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Andar de bicicleta se tornou um perigo mortal no Rio de Janeiro

Recentes crimes violentos, como o do cardiologista Jaime Gold, de 57 anos, que morreu depois de ter recebido punhaladas no abdome, deixam cidade em estado de alerta

Protesto da ONG Rio de Paz pela morte do médico esfaqueado.
Protesto da ONG Rio de Paz pela morte do médico esfaqueado.Fernando Frazão (Agência Brasil)

A lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, oásis urbano e futuro cenário olímpico, se transformou em um lugar muito perigoso para fazer esportes. Serve de exemplo perfeito para o paradoxo constante que envolve a ‘Cidade Maravilhosa’: suas margens tranquilas, onde as classes mais favorecidas fazem exercício pela manhã na frente de uma paisagem idílica, se transformam, à noite, no ponto predileto para adolescentes pobres e drogados atacarem suas vítimas distraídas. “Antes ameaçavam com facas para levarem as bicicletas, mas nos últimos dois meses já apunhalaram quatro pessoas”, explica Jorge, proprietário da loja de aluguel Stella Maris, que aluga bicicletas a dez reais por hora.

Uma das vítimas mais recentes, o cardiologista Jaime Gold, de 57 anos, morreu na última terça-feira no hospital depois de ter recebido três punhaladas no abdome, sem prévio aviso, de dois jovens que o interceptaram enquanto pedalava. Sem bicicleta e sem carteira, deixou uma mancha de sangue enquanto pedia ajuda na frente de um dos bairros mais chiques da cidade, às seis e meia da tarde, já noite fechada nessa época do ano.

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Outros dois ataques com faca foram registrados nesta sexta-feira em outros dois pontos da cidade aumentando ainda mais o clima de insegurança. Na madrugada, um funcionário de um restaurante do Centro foi assaltado quando fazia uma entrega na Praça Tiradentes. E horas depois, a chilena Izidora Ribas Carmona, de 32 anos, foi atacada enquanto tomava sol na Praça Paris, na Glória, na Zona Sul da cidades. As duas vítimas ficaram feridas, mas passam bem.  

No meio da semana, a polícia prendeu o adolescente acusado do ataque ao cardiologista na favela do Mandela, zona norte da cidade. Ele tem 16 anos e já passou 15 vezes pela delegacia: todas por furto e roubo com violência nos bairros de classe média da zona sul, onde grupos de adolescentes das áreas pobres vão para roubar depois de conseguir drogas nos territórios dominados pelo narcotráfico, onde cresceram, muitas vezes na rua.

Dois dias depois dos fatos, uma bicicleta preta presa à grade do lago homenageia a memória do médico morto no lugar exato em que foi atacado. O veículo está rodeado de flores, mensagens e dados sobre a violência no Rio; tinta vermelha, ao lado da bicicleta, simula o charco de sangue que deixou Gold (pai de dois filhos) enquanto pedia socorro, antes de ser ajudado por um médico de 33 anos que estava correndo e encontrou o moribundo apoiado em uma árvore. Uns turistas desinformados passeiam em uma bicicleta dupla e tiram fotos da espetacular paisagem do lago, rodeado de morros e vegetação, a poucas quadras do mar. Felipe, um carioca de 51 anos que leva sua filha de bicicleta para almoçar em casa, faz uma parada na frente da bicicleta preta. Faz esse trajeto, do Botafogo para Ipanema, seis vezes por dia. A menina abre bem os olhos quando lê os cartazes colocados pela ONG Rio-Paz: 1.343 latrocínios (roubo seguido de morte) entre 2007 e 2014, 41.494 homicídios dolosos, 142 policiais mortos em serviço…

“Que covardes… Ele não teve nenhuma chance”, sussurra Felipe. Quando fica sabendo que o adolescente suspeito já foi detido, e que foram encontradas navalhas e bicicletas roubadas, responde seco: “Isso não serve para nada. Vai sair daqui a poucos meses”. Aponta para o carro de polícia que está parado do outro lado da rua, perto de um posto de gasolina: “Se tivesse um carro de polícia aí naquele dia, isso não teria acontecido”. Outro avô ciclista que parou concorda em silêncio, como se não quisesse quebrar o luto. Nas águas contaminadas do lago hoje não se veem peixes mortos que rompam o aparente paraíso onde serão realizadas, em teoria, as provas de remo nos Jogos Olímpicos de 2016. María, uma espanhola que costuma ir ao lago à tarde para ensinar a menina que cuida a andar de bicicleta, diz estar “horrorizada... A cidade está cada vez pior, em muitos dias sinto medo. Onde estão todos os policiais que vimos durante a Copa do Mundo?”.

O mesmo parece pensar o máximo responsável pela Segurança no estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que considerou “inadmissível” o falecimento e destituiu o delegado-titular do Leblon horas depois do homicídio: “É um lugar muito querido pelos cariocas”, declarou com um gesto compungido. Só no ano passado, mais de 220 pessoas morreram no Rio por feridas de arma branca.

É improvável que essa noite aconteça outro ataque no lago: em meia-hora, além do carro estacionado, já passaram dois membros da “Polícia Turística” de bicicleta e outros dois da Polícia Militar em um carro elétrico: “Agora está cheio de policias”, ri Jorge. “Na sexta-feira não vai ficar nenhum!”.

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