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O juiz do mundo ao avesso em Ruanda

Andreu nunca encontrará a verdade porque sua interpretação do ocorrido é pouco confiável

Partidários de Karenzi Karake, na quinta-feira em Londres.
Partidários de Karenzi Karake, na quinta-feira em Londres. AP

Podemos imaginar que o juiz Fernando Andreu, da Audiência Nacional espanhola, reagiu como quase todo mundo diante dos atentados jihadistas que na sexta-feira causaram a morte de 66 pessoas em três continentes. Não há como saber, entretanto, se o juiz Andreu, que foi notícia no final de junho por sua louvável pretensão de utilizar o vigor da lei espanhola contra o terrorismo internacional, reagiu com estupefação semelhante há exatamente 21 anos enquanto ocorria uma das grandes atrocidades do século XXI, o genocídio de Ruanda.

Isso é curioso por dois motivos. Primeiro, porque em abril, maio e junho de 1994, quando o juiz Andreu já era maior de idade e estava capacitado para ler jornais, as pessoas morriam em Ruanda a um ritmo não de 66, mas de 8.000 pessoas por dia, quase todas liquidadas com um sadismo que supera a imaginação do jihadista mais psicopata. Segundo, porque cabe pensar que o juiz Andreu conhece alguma coisa de Ruanda, já que iniciou em 2008 um processo judicial contra 40 militares ruandeses que ele acusa, entre outros crimes, de genocídio. O juiz foi notícia na segunda-feira pela detenção em Londres, a seu pedido, do general Karenzi Karake, para que compareça diante de um tribunal espanhol.

O problema é que o juiz Andreu cometeu um erro quando escreveu seu sumário há sete anos: se enganou de genocídio. Das 181 páginas do sumário só é possível tirar uma conclusão: que uma força armada liderada pela minoria tribal tutsi pretendeu exterminar a maioria tribal hutu. O que está tão longe da verdade como dizer que os responsáveis pelo genocídio durante a Segunda Guerra Mundial não foram os nazistas, mas os aliados.

O sumário do juiz Andreu começa com uma versão resumida da história de Ruanda a partir de 1990. Diz que naquele ano um grupo “terrorista” iniciou “uma série de atividades de caráter criminoso”. Ele se refere à Frente Patriótica Ruandesa (FPR), um movimento rebelde predominantemente tutsi cujo objetivo era derrubar o Governo, composto por membros da etnia dominante hutu. O juiz Andreu escreve no terceiro parágrafo de seu sumário que em 1994, “utilizando de violência”, a FPR tomou o poder. Isso é verdade, como também é verdade que os aliados derrotaram os nazistas “utilizando a violência” em 1945. O que o juiz Andreu não menciona é que se a FPR não houvesse tomado o poder em 4 de julho de 1994, pondo fim a um genocídio que acabou com as vidas de mais de 800.000 pessoas em 100 dias, quase todas assassinadas a golpe de machete, o regime hutu teria cumprido com sua sistemática missão exterminadora e matado todos os tutsis que ainda restavam vivos. Bill Clinton disse que sua maior lamentação em seus oito anos na Casa Branca foi não intervir, utilizando a violência, para frear o genocídio ruandês.

Na continuação, o juiz Andreu diz em seu sumário que o novo Governo da FPR pretendeu “eliminar a etnia maioritária”, ou seja os hutus, afirmação evidentemente absurda já que, entre muitas outras coisas, a FPR prendeu 120.000 hutus que supostamente participaram dos massacres de tutsis, 90% dos quais hoje estão em liberdade.

Conversei na semana passada com Philip Gourevitch, autor do livro mais conhecido sobre o genocídio ruandês, Gostaríamos de Informá-lo de que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias. Gourevitch, que agora trabalha em um segundo livro sobre Ruanda, disse que o juiz Andreu apresentou “uma visão de um mundo ao avesso, uma ficção tóxica, objetivamente demencial”. Gourevitch me enviou um comunicado vazado pelo Wikileaks no qual o embaixador norte-americano em Ruanda em 2008 descreve o sumário do juiz Andreu como “escandaloso e errôneo”. O comunicado do embaixador acrescenta: “O processo espanhol contra os 40 militares ruandeses oferece uma versão irreconhecível de um dos episódios mais dolorosos e violentos da história de Ruanda, distorcendo a verdade estabelecida, inventando matanças”.

O EL PAÍS enviou ao juiz Andreu uma série de perguntas através da assessoria de imprensa, mas não obteve resposta.

Massacres dos dois lados

Nem todas as matanças mencionadas pelo juiz Andreu, entretanto, foram inventadas. Ocorreram represálias violentas por parte do regime militar tutsi que tomou o poder em julho de 1994 e milhares morreram. Também é verdade que o regime enviou tropas para perseguir responsáveis hutus pelo genocídio que haviam fugido ao vizinho Congo com o propósito de voltar à Ruanda e, como diziam seus líderes, “terminar o serviço”. Ocorreram massacres de civis, dos dois lados. O mesmo regime continua no poder atualmente e, mesmo com o país prosperando economicamente e em paz, continuam ocorrendo assassinatos esporádicos de opositores – um deles, um grande amigo meu, estrangulado no quarto de um hotel sul-africano há um ano e meio –.

Gostaria que os responsáveis fossem a julgamento e tivessem seu merecido castigo. Os parentes e amigos de três voluntários espanhóis assassinados em Ruanda em janeiro de 1997, a razão pela qual o juiz Andreu tem jurisdição sobre cidadãos ruandeses, também gostariam que se fizesse justiça. Mas não será possível já que o processo aberto pelo juiz Andreu não tem nenhuma credibilidade.

O juiz Andreu nunca encontrará a verdade porque a interpretação histórica e política na qual suas investigações se fundamentam é pouco mais confiável do que a interpretação que Joseph Goebbels poderia ter feito sobre o papel nazista na Europa entre 1939 e 1945. O que diriam os espanhóis, alguém poderia perguntar, se um juiz ruandês se propusesse a investigar o “genocídio” realizado na Guerra Civil espanhola e se limitasse a pormenorizar as atrocidades cometidas do lado republicano, apresentando os agressores do lado franquista como vítimas inocentes? O que todo mundo diria. Que é uma distorção da verdade, um escândalo, uma loucura e, acima de tudo, uma coisa ridícula.

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