Eleições no México 2015

México mobiliza o exército e a polícia para blindar as eleições

A ameaça de boicote lançada por facções sindicais colocou o país diante de um confronto

Policial em Guerrero (México) ao lado de pichação pelo boicote eleitoral.
Policial em Guerrero (México) ao lado de pichação pelo boicote eleitoral.P. PARDO (AFP)

O México prende a respiração. A ameaça de um boicote às eleições deste domingo lançada por facções sindicais violentas e contrárias à reforma educacional colocou o país diante de um confronto que, se for consumado, pode ter consequências imprevisíveis. Diante desse desafio, o Governo ordenou uma mobilização maciça de Exército, Marinha e Polícia Federal. A operação, apesar de cobrir todo o território nacional, concentra suas forças em Oaxaca, um dos estados mais pobres e atrasados (seu PIB per capita é 2,8 vezes menor do que o brasileiro). É ali que a Coordenação Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE), uma cisão do sindicato majoritário dos professores, conta com maior força e impôs sua lei.

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Em uma escalada de violência, esta central demonstrou ao longo de duas semanas radicais sua capacidade de desafiar na rua o próprio Estado. Fechou estradas, bloqueou aeroportos, tomou centrais de abastecimento de gasolina, destruiu escritórios eleitorais, queimou cédulas e ameaçou várias vezes impedir as eleições. Os ataques aconteceram em Oaxaca, Michoacán, Chiapas, Guerrero e na própria capital. O nível de violência chegou a tal ponto que até o Exército, encarregado da custódia do material eleitoral, recuou em Oaxaca para evitar um confronto. Alarmado por essa ofensiva, o Instituto Nacional Eleitoral tomou medidas extraordinárias e pediu ajuda. A Embaixada dos Estados Unidos pediu a seus cidadãos que não viagem a Oaxaca, e os partidos de oposição exigiram a intervenção imediata da própria presidência.

A resposta do Executivo demonstrou o enorme poder de coerção do sindicato. Em uma tentativa de pôr fim à violência, o Governo decidiu, no fim de maio, aceitar uma de suas mais espinhosas reivindicações: suspender a avaliação dos docentes, uma medida destinada a acabar com o clientelismo que ainda impera na docência. Mas a queda humilhante de um dos símbolos da reforma educacional não serviu para deter a espiral de tensão. A Coordenação, apoiada por organizações paralelas, continuou as mobilizações e redobrou sua chamada ao boicote. Queriam muito mais. Para dar marcha ré, exigiam a retirada completa da reforma. Com esta bandeira, passaram por cima das autoridades da Educação e abriram uma negociação direta com a Secretaria de Governo (equivalente ao Ministério do Interior).

Alarmado com essa ofensiva, o Instituto Nacional Eleitoral tomou medidas extraordinárias e pediu ajuda

As discussões, na manhã de sábado, ainda não tinham chegado ao fim, mas, diante de um possível fracasso, o Governo ordenou a ação militar e policial. Mais de 600 soldados de reforço foram enviados a Oaxaca, e outros milhares de efetivos foram distribuídos pelos pontos nevrálgicos dos estados mais ameaçados, entre eles Michoacán, Guerrero e Chiapas. “Queremos que todos os mexicanos possam ir às urnas com tranquilidade”, afirmou o secretário de Governo, Osorio Chong. O Instituto Nacional Eleitoral, temeroso de um estouro de violência no dia das eleições, para as quais 83 milhões de mexicanos estão convocados (vota-se para deputados federais, nove governadores, 16 assembleias estaduais e 1.009 municípios), pediu aos militares e policiais “o estrito cumprimento da lei e o respeito cuidadoso aos direitos humanos”. O desembarque das forças federais obrigou o sindicato a abandonar as sedes eleitorais tomadas em Oaxaca. Ainda que a tensão tenha diminuído, o grupo não recuou de sua principal reivindicação. No domingo, as espadas continuam empunhadas.