Do endereço dos barões do café às bicicletas

Arquiteto e urbanista defendem fechamento do cartão-postal de São Paulo aos domingos

Paulistanos ocupam a avenida.
Paulistanos ocupam a avenida.Heloisa Ballarini (Divulgação)

Um casal namora encostado em um poste, observado discretamente por um senhor que passa correndo, num trote leve. O corredor olha para frente bem a tempo de desviar de uma criança, que brinca no chão com um carrinho, ao lado de uma banda que toca Tim Maia, não distante de um catador de material reciclável que tamborila os dedos em sua carroça, no ritmo. E havia as bicicletas. Centenas delas. Mães com bebês, cachorros, gatos, skates e patins. Na avenida Paulista da inauguração da ciclovia, a pista vermelha pintada no canteiro central foi apenas um detalhe, um pretexto para que o paulistano ocupasse aquele espaço.

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As origens da avenida Paulista remontam ao final do século XIX, época em que servia de endereço para fazendeiros do café. Depois, foi a vez do auge financeiro da zona, com as sedes de alguns dos maiores bancos do mundo até chegar à ocupação atual, mista, com cinemas, teatros, restaurantes, shoppings e hotéis, um dos principais centros de atração cultural da cidade. Palco de dezenas de manifestações políticas, festas de Reveillón e comemorações de títulos de futebol, o cartão postal da cidade está prestes a se tornar oficialmente a praia dos paulistas. Isso se a Prefeitura levar adiante o plano de fechar a avenida – onde 39 ciclistas morreram na última década – todos os domingos, já que um estudo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) apontou que o fechamento da Paulista não afetou o trânsito na região.

“Foi uma explosão de alegria e felicidade. O que se viu na Paulista (sem carros no domingo) foi um estado de espírito que só é alcançado quando existe um domínio humano sobre a cidade e o espaço público”, diz Erminia Maricato, professora aposentada da FAU USP e da Unicamp. Para ela, os paulistanos “estão acostumados com uma cidade avessa ao uso pacífico e libertário do espaço” e, de repente, viram seu principal cartão postal tomado “por uma grande comemoração”. “Só que diferentemente das festa de final de ano, não se está comemorando nada específico, e sim o protagonismo coletivo no espaço público. Estão celebrando a cidade.”

Maricato gosta de valorizar a dimensão simbólica da ocupação da Paulista: “De repente, uma avenida que já foi a avenida dos barões do café, no domingo ela foi do povo”. “Em uma metrópole que não é muito amigável para a população e para o lazer, é impressionante o aparecimento de tantas iniciativas ligadas à arte.” Maricato aponta que mobilizações semelhantes também ocorrem no Minhocão, que também vai passar a fechar aos sábados além dos domingos, na praça Roosevelt, ambos no centro, e no Largo da Batata, em Pinheiros.

Um crítico da gestão petista do prefeito Fernando Haddad engrossa o coro de elogio pelo fechamento da Paulista aos domingos e a ampliação da rede de ciclovias e ciclofaixas da cidade. “Tenho sido muito critico à gestão do prefeito. O plano diretor dele é uma calamidade”, afirma Candido Malta Campos Filho, professor emérito da FAU USP. “Mas, no caso das ciclovias, eu sou a favor. E da Paulista [fechada para lazer] mais ainda”, diz. O arquiteto faz uma ressalva, que diz respeito ao acesso aos cinco hospitais localizados na avenida: “Não faz falta para os veículos, a questão é apenas o fluxo de ambulâncias." A Prefeitura diz que estuda fazer um esquema especial para os hospitais e para os moradores da zona.

No teste do domingo da inauguração da ciclovia, a ausência de carros, motos e ônibus fez surgir uma outra diversidade: a do som. Sem buzinas, freadas e motores cuspindo fumaça, ouvia-se risos, gritos, música e burburinho. Apesar do asfalto, era um parque. Os com ouvido mais aguçado poderiam dizer que ouviram pássaros cantando, ali no Parque do Trianon.