FLIP

Quando as luzes se apagam em Paraty

Sede da Flip sofre com a falta de segurança e problemas de infraestrutura básica

O centro histórico de Paraty, patrimônio tombado pelo IPHAN.
O centro histórico de Paraty, patrimônio tombado pelo IPHAN.Sebastião Moreira

Mais informações

Conhecida como a “Veneza brasileira”, Paraty brilha nas manchetes de jornais e também in loco sempre que um grande acontecimento – como a 13ª Festa Literária de Paraty, que acontece até domingo, 5 de julho – ocupa a cidade. Só este ano, o calendário oficial lista 52 eventos culturais que garantem lotação quase sempre total nas cerca de 700 pousadas paratienses, aonde chegam viajantes de todos os bolsos e estilos, mantendo acesa a economia local, totalmente apoiada no turismo. Mas e quando as luzes se apagam?

Paraty, com seus 40.000 habitantes, aparece no Mapa da Violência 2015 como a segunda cidade mais violenta do Estado do Rio de Janeiro, atrás de Cabo Frio. Apesar de pequena, a cidade vive uma rixa entre grupos de traficantes de drogas instalados em seus dois bairros mais carentes e violentos – Ilha das Cobras (controlado pelo Comando Vermelho) e Mangueira (pelo Terceiro Comando) –, que em grande parte justifica a violência expressa na taxa, este ano, de 43,9 óbitos por 100.000 habitantes. O índice baixou em relação ao do ano passado (62/100.000 habitantes), mas ainda assusta, sobretudo porque impacta especialmente a população jovem – que, em todo o Rio de Janeiro, tem uma taxa de óbito de 48,9 pessoas entre 15 e 29 anos contra 13,4 de não jovens (um incremento de mais de 265%).

Circulação noturna nesta Flip.
Circulação noturna nesta Flip.André Conti

Assim, disputas e revanches entre adolescentes armados têm aparecido com frequência na mídia ultimamente, como aconteceu no Carnaval, em que um tiroteio deixou um morto e nove feridos. Em maio, outra manchete negativa: o prefeito Carlos José Gama Miranda (PT) sofreu um atentado a bala, levando as autoridades locais a investir mais em segurança pública. Por essa razão, é tão ostensivo o policiamento da atual Flip e também sem precedentes na história da festa: são 120 policiais militares mobilizados de todo o Estado e patrulhando a cidade ao longo de cinco dias de evento, ao qual chegam de 30 a 40.000 turistas, segundo estimativas de anos anteriores.

O promotor público de Paraty, Vinícius Ribeiro, explica que as Unidades de Polícia Pacificadora atuantes na capital fluminense têm impactado na segurança de todo o interior do Estado do Rio desde que começaram a funcionar, em dezembro de 2008. “A aplicação da política de UPPs fez com que os novos profissionais que vão sendo formados sejam realocados na capital. Com isso, o interior não recebe mais policiais, a menos que eles sejam convocados em caráter de urgência, como nesta Flip. Ao contrário: há licenças, aposentadorias etc, e essas pessoas há tempos não são substituídas”, explica.

O comércio ambulante se intensifica durante a Flip.
O comércio ambulante se intensifica durante a Flip.André Conti

O incidente do carnaval foi atribuído a uma briga entre jovens das duas comunidades carentes e envolvidas com drogas, Ilha das Cobras e Mangueira, e está resolvido. Mas o ataque ao prefeito continua sob investigação. Casé, como é mais conhecido, se diz abalado por ter sido alvo de uma tentativa de homicídio e cobra as autoridades competentes: "Fui a todas as esferas cobrar atitude, inclusive com o Ministro da Justiça”, diz ele, que é paratiense e empresário no ramo do turismo há 20 anos. Segundo o promotor de justiça de Paraty, Vinícius Ribeiro, a investigação está avançada e em breve deverá chegar a uma conclusão. “Temos uma hipótese, mas ainda estamos trabalhando na apuração do caso”, adianta. Para combater o quadro geral de violência, já foi posta em marcha a chamada Operação Paraty, ação conjunta das polícias militar e civil promovida pela Secretaria de Segurança da cidade – que prevê, inclusive, a instalação de câmeras de monitoramento das ruas (atualmente em fase de licitação).

