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Tsipras apela aos gregos que digam ‘não’ a “chantagens e ultimatos”

Os bancos gregos alertam que só têm liquidez garantida até segunda-feira

Manifestação a favor do 'não', nesta sexta, em Atenas.
Manifestação a favor do 'não', nesta sexta, em Atenas. AFP

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, apareceu no início da tarde desta sexta-feira (horário local) no canal privado de TV Mega para pedir novamente que os gregos votem pelo não no referendo de domingo. O premiê reiterou que votar pelo não não representa um "não à Europa", mas sim à "chantagem" de aceitar um acordo que não contemple uma solução sustentável para a questão da dívida pública. Enquanto isso, a situação financeira do país se agrava, com uma liquidez bancária disponível de 1 bilhão de euros (3,4 bilhões de reais), segundo a patronal grega do setor.

“Peço que digam não aos ultimatos e às chantagens, mas também que digam não à divisão”, afirmou. “Votemos com calma e com argumentos, não com repreensões.”

Tsipras avaliou positivamente a mensagem do Fundo Monetário Internacional (FMI) da véspera, que propõe o pagamento de 30% da dívida grega e confirma a sua inviabilidade, de modo a convidar os gregos a votar com “serenidade e senso de responsabilidade” no referendo marcado para este domingo, que submete à consulta popular a proposta de acordo das instituições apresentada em 25 de junho e que já expirou.

O primeiro-ministro Tsipras em pronunciamento nesta sexta.
O primeiro-ministro Tsipras em pronunciamento nesta sexta.

“Quem tem o futuro nas mãos não tem nada a temer”, disse Tsipras, em referência ao que chamou de campanha do medo por parte dos defensores do sim. O mais importante em seu breve discurso, transmitido ao vivo de seu gabinete oficial, foram as diversas referências ao comunicado do FMI. “A declaração do FMI confirma o que viemos dizendo, que a dívida grega é inviável, e abre novos cenários de diálogo. As instituições nunca assumiram uma postura tão clara como essa nesses cinco meses de negociações, e com ela justificam plenamente nossa insistência em não aceitar nenhum acordo que não leve em conta a reestruturação.”

Como fez em pronunciamentos anteriores, o primeiro-ministro grego afirmou que o referendo de domingo “não decide a permanência da Grécia no euro, e sim se continuamos permitindo a morte lenta da economia grega ou se avançamos”. A declaração do FMI, acrescentou, “fortalece nossa postura [a do Governo] para chegar a um acordo mais viável” com os credores.

O chefe de Governo pediu que os gregos votem “com responsabilidade, unidos para enfrentar o futuro a partir de segunda-feira”. “O não não significa uma ruptura com a Europa”, disse ele pela enésima vez, desde que convocou de surpresa a consulta na madrugada de sábado; “vamos dizer não às chantagens e à estratégia do medo”.

A patronal do setor bancário grego também interveio no debate sobre o referendo com uma informação crítica. O presidente da associação bancária, Luka Katseli, diz que as entidades dispõem apenas de uma liquidez (notas e moedas) de 1 bilhão de euros (3,4 bilhões de reais). Essa quantidade mal dá para cobrir as necessidades do fim de semana. “A liquidez está garantida até segunda. Depois, dependerá da decisão do Banco Central Europeu (BCE)”, afirmou Katseli à imprensa, segundo a Reuters. Sem revelar detalhes, a patronal europeia Business Europe, que agrupa as principais organizações do continente, emitiu nesta sexta um comunicado expressando “sua preocupação com os momentos difíceis que os controles de capital e a falta de avanço nas negociações causaram à população, às empresas e aos funcionários gregos”.

A situação dos cofres públicos e do setor financeiro na Grécia é um verdadeiro enigma. O prognóstico coincide com o de outras fontes em Bruxelas. Ainda assim, o BCE até agora decidiu não cortar as vias de financiamento de emergência de Atenas.

Faltando horas para o referendo, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, também se pronunciou. E alertou sobre as consequências que, segundo ele, decorrerão do não. “Se o vencer o não, a posição grega ficará dramaticamente enfraquecida. Até mesmo com o sim teremos que enfrentar negociações difíceis, mas o não pioraria a posição negociadora do Governo grego”, disse ele em Luxemburgo.

Juncker foi o primeiro político europeu que transformou o referendo grego em um plebiscito sobre a Europa, algo repetido por outros políticos da comunidade. O presidente da Comissão Europeia sente-se especialmente frustrado com o fracasso da negociação porque liderou as discussões com Tsipras e prognosticou, sem nuances, que haveria um acordo seguro no final da semana passada.

Mais neutro que Juncker foi o presidente do Eurogrupo (a reunião de ministros do euro), Jeroen Dijsselbloem: “É hora de os gregos decidirem”, disse ele aos jornalistas. “É importante para a Europa, mas sobretudo para a Grécia.”

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