuste fiscal, como classificou a presidenta este período de aperto econômico.

A tensão sobre a eventual saída de Temer deixou em segundo plano as suspeitas levantadas pelo ministro do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes, sobre a campanha eleitoral do ano passado. Nesta sexta, Mendes encaminhou um pedido de abertura de investigações à Procuradoria e à Polícia Federal, por suposto financiamento da campanha com recursos desviados da Petrobras, o que indicaria “potencial relevância criminal”.

O ministro se baseou em informações divulgadas pela operação Lava Jato, que mostraria o papel chave da petroleira para garantir os recursos de campanha. “As doações contabilizadas parecem formar um ciclo que retirava os recursos da estatal, abastecia contas do partido, mesmo fora do período eleitoral, e circulava para as campanhas eleitorais”, descreve Mendes. Ele cita o depoimento de Ricardo Pessoa, da empreiteira UTC, que em delação premiada disse ter repassado 7,5 milhões de reais à campanha petista.

Como a Petrobras é uma empresa com capital público, ela é proibida de financiar campanhas. O pedido do ministro ainda levanta suspeitas sobre despesas contabilizadas na prestação de contas “de duvidosa consistência”. Embora tenha sido ele mesmo o relator da análise das contas do ano passado, aprovadas com ressalvas por unanimidade, Mendes diz que o aprofundamento das investigações da Lava Jato mostraram a relação entre as doações “como subterfúgio para pagar propina”.

A irregularidade nas contas de campanha é um dos caminhos para um potencial impeachment da presidenta. O pedido de Mendes é mais uma pedra no sapato da petista, mas o alcance de uma demanda do gênero é vista com cautela por analistas. “É uma ação que tem pouco potencial de estrago para o Governo, pois para qualquer decisão do TSE ele pode recorrer, e o veredito final pode levar anos”, observa Thiago Aragão, da Arko Advice. Mas é mais um foco de desgaste para a presidenta, para deleite de quem deseja tirá-la do poder.

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