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Câmara já começa a discutir sucessão de Eduardo Cunha

Entre os cotados estariam três deputados do baixo clero e dois dos mais experientes

Cunha, em evento da Força Sindical.
Cunha, em evento da Força Sindical. AFP

O rei ainda nem está “morto” e já discutem quem assumirá o seu posto. Desde que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi oficialmente acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, parlamentares de várias legendas iniciaram as discussões de quem seria o seu substituto. Até mesmo alguns membros que dizem ser da tropa de choque do parlamentar fluminense aparecem entre os prováveis sucessores. As articulações prolongam-se ainda que Cunha diga que a palavra “renúncia” não esteja em seu vocabulário.

Para deputados governistas, o ideal era que o comando da Casa permanecesse com o PMDB, mas com uma pessoa que não fosse incendiária como Cunha e também menos personalista. O objetivo é fortalecer os laços com o partido do vice-presidente, Michel Temer, e evitar novas derrotas no Legislativo. Entre os cotados para essa função estariam o gaúcho Osmar Terra, o capixaba Lelo Coimbra e o paulista Edinho Araújo. O mais bem quisto é Araújo, atual ministro dos Portos com um bom trânsito entre parlamentares de vários partidos. Entre esses, Coimbra é visto como muito próximo a Cunha e, por isso, o que teria o menor apoio entre os dilmistas.

Oficialmente, nenhum deputado confirma as conversas pela sucessão de Cunha. Mas entre o grupo dos mais independentes, os nomes mais cotados são de Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Miro Teixeira (PROS-RJ). Os dois estão entre os deputados mais experientes. Vasconcelos é um dos críticos ao Governo Dilma e, em entrevista a Globo News nesta sexta-feira, disse acreditar que haverá um processo de impeachment contra Rousseff, caso ela não renuncie. Já Teixeira, que foi filiado ao PT, é mais moderado e seria uma solução chamada de “nem tanto ao céu, nem tanto à terra” por alguns parlamentares.

Em princípio, estão descartados todos os nomes de petistas. Nos últimos meses, desde que Arlindo Chinaglia (PT-SP) perdeu a eleição para a presidência da Câmara para Cunha, o partido se isolou na Casa e não conseguiu evitar que projetos essenciais para a legenda fossem aprovados, como alguns da reforma política e a redução da maioridade penal.

A pressão aumenta

Como Cunha está decidido a não renunciar, um grupo de cerca de cem deputados de dez partidos deve apresentar nas próximas semanas uma representação no Conselho de Ética da Câmara pedindo a cassação do mandato dele por quebra de decoro parlamentar. Esse mesmo grupo já redigiu uma carta solicitando que o presidente se afaste das funções até que o seu caso seja julgado. A representação, porém, só deve ser feita se o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitar a denúncia do Ministério Público e transformar o parlamentar em réu.

“Covardia é fazer esquemas obscuros que afetam o interesse público. É uma covardia com a República. Por isso, ele deveria renunciar”, afirmou o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), líder de seu minúsculo partido na Câmara.

A fala de Alencar vai na mesma linha de outro parlamentar que defende a renúncia, Glauber Braga (PSB-RJ). “O Eduardo Cunha vai perder a legitimidade. Ele tem usado a presidência da Câmara para se defender”, afirmou Braga. Conforme ele, em quatro episódios o presidente da Casa usou o cargo como escudo: 1) Ao dizer que todos os 513 deputados tiveram seus computadores vasculhados pelo Ministério Público Federal na operação Lava Jato (o órgão desmentiu o fato); 2) Ao fazer com que seus aliados tentassem desmentir delatores da Lava Jato durante a CPI da Petrobras; 3) Ao ser acusado de intimidar a então advogada de investigados pela operação, Beatriz Catta Preta; 4) Ao autorizar que apenas dois deputados, aliados dele, tivessem acesso às investigações feitas pela consultoria Krol, contratada por 1 milhão de reais, para fazer investigações a pedido da mesma CPI.

Os peemedebistas na Casa, que contém membros que articulam a sucessão de Cunha, emitiu uma nota para defendê-lo. “A bancada do PMDB na Câmara dos Deputados apoia e acredita no presidente da Casa, Eduardo Cunha, e se solidariza com ele neste momento em que alguns se açodam a defender teses que ferem o princípio primordial do Estado Democrático de Direito”, diz trecho do documento que ainda fala de presunção de inocência.

Não vamos tirar o foco do centro da crise, que tem nome e sobrenome, Dilma Rousseff

Marcus Pestana, deputado do PSDB-MG

Já a oposição ao Governo Dilma, que tinha abraçado Cunha nas últimas semanas com a esperança de ver andar um pedido de impeachment contra a presidenta, ainda não o abandonou. Em nota, o líder do PSDB na Câmara, o paulista Carlos Sampaio, afirmou que é preciso aguardar o desenrolar do processo antes de fazer qualquer julgamento.

O deputado pelo PSDB de Minas Gerais Marcus Pestana, diz que tratar da renúncia de Cunha é uma estratégia governista. “Não vejo a renúncia dele em nenhuma hipótese. Não vamos tirar o foco do centro da crise, que tem nome e sobrenome: Dilma Rousseff”, declarou. E completou: “Se fosse assim, a Dilma e o Renan Calheiros [presidente do Senado] também deveriam renunciar. O Eduardo terá o seu tempo para se defender”.

Caso deixe o cargo, Cunha não seria o primeiro a fazê-lo. Severino Cavalcanti (PP-PE) passou por isso em 2005. Na época, a acusação contra ele era significativamente menor do que a que pesa contra o peemedebista. Foi investigado por receber uma mesada de 10.000 reais para autorizar o funcionamento de um restaurante na Câmara. Como era do baixo clero, não resistiu à pressão. O atual presidente foi denunciado no Supremo porque a PGR identificou 60 operações de lavagem de dinheiro, entre as quais remessas ao exterior, e de dinheiro vivo, além da simulação de contratos de consultoria, emissão de notas frias e transferências para uma igreja vinculada a Cunha, a título de doações religiosas. Estima-se que os desvios de Cunha movimentaram pelo menos 40 milhões de dólares.

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