"Paratiense também é gente"

C.M.

Às portas da tenda dos autores, palco principal da Festa Literária de Paraty, um grupo de paratienses protestou neste sábado contra a violência na cidade.

Com cartazes afirmando que "paratiense também é gente", entre outros dizeres, camisetas com fotos de adolescentes assassinados e críticas à Prefeitura, eles exigiam o mesmo nível de policiamento que foi posto nas ruas durante esta edição do evento, assim como políticas dirigidas aos jovens da cidade – alvos principais da criminalidade crescente e, em muitos casos, também agentes dela – para afastá-los sobretudo do tráfico de drogas.

"Quando a festa terminar, esses policiais irão embora. E os moradores da cidade, como ficam? Queremos chamar a atenção do prefeito, que não se abriu ao diálogo conosco, para falar da falta de investimentos em educação, esporte e atividades para os meninos que estão na rua. Se isso não for oferecido, eles continuarão aceitando o que o crime oferece", declarou Marcos Paulo, presidente da Associação de Moradores.

Segundo Marcos, que participa de um projeto social dirigido a 58 crianças no bairro de São Roque, "os chamados bairros de roça aqui de Paraty estão abandonados". "Não queremos uma cidade só para turista ver", afirma.

Luz elétrica com mais de um século de atraso

Mas as carências não se resumem à segurança pública. A cidade é uma no cartão-postal e outra fora das férias, com uma infraestrutura básica ainda bastante deficiente. Por exemplo: somente este ano, Paraty passou a ter tratamento de água e esgoto. Até 2014, a água que abastece os paratienses não recebia nem mesmo cloro. No ano passado, isso aconteceu, e hoje são menos as doenças facilmente evitadas por meio de saneamento que atingem crianças e adultos. No ano que vem, quando a cidade receber a segunda estação de tratamento de água e tiver concluído as obras da rede de esgoto, serão menos ainda.

Com a água clorada, o Hospital Municipal de Paraty passou de 1.000 a menos de 100 atendimentos por mês. Mesmo assim, o lugar sofre com a alta demanda (é o único serviço de saúde da cidade, que carece inclusive de alternativas da rede privada), e será reformado em breve depois que foi pactado um investimento de R$ 15 milhões com a Eletronuclear, que financiará uma instalação anexa ao prédio atual, tombado. Outra medida essencial que está sendo tomada é a instalação de energia elétrica na zona costeira, onde, depois de mais de 100 anos, habitantes de pequenas comunidades isoladas como Ponta Grossa finalmente experimentaram acender a luz de casa e usar eletrodomésticos em pleno 2015.

Mas é através dos projetos em Educação que a atual Prefeitura – composta em grande parte de profissionais paratienses que não vêm de famílias com tradição política – pretende se destacar. “Assumimos em 2013 um município com uma série de carências em infra-estrutura e estamos corrigindo isso. O que me tem mais animado, entre todas as mudanças em curso, é a reformulação da rede de 34 escolas que precisavam de reforma do piso ao telhado. Isso está sendo feito, assim como a extensão do currículo dos alunos, do qual agora fazem parte aulas de informática”, conta o prefeito.

Uma joia recuperada

Os tombamentos, em Paraty, protegem 92% do território com algum tipo de preservação ambiental ou patrimonial. Ao fim das contas, a cidade brilha justamente por estar incrustada em uma exuberante Mata Atlântica, além de contar com uma arquitetura colonial preservada nos moldes de sua construção original, que data dos séculos XVIII e XIX e é considerada a mais perfeita do país. Foi tombada pelo IPHAN em 1958 e convertida em Patrimônio Histórico e Artístico Nacional sete anos depois, em 1965. Tem a pretensão de convertir-se em Patrimônio Material da Humanidade pela Unesco, mas já fez a tentativa duas vezes sem sucesso, e agora caminha para a terceira. Para Casé, "tombamentos tem um lado positivo e outro negativo, já que também impedem ou complicam determinadas obras". "Mas tento manter uma boa relação com o IPHAN e terminamos nos entendendo, coisa que não acontecia na gestão anterior", diz.

