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Julieta Venegas: “As divas das gravadoras são submissas”

Cantora percorreu a Espanha para preparar o lançamento de 'Algo Sucede’

Novo álbum da artista criada no México combina o lado pessoal com o social

Julieta Venegas, em um hotel da Gran Vía, em Madri.
Julieta Venegas, em um hotel da Gran Vía, em Madri.

Os artistas mexicanos agora sofrem de uma maldição que há anos castiga os colegas cubanos: espera-se que, cada vez que um microfone é ligado, nos iluminem sobre a situação política no país. Julieta Venegas (Long Beach, Califórnia, 1970) faz isso com duas canções em seu novo álbum, Algo Sucede(Sony Music). Explosión e Una Respuesta refletem o México nocauteado pela brutalidade com que 43 estudantes foram massacrados em Iguala, graças à cumplicidade das autoridades e da polícia local com os traficantes.

As canções em questão se impuseram, confessa: "Embora eu nunca tenha tido habilidade para traduzir minhas convicções na música, chegou um momento em que entendi que não poderia evitar isso. Que precisava expressar tanta dor, tanta impotência. Somos um país gigante acostumado a conviver com um grau de violência, mas, há alguns anos, o câncer parece maior do que o país. Parece que estiveram testando nossa capacidade para [suportar] o horror".

No entanto, estamos aqui para destacar o modelo artístico de Julieta. Desde 1997 grava com uma multinacional e, com o álbum , foi descoberta pelo grande público; tem mantido um bom equilíbrio entre a comercialidade e a credibilidade. Embora nem todos apreciem esse traço: houve agitação nas redes sociais quando o Festival Internacional de Benicàssim, na Espanha, incluiu Julieta em sua lista de artistas convidados. "Acredito que me rejeitam por ser alguém que tenha soado em ‘radiofórmulas’. Parece injusto: os grupos ingleses ou os que cantam em inglês estão nas ‘radiofórmulas’ e ninguém diz nada se depois vão a um festival indie.”

Para Julieta, expressar-se criativamente em inglês nunca foi uma opção, embora "tenha crescido em Tijuana [México] e lá todos sejamos bilíngues. Mas não me imagino cantando em outro idioma que não seja o que uso na minha casa, no meu ambiente. Além disso, sou mais mexicana que o mescal”. Julieta sabe da polêmica gerada recentemente pelos livros de Víctor Lenore e Nando Cruz sobre o indie espanhol, revelando que muitos grupos usaram o inglês por pudor, imitação ou para se esquivar — na Catalunha e no País Basco — dos vespeiros linguísticos. Ela tem bem claro: "Mesmo quando atuo nos Estados Unidos, uso o espanhol. Embora seja inevitável, me entristece que filhos ou netos de imigrantes mexicanos acabem se esquecendo do idioma no qual foram concebidos".

A intolerância de (alguns) fãs do indie é injusta, no final das contas. Julieta lidera um movimento revolucionário: funciona como como irmã mais velha para muitas cantoras-compositoras independentes que se destacaram nos últimos anos. Custa reconhecer o fato: "Sou amiga de todas, mesmo que seja por e-mail. Toquei com muitas, colaborei com algumas, muitas me pedem conselhos ... justo para mim, que sou um desastre em tantas coisas!".

Atreve-se a usar a palavra tabu: feminismo. "Pode ser que não agitemos essa bandeira, mas somos feministas no cotidiano. Exercitamos nossa criatividade, nada a ver com as divas comuns nas gravadoras, que são submissas, apesar de fazerem vídeos supostamente provocadores. Entendo o que fazem, me diverti quando gravei com Paulina Rubio. Mas, além de sociabilidade, jogamos em ligas diferentes."

Sua visibilidade revela a irrelevância das distâncias na era da Internet: "Antes você conhecia essas cantoras-compositoras atípicas quando atuava em Maracaibo ou em Santiago do Chile. Agora, você já viaja sabendo o que as chavas [garotas] estão fazendo em toda a América Latina. Há tanta variedade que é difícil participar nesses shows ou discos do tipo só-mulheres-latinas: podem ser até reducionistas, uma maneira de nos fechar em um gueto".

Qualquer um que já tenha entrevistado Julieta Venegas sabe que tem um discurso alegre e espontâneo. Além disso, é uma atenta consumidora de livros, discos, filmes: antes mesmo do conceito hipster se tornar popular, parecia ter um radar especial para localizar o que os consumidores modernos aplaudiriam depois. Isso tem seu perigo, explica: "Você pode acabar se deixando levar pela moda, tentando duplicar o que ouve. Felizmente, conto com produtores que sabem escolher entre as muitas músicas que componho. Em Algo Sucede estão Yamil Rezc, um músico mexicano que faz muitos remixes eletrônicos, e [o argentino] Cachorro López, que é uma SUV".

Como sempre, Julieta continua participando ativamente em trilhas sonoras. "É muito relaxante, te pedem para gravar uma canção para uma determinada cena e isso te tranquiliza. Além disso, me permite testar novas formas. No ano passado, para uma comédia chamada Elvira, Te Daría Mi Vida Pero la Estoy Usando, fiz uma versão de Suavecito, que é uma cúmbia muito sexy".

Julieta fala com conhecimento de causa sobre o boom dos cineastas mexicanos, mas reconhece uma carência cultural: as séries. "Me irrita muito chegar a uma reunião e que todo mundo esteja falando do último capítulo da terceira temporada de não sei qual série. Tenho inveja deles, devem ter muitas horas livres. Para mim, atualmente é impossível."

Há cinco anos, Julieta mudou seus hábitos. As necessidades de Simona, sua filha, a obrigam a repensar tudo, desde as viagens até a hora de trabalhar: "Antes era muito desorganizada para compor. Agora, tenho que aproveitar os momentos em que ela dorme ou está na escola. Também aprendo com ela: ouvir música sem preconceitos. Desfruta o mesmo com Prince, Candela e Los Supremos. Simona insiste que é roqueira, ama as canções com muita guitarra elétrica. Como sua mãe é tecladista, acho que já está se rebelando!".