Tribuna
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Brasil: entre a utopia e a descrença

Diz-se que o país cresce como uma galinha voa. Um salto, uma queda; outro salto e assim sucessivamente

Diz-se que o Brasil cresce como uma galinha voa. Um salto, uma queda; outro salto, outra queda e assim sucessivamente. No alto, todos acreditamos que lá ficaremos e que o futuro nos reserva bondades. Em baixo, achamos que logo estaremos por cima. Se as coisas andam mal, logo melhorarão e o Deus brasileiro se encarregará de consertar nossos desacertos.

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Há toda uma literatura sobre os estados de espírito brasileiros. Desde Caminha que, em sua carta ao Rei, assegurava que, mesmo não se tendo visto coisa alguma, na terra descoberta havia prata e ouro e que, "querendo-a aproveitar, dar-se-ía tudo nela!"

No mesmo espírito, o Conde Affonso Celso, lá pelos idos de 1900, na crise do início dos tempos da República Velha, dizia, em seu “Porque me Ufano de Meu País”: “Ninguém querendo trabalhar morrerá de fome. Parece país de milionários tão largamente se gasta.” E assegurava que “todos os nossos homens políticos brasileiros levam as suas famílias à miséria. Não se locupletam à custa do benefício público.” Parecia realmente acreditar na ilusão...

Realista e objetivo, Capistrano de Abreu nos “Capítulos da História Colonial” (1928), anotou nas conclusões em que descreveu o Brasil de 1800: “Os proprietários rurais... prosseguiam na lavoura aleatória de drogas de luxo para o estrangeiro, esbanjando as riquezas naturais... Vítima dessa latronicultura, a escravidão africana condenava-se à imobilidade e ao vácuo.”

Seu grande discípulo e admirador, Paulo Prado, resumiu na primeira frase do “Retrato do Brasil” (1928) o sentimento profundamente descrente de que era possuído: “Numa terra radiosa vive um povo triste.” E, ao concluir o livro, comenta nosso “profundo indiferentismo, feito de preguiça física,..., de submissão resignada diante da fatalidade das coisas.... Explosões esporádicas de reação e entusiasmo apenas servem para acentuar a apatia cotidiana.”

E como se fosse capaz de antever o estado em que nos encontramos hoje anota: “A administração pública faliu... Assoberbada num afobamento tonto, ficou atrás: é quase um empecilho e um trambolho ... Os homens, de incapazes, tornaram-se desonestos e, pela cumplicidade dos apaziguamentos eleitorais, aceitaram. O consórcio das funções administrativas com os interesses mercantis. A fragilidade humana fez o resto, que é a vergonha da nação”.

E assim fomos atravessando o Século XX: uma crise política, institucional e econômica atrás da outra. A expectativa benevolente do futuro, porém, a que se manifesta no alto do voo da galinha e se mantém mesmo nas épocas más, esteve sempre presente.

No ano 2000, quando o Brasil festejava o Quinto Centenário em tempos de crescimento modesto indagava-me em artigo publicado na revista “Política Externa” sobre os valores absolutos que todos os brasileiros – independentemente de seu status social ou de sua origem regional– partilhavam. Cheguei a três: a unidade, a coesão territorial, linguística e nacional que caracteriza o país aos olhos de todos os que nele nascemos e/ou vivemos; a grandeza física, a dimensão gigantesca de um dos cinco maiores países do mundo; e o que qualifiquei então de crença de futuro, ou seja, naquele momento esperado em que a grandeza física e a unidade virão a criar o grande país presente desde tempos imemoriais no nosso imaginário coletivo: a utopia brasileira. Não mais voos de galinhas, mas um crescimento sempre voltado para o alto da curva.

À época, tomei conhecimento de uma intrigante tela intitulada “Os Descobridores”, pintada em 1900 por Belmiro de Almeida para as comemorações do Quarto Centenário. Longe do ufanismo de Affonso Celso e mais próximo do fatalismo de Paulo Prado, Belmiro, em vez de se fixar nos momentos mais grandiosos do descobrimento, decidiu figurar os dois degredados aqui deixados por Cabral. Dois seres humanos em condições patéticas. Belmiro os mostra em situações polares: um, de pé, olha para fora, para o mar, onde já velejava a esquadra a caminho das Índias, busca o horizonte, a Europa, a metrópole perdida; o outro recostado à sombra de uma árvore, olha para dentro do país descrito por Caminha, em atitude aterrorizada e desesperançada.

O quadro é inquietante. Sugere uma quantidade de reflexões sobre a origem do Brasil e da sociedade brasileira. Nada de imagens heroicas. O quadro de Belmiro apresenta-se como uma poderosa metáfora da relação do Brasil consigo mesmo e do Brasil com o mundo: uma vaga sensação de degredo, de afastamento que se expressa nas atitudes ambivalentes de oferecimento e recusa; de busca e de alheamento; de integração e de ensimesmamento.

Inspirado nas perspectivas otimistas que o novo milênio nos abria então, vi no quadro de Belmiro a expressão de uma extraordinária grandeza potencial. Grandeza, unidade e visão do futuro. As possibilidades ilimitadas abertas mesmo aos projetos que se iniciam da forma mais modesta. A ideia de que aqueles dois miseráveis seres humanos largados na costa da Bahia vieram a se transformar em milhões de brasileiros, ocupando uma imensa extensão territorial, unidos em sua brasilidade.

Hoje, vendo o país novamente no rés do chão do voo da galinha, às voltas com gravíssimos problemas de corrupção, pergunto-me se ainda partilhamos da visão do futuro que sempre nos uniu. Ou se nos recolhemos fatalmente à descrença, como sugere Lima Barreto no “Triste fim de Policarpo Quaresma”: “Entre nós tudo é inconsistente, provisório, não dura."

Luis Felipe de Seixas Corrêa é diplomata, chefiou a missão do Brasil na ONU e na OMC. Foi por duas vezes secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores (1992 e 1999-2001). 

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