A atuação do IPHAN em Paraty é relativamente recente, no entanto. A razão pela qual tanta riqueza histórica e ambiental se preservou é que os ciclos econômicos da cidade – primeiro o ouro, depois o café e a produção de aguardente – perderam força quando foi construída na década de 1970 a estrada Rio-Santos, que se converteu na via principal de escoamento de mercadorias, enfraquecendo seu porto marítimo. Como resultado, Paraty passou quase 100 anos isolada do resto do mundo, e assim suas construções estiveram abandonadas, mas se mantiveram intactas.

Já estava dado, portanto, pela própria História e pela beleza arquitetônica, o talento cultural da cidade. Mas as festas populares, como a Festa do Divino, de forte tradição local, reforçam a cultura de Paraty, que recebeu novo gás com a chegada da Flip, em 2003. Hoje muitos coincidem ao dizer que a festa literária é um marco transformador da economia – e da alma – local. “O evento foi pensado para retomar a força cultural da cidade e ativar períodos de temporada turística baixa, mas ninguém botava muita fé nele. Depois dos primeiros anos, os paratienses perceberam que traria muitos benefícios, e donos de pousadas e restaurantes, por exemplo, passaram a renovar suas instalações, repor seus materiais, preparando-se para a seguinte edição”, conta Belita Cermelli, diretora-superintendente da Casa Azul, responsável pelo evento. Assim, aos poucos, a cidade foi se contagiando de mais e melhores cuidados.

Sebastian Boffa, da Paraty Convention Bureau, uma associação privada do setor de turismo, afirma que chegam mais e mais turistas – brasileiros e estrangeiros – a cada ano. “É comum ter a ocupação dos leitos próxima de 100%”, diz o empresário argentino, que está a frente da primeira operadora turística da cidade, a Paraty Tours, há 24 anos. “Recebemos visitas de todas as partes. Paraty está hoje nas prateleiras de agências de turismo do mundo todo”.

Mas até que ponto crescer? Para Belita, nem mais um passo deveria ser dado sem um plano estratégico que oriente os rumos da grandeza paratiense. Ela conta que, através de uma parceria entre o Ministério do Turismo, a Prefeitura de Paraty e a Casa Azul, um plano de desenvolvimento de turismo sustentável foi encomendado há alguns anos à mesma consultoria que amparou a transformação de Barcelona às portas de receber as Olimpíadas de 1992, mas o projeto nunca foi adiante e precisaria ser atualizado.

Do ponto de vista da Educação e da Cultura, ela garante, a Flip vem tratando de fazer sua parte. “Desde o começo do projeto, promovemos um trabalho especial com as crianças de Paraty, que passaram a crescer tendo contato com o livro. Fazemos também um trabalho de formação de professores que é anterior a cada edição da festa. Quando o evento começa, as escolas já trabalharam os livros dos autores que participam da Flip, e as crianças têm contato direto com eles enquanto participam das atividades da Flipinha", diz Belita, que destaca, ainda, a construção de 30 bibliotecas em escolas públicas e outras 13 bibliotecas comunitárias em todo o município, ao qual foram doados cerca de 12.000 livros em dez anos.

Na opinião da secretaria de cultura de Paraty, Cristina Maseda, é uma revolução cultural que deixou rastros, como a própria Casa da Cultura – que nasceu para servir a Flip e hoje é o principal equipamento cultural da cidade, atraindo a cada dia um público maior. “Criamos uma série de atividades culturais permanentes em Paraty voltadas aos jovens. Não que a realidade desses adolescentes carentes ou envolvidos com drogas vá mudar de um dia para o outro. Mas é um caminho que está sendo construído”, declarou. É com policiamento ostensivo, mas também por sua inegável veia cultural que os paratienses olham para o futuro.