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Felipe González: “A Venezuela precisa de muito diálogo”

Ex-premiê espanhol visita Antonio Ledezma, prefeito de Caracas em prisão domiciliar Político também visita familiares do líder oposicionista Leopoldo López, que está na cadeia

O ex-presidente González junto à esposa de Ledezma, em Caracas.
O ex-presidente González junto à esposa de Ledezma, em Caracas.

O ex-primeiro-ministro espanhol Felipe Gonzálezse encontra em Caracas para participar da defesa de dois líderes oposicionistas venezuelanos detidos, Leopoldo López e Antonio Ledezma. Seu primeiro destino na Venezuela foi a residência da família López, onde no domingo se reuniu durante mais de quatro horas com a equipe de advogados da defesa. No encontro estiveram presentes também, entre outros, Lilian Tintori, Mitzy Capriles e Patricia Gutiérrez, esposas de três políticos venezuelanos presos – respectivamente López, Ledezma e Daniel Ceballos. Ao sair, González disse que “a Venezuela precisaria de muito diálogo”, mas elogiou o “bom gesto” do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ao demonstrar sua intenção de convocar eleições neste ano.

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Uma ideia que reiterou pouco depois, diante da casa onde Antonio Ledezma cumpre prisão domiciliar. “Gostaria de encontrar um país onde não houvesse bons e maus”, disse o político socialista espanhol, que preferiu não comentar as manifestações convocadas pelo campo governista contra sua visita. González precisou esperar quase uma hora até que o Governo venezuelano autorizasse sua entrada para visitar o prefeito metropolitano de Caracas. Na saída, qualificou o encontro de “grato” e acrescentou que o prefeito concorda com a necessidade de ampliar o diálogo no país sul-americano como forma de “recompor as instituições”.

O ex-premiê, que governou a Espanha entre 1982 e 1996, foi declarado persona non grata pelo Governo de Maduro, mas não teve nenhum problema na hora de entrar na Venezuela, procedente de Bogotá. A visita, que atraiu a atenção internacional, recebeu uma resposta hostil por parte do chavismo, embora em zonas afastadas daquelas onde González esteve em suas primeiras horas no país.

J.LAFUENTE

Enquanto González mantinha sua primeira reunião com os advogados dos oposicionistas no domicílio da família López, numa rua do bairro de Sebucán onde historicamente residiu a oligarquia venezuelana, a televisão estatal transmitia os protestos chavistas nas principais cidades da Venezuela, descrevendo-os como “concentrações patrióticas”.

Nas legendas da transmissão se lia que “o povo rejeita a ingerência de Felipe González”. Nas redes sociais, o chavismo promoveu sua campanha contra González com a hashtag #VenezuelaSeRespeta. Na praça Bolívar, ponto nevrálgico da capital venezuelana, dezenas de pessoas se concentravam, sem a presença de dirigentes nacionais. Ao menos num primeiro momento, os protestos e as mensagens contra González eram mais visíveis nas redes sociais do que nas ruas.

Pouco depois da chegada do ex-premiê à Venezuela, o Tribunal Supremo emitiu um comunicado em que reiterava seu “rechaço categórico a toda ação estrangeira de caráter intervencionista em assuntos judiciais que competem única e exclusivamente aos tribunais venezuelanos”. O chavismo reiterou que a lei venezuelana não ampara a participação do ex-presidente do Governo espanhol na defesa dos oposicionistas presos, embora os advogados e familiares destes assegurem que o papel de González será o de assessor externo, e não de advogado litigante.

Apesar das especulações de que a primeira parada de González em Caracas seria a residência da família Ledezma, onde o prefeito metropolitano de Caracas se encontra sob prisão domiciliar, o ex-premiê se dirigiu do aeroporto, nos arredores da capital, para a casa da mãe de López.

Visitar Leopoldo López

Durante todo o trajeto, a comitiva foi escoltada por membros do Sebin, a polícia política venezuelana, e da Polícia Nacional Bolivariana, que interrompia o trânsito para que os quase 20 veículos que acompanhavam o ex-dirigente socialista avançassem sem contratempos.

A agenda de González é um mistério. Ele mesmo não quis dar muitos detalhes antes de embarcar para Caracas. Sabe-se que pretende assistir a uma das audiências do julgamento de López, possivelmente na quarta-feira, e visitar o líder do partido Vontade Popular na prisão militar de Ramo Verde, na periferia de Caracas, onde ele permanece detido desde fevereiro de 2014, acusado de instigar os protestos que resultaram na morte de 43 pessoas.

Pessoas próximas a López informaram que González pediu autorização para visitar o líder oposicionista nesta semana. O Governo venezuelano já impediu outros ex-mandatários de entrarem na prisão: o colombiano Andrés Pastrana – em duas ocasiões –, o chileno Sebastián Piñera e o boliviano Tuto Quiroga.

“Bem-vindo, presidente!”

Felipe González, ex-presidente do Governo (premiê) da Espanha, chegou a Caracas logo depois das 11h de domingo (hora local, 12h30 em Brasília). No aeroporto El Dorado, em Bogotá, de onde partiu acompanhado da esposa e de dois membros da sua escolta, González se mostrava sereno, sem querer antecipar o que poderia ocorrer na sua chegada a Caracas, nem revelar sua possível agenda. “Vamos ver; primeiro precisamos entrar”, afirmou. O ex-premiê espanhol se viu obrigado a adiar sua viagem a Caracas, há duas semanas, porque o Governo de Maduro atrasou as alegações orais no julgamento de Leopoldo López.

A todo instante, o ex-premiê, que mantém uma estreita relação com a Venezuela desde a década de oitenta, insistia que não provocaria “um escândalo” se fosse barrado pelo Governo de Maduro. Mas isso não ocorreu. Ao aterrissar em Caracas, mostrava-se tranquilo e inclusive se atreveu a brincar com seus acompanhantes após entregar um certificado de saúde exigido pelas autoridades: “E você, está saudável?”.

Já no controle de migração, e sob o atento olhar de vários membros do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), González esperou alguns minutos até que a funcionária carimbasse seu passaporte. Na área de desembarque do aeroporto, sob aplausos e diante de dezenas de jornalistas, González foi recebido pelo embaixador espanhol, José Antonio Pérez Hernández, em cuja residência se hospedará, e pela mulher de Antonio Ledezma, Mitzy Capriles, que se lançou efusivamente a abraçá-lo enquanto gritava “Bem-vindo, presidente!”.

Ela estava na companhia de Antonieta López, a mãe de Leopoldo López, da irmã dele, Diana, e de vários colaboradores dos oposicionistas presos.