Coluna
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Luzes em agosto

Apesar do quadro de instabilidade político-institucional, nossa jovem e frágil democracia vai pouco a pouco se consolidando

Que conclusões podemos tirar das manifestações do dia 16? Algumas constatações são óbvias: o número de pessoas nas ruas foi bem menor que o previsto, mas o foco da indignação, antes difuso, tornou-se mais nítido, concentrado na presidente Dilma Rousseff, no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e no PT. Comemoram os governistas, vangloria-se a oposição. No fundo, ambos estão equivocados: o saldo desta queda de braço não tem ganhadores.

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O PSDB ilude-se acreditando que encarna a resposta à histórica rejeição a Dilma Rousseff, que bateu os 70%. Pesquisa Datafolha traçou o perfil dos participantes da passeata da avenida Paulista, em São Paulo, a maior do Brasil, e constatou que a maioria era formada por brancos (75%), com ensino superior completo (76%), mais de 36 anos (70%) e renda mensal acima de R$ 3.940 (68%) –descrição que pode ser projetada para resto do país. Ou seja, conforme a pesquisa, quem foi para a rua estava revalidando o voto dado ao candidato Aécio Neves nas últimas eleições.

Já o PT engana-se ao imaginar que a pouca adesão aos protestos demonstra uma retomada da aprovação à presidente Dilma Rousseff. A classe média baixa, sua principal base de apoio, que já convivia com a péssima qualidade oferecida pelos sistemas de educação, saúde e transporte público, agora luta contra o desemprego, que tende a agravar ainda mais a violência de que é vítima. As várias operações em curso, que revelam dia a dia a sujeira em que chafurda o partido, outrora paladino da ética e da transparência, afasta até os mais fiéis eleitores.

Além disso, o PSDB vive uma dissensão interna. Enquanto o senador Aécio Neves, assumindo perigosa atitude populista, insiste na tese do afastamento da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer para a realização de novas eleições, o que o colocaria como candidato natural do partido, o grupo liderado por Geraldo Alckmin prefere aguardar. O governador aspira a ser ele o nome do PSDB à sucessão presidencial, mas para isso ambos, ele e Dilma, teriam que terminar o mandato, em 2018. E ainda há José Serra correndo por fora.

O PSDB se ilude acreditando que encarna a resposta à histórica rejeição a Dilma Rousseff, que bateu os 70%

Procurando retomar a governabilidade, Dilma aproximou-se do senador Renan Calheiros, envolvido em denúncias da Operação Lava Jato, ex-líder do governo Collor e ex-ministro da Justiça do governo Fernando Henrique, que em troca ofereceu um conjunto de propostas, a chamada Agenda Brasil, um verdadeiro desmonte de conquistas sociais arduamente alcançadas ao longo da história, muitas delas patrocinadas pelo próprio PT. Com isso, Dilma busca neutralizar a enorme influência adquirida no Congresso pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, também envolvido em denúncias da Operação Lava Jato. Assim, o PMDB consegue manter-se na situação e na oposição ao mesmo tempo. Penda para onde pender a balança, o partido continuará usufruindo das benesses do poder.

O PT se engana ao imaginar que a pouca adesão aos protestos demonstra uma retomada da aprovação à presidente Dilma

Acatando sugestão de Lula, Dilma também vem se empenhando em ouvir os movimentos populares organizados. O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, em desastroso discurso ao lado da presidente, no dia 13, afirmou com todas as letras que a entidade estava disposta a pegar em armas para defender seu mandato. No domingo, 16, em ato para contrapor às 135.000 pessoas, segundo a Datafolha (ou 350.000, segundo a PM), que protestavam na avenida Paulista, a CUT reuniu cerca de 600 pessoas (ou 5.000, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, ou 10.000, conforme a CUT) em frente ao Instituto Lula. Na ocasião, Freitas chamou de “guerreiros do povo brasileiro” o ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, condenado e preso por conta do mensalão e novamente preso na Operação Lava Jato, e João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, preso por denúncias de corrupção.

Pela primeira vez vemos corruptores e corruptos sendo presos, lado a lado, o que, além de salutar, é pedagógico

Apesar de tudo, um aspecto desse quadro de instabilidade político-institucional deve ser ressaltado: a nossa jovem e frágil democracia vai pouco a pouco se consolidando. O Judiciário se destaca como um organismo independente, cujas ações quebram um tabu da sociedade brasileira: pela primeira vez vemos corruptores e corruptos sendo presos, lado a lado, o que, além de salutar, é pedagógico. Por outro lado, a ocorrência de protestos como as do domingo, 16, sem qualquer tipo de repressão ou de tumulto, mostra o amadurecimento do nosso sistema. Mas, acima de tudo, a plena liberdade de manifestação da opinião, seja pela imprensa, seja pelas redes sociais, apesar do tom fascista que muitas vezes predomina na última, prova nossa imensa capacidade de seguir adiante.