Lula diz que PT só pensa em cargos e compara origem da sigla ao Podemos

Em evento ao lado ex-premiê Felipe González em São Paulo, petista ouve críticas a Maduro

Lula e Felipe González, em São Paulo.
Lula e Felipe González, em São Paulo.M. S. (AFP)

A conferência do ex-presidente do Governo Espanhol Felipe González em um hotel em São Paulo nesta segunda-feira, a convite do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não foi um encontro protocolar. Sob o título “novos desafios da democracia”, os dois líderes da esquerda mundial em debate com a plateia formada por políticos, intelectuais e representantes do movimento sindical e populares acabaram por trazer à luz, com críticas e análises francas de parte a parte, as crises de seus respectivos partidos, PSOE (Partido Obrero Español) e PT, e colocaram em evidência as diferenças de posição em relação à Venezuela de Nicolas Maduro.

Diante de Lula, um aliado do chavismo, González expôs suas diferenças com o Governo venezuelano. "Eu não faço parte de nenhuma conspiração", disse o ex-presidente espanhol, em referência às críticas recebidas de Maduro, que o acusou de querer desestabilizar seu Governo por tentar visitar em Caracas o opositor preso, Leopoldo López, no mês passado. "A Venezuela é questão de ir lá e ver (o que acontece)", defendeu o espanhol. "Vou tentar ser cauteloso: não vejo semelhança entre o que acontece aqui (no Brasil) e o que acontece na Venezuela. O pluralismo midiático na Venezuela acabou."

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As críticas ao chavismo, um tema com repercussão na agenda doméstica no Brasil, provocaram reação na plateia, que incluía os ministros da Cultura (Juca Ferreira) e Educação (Renato Janine Ribeiro). Na semana passada, os senadores brasileiros de oposição realizaram uma ruidosa visita a Caracas para tentar visitar López. Hostilizados por militantes chavistas e com contratempos no trânsito, decidiram abortar a missão. O fracasso, de todo modo, ganhou ampla repercussão e provocou uma nota do Itamaraty, exigindo informações sobre o episódio a Maduro. A cobrança pública da diplomacia brasileira tornou evidente as diferenças de posicionamento entre o PT, alinhado com Caracas de maneira mais evidente até do que o próprio Lula, e o Governo Dilma Rousseff, que tem subido o tom das críticas.

Num momento, o debate se voltou, então, ao papel da mídia e das redes sociais nos desafios da democracia. González lembrou das problemas que sofreu com a ferrenha oposição do diário conservador espanhol ABC, nos anos 80, mas não se se juntou automaticamente ao coro de críticos dos brasileiros ao papel da mídia. Antes de criticar a mídia, disse o ex-premiê espanhol, é preciso se perguntar se o partido perdeu força de persuasão, se perdeu coesão interna. Refletiu sobre a chegada dos partidos de esquerda ao poder: "O que aconteceu com o meu partido, caro Lula, é que nós alteramos a sociedade, a realidade social, mas não mudamos a nós mesmos. Mantivemos o mesmo discurso. Ficamos para trás".

Salvar a pele ou projeto

Em meio à crise do PT e no embate quase diário com imprensa tradicional, Lula parece ter se sentido instado a entrar na discussão. Não estava previsto um discurso do ex-presidente brasileiro, mas a mediadora anunciou que ele falaria. O petista chamou González de "uma das cabeças mais arejadas para repensar a esquerda", e começou descrevendo que "durante muito tempo assistimos à esquerda europeia definhando, definhando".

O brasileiro não se constrangeu ao afirmar que o PT deveria promover um encontro com o Podemos,  o atual inimigo eleitoral número 1 da esquerda do PSOE na Espanha. “O PT era em 1980 o que é o Podemos em Barcelona ou Madri”, disse Lula. "Que surja um partido melhor que o PT, melhor que o PSOE, mas que surja. Porque quando se nega a política, o que vem é muito pior."

O ex-presidente brasileiro, que acaba de participar de um congresso do PT morno em Salvador, defendeu uma “revolução interna" em seu partido sacudido pelo escândalo de corrupção da Petrobras e contaminado pelo que chamou de "vício de um partido que cresceu e chegou ao poder", que só pensa "em cargos". "Temos que definir se queremos salvar a nossa pele e os nossos cargos ou se queremos salvar o nosso projeto".

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