Crise venezuelana

Greve em megaempresa ameaça deixar a Venezuela sem cerveja

Empresa que fabrica a Polar enfrenta reivindicações de sindicato apoiado pelo chavismo

O presidente Maduro, ao fundo, em um ato em Caracas.
O presidente Maduro, ao fundo, em um ato em Caracas.JORGE DAN LOPEZ (REUTERS)

Um dos dois principais fabricantes de cerveja na Venezuela enfrenta um conflito sindical que interrompeu o engarrafamento e a distribuição do produto, além de problemas para importar matérias-primas devido ao colapso do modelo econômico do governo de Nicolás Maduro. No altar pessoal de cada venezuelano, a cerveja Polar ocupa um lugar bastante importante. A mera possibilidade de que esse produto tão apreciado desapareça, assim como tantos outros itens da cesta básica, começa a preocupar.

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Desde a quarta-feira passada, uma pequena facção de um sindicato apoiado pelo chavismo, chamado Sintraterricentro, conseguiu paralisar as operações em duas das principais unidades de engarrafamento da empresa que fabrica a cerveja Polar em Caracas e Barcelona — no Estado de Anzoategui, na costa Leste do Caribe — e em quatro das quinze agências de distribuição localizadas em Turmero, no Estado de Aragua (no centro do país).

As razões das reivindicações parecem ir além das habituais exigências trabalhistas e entram nas águas do recorrente conflito político que prejudica o país há mais de três lustros.

Os pedidos da organização sindical em greve recebem uma generosa cobertura do canal estatal, Venezolana de Televisão, e da Telesur, o sinal continental do chavismo, e seus líderes não escondem seus laços com o partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), no poder. De fato, em meados de junho, Juan Rodríguez, seu principal líder, anunciou a intenção de paralisar o engarrafamento a partir da sede da Central Bolivariana Socialista de Trabalhadores, de inspiração chavista.

Em vários discursos, o presidente Nicolás Maduro –um ex-dirigente sindical do Metrô de Caracas–, insinuou que o proprietário da cervejaria, Lorenzo Mendoza, que ele chama depreciativamente Pelucón, se recusa a reconhecer as aspirações dos trabalhadores. A empresa diz que alguns trabalhadores do Sintraterricentro aderiram ao acordo coletivo assinado pela Sutraba em janeiro, que com 1.400 membros é a maior organização do gênero no grupo cervejeiro.

Greve injusta

A Polar diz ter em suas mãos a ata de homologação da convenção coletiva, que tem validade de dois anos e meio, e decidiu não conversar com o grupo em conflito não apenas porque o acordo está em vigor, mas porque alguns dos grevistas usufruem desses benefícios.

Mas Juan Rodriguez disse que a empresa “chutou a mesa”, expressão muito venezuelana que explica a suposta recusa da organização para sentar e negociar novas condições de trabalho.

Parte de seu poder ficou demonstrada desde meados da semana passada. Embora, de acordo a Polar, o Sintraterricentro tenha em suas fileiras menos de 1% dos trabalhadores da fábrica de cerveja, seus líderes conseguiram que outros companheiros das unidades de Los Cortijos, em Caracas, e em Anzoátegui, se solidarizassem com sua causa. O Promotor do Povo Tarek William Saab ofereceu-se como mediador, mas a Polar rejeitou sua proposta por considerar que ele não é um ator imparcial. Saab é um aberto simpatizante do partido do Governo e em sua conta no Twitter, de acordo com um comunicado da empresa, “difundiu acusações falsas, injuriosas, difamatórias e sem nenhuma prova”.

Empresa exploradora

Na cosmovisão da troika governante, a Polar é uma empresa exploradora e lidera o que o regime resolveu chamar de “guerra econômica”, um conceito com o qual pretende transferir aos empresários a responsabilidade pela escassez crônica e pelo desabastecimento que marcaram o mandato de Maduro.

A Cervejaria Polar faz parte das Empresas Polar, um poderoso grupo econômico que produz as marcas de alimentos básicos mais apreciadas e fornece até 80% da cerveja consumida na Venezuela.

Por enquanto, e apesar do conflito crescente, a venda de cerveja continua sem restrições. Mas o início da greve se soma a uma denúncia que colocou no centro das atenções um setor que até agora não se caracterizava pelo conflito.

Em meados de junho, a Câmara Venezuelana de Fabricantes de Cerveja (Caveface) –que além da Polar reúne a Regional, propriedade da Organização Cisneros– advertiu que a indústria está trabalhando com os níveis mais baixos de uma matéria-prima que não é produzida na Venezuela .

As cervejarias não recebem dólares do Governo, que mantém um rígido controle de câmbio desde 2003, para pagar os insumos aos fornecedores internacionais com os quais têm uma dívida de 217 milhões de dólares (cerca de 680 milhões de reais) desde fins de 2014.

A Caveface avisou que, se essa situação continuar, o inventário vai durar até agosto. Outro setor se junta ao caos em que a Venezuela se tornou.

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