Israel moderado se levanta contra os radicais colonos e ultraortodoxos

Netanyahu pretende prender sem acusações extremistas suspeitos de atos violentos

Palestinos protestaram no acesso à mesquita Al Aqsa de Jerusalém.
Palestinos protestaram no acesso à mesquita Al Aqsa de Jerusalém.AHMAD GHARABLI (AFP)

Em meio a um clima de grande tensão criado pela violência de radicais colonos e ultraortodoxos, o Israel moderado reagiu de forma contundente. No sábado, milhares de pessoas marcharam nas principais cidades do país para condenar a morte de um bebê palestino em um ataque atribuído a colonos e o esfaqueamento de seis pessoas na marcha do orgulho gay em Jerusalém – uma das vítimas morreu no domingo, uma adolescente de 16 anos. No domingo o Governo israelense anunciou que pensa em aplicar medidas de exceção a israelenses extremistas.

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O Executivo de Benjamin Netanyahu anunciou, após a reunião semanal de seu Gabinete, que pretende colocar sob “prisão administrativa” israelenses extremistas suspeitos de atos violentos, o que implicaria em sua prisão sem acusações e durante períodos indefinidos sem que existam provas para julgar os suspeitos.

Será a primeira vez que Israel aplicará esse castigo aos seus cidadãos, uma medida que utilizou contra palestinos suspeitos de terrorismo e que foi duramente criticada pela comunidade internacional. Segundo a ONG israelense B’Tselem, em junho de 2015 existiam 5.400 presos palestinos nas prisões israelenses por esse motivo. Na teoria, a medida permite aos investigadores reunir provas enquanto novos ataques são evitados.

A reação de Netanyahu manifesta a estupefação quase unânime entre a dividida sociedade israelense diante da violência dos extremistas, não somente contra os palestinos, mas também contra israelenses pacifistas acusados pelos radicais de trair o Estado judeu. Tanto a sociedade civil como políticos de diferentes vertentes expressaram recentemente em público seu repúdio à violência de colonos extremistas e ultraortodoxos.

Netanyahu ainda não definiu quais serão as penas impostas aos autores de “crimes de ódio”, mas prometeu que os perseguirá com firmeza. “Em cada sociedade existem elementos extremistas e homicidas, e lamentavelmente é verdade até mesmo entre nós, mas a sociedade e o Estado são julgados por como sua liderança age”, afirmou o mandatário no sábado antes das grandes manifestações por todo o país, em um discurso no qual se comprometeu a “guiar” Israel contra o ódio e a homofobia.

Enquanto isso, o ministro da Defesa, Moshe Ya'alon, já ordenou ao chefe do Departamento para assuntos judaicos do Shin Bet, o serviço de segurança interior, que detenha israelenses suspeitos de atos extremistas mesmo que não conte com provas fidedignas para julgá-los, segundo informações do jornal israelense Haaretz.

“Tolerância zero”

As ordens de Ya'alon respondem à política de “tolerância zero” que o Governo de Netanyahu pretende aplicar para calar as críticas recebidas recentemente por seu Executivo sobre a impunidade com a qual agem colonos extremistas e ultraortodoxos. Segundo declarações de um funcionário de alto escalão do Ministério da Defesa à rádio pública de Israel, “o terrorismo judeu” precisa ser combatido com os mesmos métodos utilizados contra o terrorismo palestino.

Essa mesma fonte revelou novos detalhes sobre os autores do ataque no qual morreu um bebê palestino de 18 meses e sua família ficou gravemente ferida, quando sua casa foi incendiada na aldeia de Duma (Cisjordânia). Os culpados evitaram levar consigo celulares e não deixaram nenhuma pista que facilitasse sua identificação.

Nos últimos meses, os ataques contra palestinos feitos por colonos se intensificaram. Apesar disso, o departamento do Shin Bet para assuntos judaicos, com atribuições na Cisjordânia, teve pouco sucesso em detectar colonos radicais.

Ainda que recentemente tenham sido presos dois extremistas acusados de um ataque incendiário contra a igreja cristã na qual a tradição diz ter ocorrido o milagre dos pães e dos peixes, as ONGs dizem que os colonos vivem em um clima de impunidade que os leva a continuar com suas agressões. Segundo a ONU, até 6 de julho de 2015 foram registrados 112 ataques de colonos contra palestinos e suas propriedades. Nenhum foi a julgamento.

Ameaças de morte

O presidente de Israel, Reuven Rivlin, também está entre as vítimas dos radicais. Ele apresentou no domingo uma denúncia à polícia por ameaças conta sua vida nas redes sociais.

Depois de Rivlin expressar no sábado sua “vergonha” pelo assassinato, um dia antes, de um bebê palestino, foi divulgada na Facebook uma foto do presidente com um keffiyeh palestino e a legenda: “Rivlin, judeuzinho traidor, que sua memória seja esquecida”.

Enquanto isso, apesar dos esforços das autoridades para acalmar os ânimos, ocorreram confrontos no domingo em Jerusalém, ao lado da Esplanada das Mesquitas. O Ministério judaico de Doações afirmou que os choques aconteceram quando trinta judeus de ultradireita tentaram entrar no complexo. Segundo a polícia israelense, jovens palestinos mascarados apedrejaram suas forças.

Patrulhas comunitárias de vigilância

Moradores da aldeia de Duma, na Cisjordânia, onde na sexta-feira um bebê palestino foi queimado vivo e sua família ficou gravemente ferida em um ataque atribuído a radicais israelenses, criaram patrulhas de vigilância de defesa contra a violência dos colonos extremistas.

Os grupos de vigilância, formados por voluntários da aldeia, patrulharão Duma e seus arredores 24 horas por dia, sete dias por semana, para impedir que se repitam ataques como o ocorrido à família Dawabsha, segundo informações da agência palestina Maan no domingo.

Samir Dawabsha, diretor geral do Ministério do Governo Local em Nablus, pediu no domingo aos palestinos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental que preparem planos alternativos para se defender dos ataques de civis extremistas israelenses.

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