Opinião
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Brasil e EUA: hora de transcender o estranhamento diplomático

A abertura do mercado norte-americano à nossa carne bovina in natura é dado positivo

Dilma Rousseff discursa na sede do Google, em São Francisco, no último dia da viagem aos Estados Unidos.
Dilma Rousseff discursa na sede do Google, em São Francisco, no último dia da viagem aos Estados Unidos.David Paul Morris (Bloomberg)

O encontro da presidente Dilma Rousseff e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reforçou entendimentos e compromissos conjuntos que já vinham sendo debatidos entre os dois países nos últimos meses. O comunicado firmado pelos dois chefes de Estado prevê cooperação mútua em áreas como educação, ciência e defesa, mas as iniciativas relativas ao comércio e investimentos bilaterais merecem destaque. A intensificação comercial bilateral com os Estados Unidos, maior destino das exportações brasileiras de bens manufaturados, é de extrema relevância para o Brasil.

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O trabalho de aproximação e troca de intenções já havia sido iniciado em março deste ano, quando o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Armando Monteiro, liderou comitiva do governo que deu início a propostas concretas para o incremento das relações comerciais. Em abril, o encontro entre Dilma e Obama às margens da sétima Cúpula das Américas, realizada no Panamá, refletiu a intenção de estreitamento, sobretudo comercial.

No documento conjunto veiculado nesta terça, os presidentes destacaram avanços na área de facilitação de comércio, avaliação de conformidade e interesse em temas de convergência regulatória. Além do mais, houve o compromisso de compartilhamento de práticas público-privadas em busca de avançar em termos de competitividade e diversificação da pauta comercial de ambos os países.

Um dado positivo, uma vez que o distanciamento político teve um alto custo econômico para o país, que frequentemente perde oportunidades comerciais com os Estados Unidos para outras nações emergentes. Hoje o Brasil tem um déficit comercial de US$ 8 bilhões com os norte-americanos. Para além do favorecimento do fluxo de exportações brasileiras para aquele destino depois desta aproximação, está o fato da provável diminuição de custos e prazos para as operações de comércio exterior com a assinatura de um acordo bilateral que contemple iniciativas de facilitação de comércio.

Para a indústria e comércio, para além da promessa de aprimorar os esforços com o objetivo de aumentar os investimentos bilaterais, Dilma e Obama expressaram a intenção de assinar um Memorando Bilateral de Intenções em Padrões e Avaliação de Conformidade a fim de pautar as atividades industriais dos países em um documento formal com harmonização de padrões técnicos comuns.

Outro resultado comercial importante foi a abertura do mercado de carne bovina in natura norte-americano para as exportações brasileiras. Com efeito, após mais de quinze anos de negociações, foi anunciado, nessa segunda-feira (29), a abertura desse importante mercado pela ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu. Uma vitória há muito tempo aguardada pelo setor pecuário.

Vale lembrar que no último dia 25 foi aprovada a renovação do Sistema Geral de Preferências (SGP) norte-americano que beneficia centenas de empresas médias no Brasil. Dada a importância das preferências tarifárias concedidas a inúmeros setores exportadores brasileiros para os Estados Unidos, esse também foi um avanço para muitas empresas brasileiras, que essa semana operam mais tranquilas.

Fato é que o Brasil só tem a ganhar com a reaproximação política e econômica com os Estados Unidos. Agora, inclusive com a perspectiva de um novo governo democrata em 2016, é o momento de transcender o estranhamento diplomático dos últimos anos, concretizar e sofisticar os acordos comerciais e regulatórios já desenhados, além de aproveitar as grandes janelas de oportunidades de investimentos e exportação de produtos de maior valor agregado que devem resultar da revitalização das relações bilaterais.

A visita de Dilma acontece em um momento de extrema relevância para o país. Em meio à desaceleração econômica, ao ajuste fiscal, a investigações de casos corrupção, a um conturbado contexto político interno marcado por uma crise de governança em potencial e a índices de aprovação presidencial em declínio, a visita ganha especial importância.

Ao que tudo indica, a viagem presidencial a Washington foi bem sucedida também em seu intuito de restaurar a confiança dos investidores externos na economia brasileira. Agora é esperar para ver se o entusiasmo presidencial permanece.

Renata Amaral é Doutora em Direito do Comércio Internacional por Maastricht University (Holanda) e pela Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc) e consultora em Comércio Internacional da Barral M Jorge Consultores.

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