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Nigéria vai às urnas apesar do temor a ataque do Boko Haran

Presidente Goodluck Jonathan disputa cargo com líder muçulmano Muhammadu Buhari

Partidários de Muhammadu Buhari seguram cartaz.
Partidários de Muhammadu Buhari seguram cartaz. REUTERS

A Nigéria realiza eleições presidenciais neste sábado, depois de terem sido adiadas por seis semanas, sob uma enorme tensão e com o pano de fundo desestabilizador da guerra aberta contra o grupo terrorista Boko Haram no nordeste do país. Com cerca de 175 milhões de habitantes, a Nigéria é o país mais populoso da África e também a primeira potência econômica do continente. Para prevenir possíveis ataques e atentados, o Governo decretou o fechamento das fronteiras desde a última quarta-feira, assim como a proibição de circulação de qualquer veículo durante a jornada eleitoral. Além disso, o Exército zela pela segurança nos colégios eleitorais. Os dois principais candidatos, o atual presidente, Goodluck Jonathan, e seu adversário Muhammadu Buhari, chegam ao pleito praticamente em empate técnico, o que reacendeu o temor de que se repita a violência pós-eleitoral de 2011, quando 800 pessoas morreram depois que Buhari foi derrotado por Jonathan em meio a acusações de irregularidades. Desta vez, todos os candidatos assinaram um acordo pelo qual se comprometem a respeitar os resultados.

Os 70 milhões de nigerianos convocados às urnas deverão escolher entre 14 postulantes, mas apenas dois deles apresentam chances reais de serem eleitos. O primeiro é o atual presidente, Goodluck Jonathan, candidato pelo Partido Democrático Popular (PDP), que vem dominando a cena política nigeriana nos últimos 15 anos. Cristão, vindo do sul da Nigéria, Jonathan sofreu um enorme desgaste em seus quatro anos de governo ao ter-se mostrado incapaz de enfrentar dois dos grandes problemas que arrastam o país: a corrupção e a descontrolada violência jihadista do Boko Haram no nordeste nigeriano, que se acentuou nos últimos meses e que, em um ano, provocou 1.000 mortes e obrigou 3,3 milhões de pessoas a abandonarem suas casas.

O único candidato com possibilidades de derrotar o atual líder é Muhammadu Buhari. Militar de carreira, ele já foi presidente do país em 1983, durante um ano e meio, depois de protagonizar um golpe de Estado. Muçulmano nascido em Katsina, no norte da Nigéria, com sua passagem pela Presidência Buhari ganhou a fama de austero na economia e enérgico em questões de segurança – o homem forte de que seus seguidores acreditam que o país precise agora, em vez do receoso Jonathan. Buhari já foi candidato em três eleições e sempre foi derrotado, a última vez contra o próprio Jonathan, em 2011. Mas agora ele lidera uma coalizão de quatro partidos, o Congresso de Todos os Progressistas (APC), o que o torna mais forte do que nunca. Segundo as últimas pesquisas de opinião, Buhari está em boa posição nos estados do norte e na pujante capital econômica do país, Lagos, enquanto o atual presidente é favorito no sul, mais rico e cristão e de onde vem o petróleo, a principal fonte de renda da Nigéria.

Enquanto isso, o nordeste continua sendo palco de uma guerra implacável contra o Boko Haram, o grupo terrorista mais sanguinário da África e que, em 2009, lançou uma campanha de violência que já deixou mais de 13.000 mortos. Desde fevereiro passado, os Exércitos de Nigéria, Chade, Níger e Camarões uniram suas forças contra os jihadistas e, nas últimas semanas, parecem ter conseguido alguns avanços com a retomada de cerca de 30 localidades, entre elas Gwoza, bastião dos insurgentes, segundo informações das Forças Armadas nigerianas. Pressionados desde o norte, o leste e o sul, os membros do Boko Haram vêm abandonando as cidades que controlaram durante os últimos meses em uma retirada forçada para seus últimos refúgios, entre eles a floresta de Sambisa, onde foram mantidas durante várias semanas as 270 meninas sequestradas em Chibok.

Diante da possibilidade de que o Boko Haram tente impedir que a votação ocorra normalmente no norte do país ou que interrompa as eleições de forma violenta com algum tipo de ataque ou atentado, foram adotadas medidas extremas de segurança. O Exército está presente nos colégios eleitorais, e foi pedido para que os cidadãos voltem para casa assim que tiverem terminado de votar.

Além da segurança e da corrupção, a economia também esteve no centro do debate político durante a campanha. A queda nos preços do petróleo no mercado internacional provocou um declínio notável na renda do país, em que 70% da economia depende dessa matéria-prima. Isso se traduziu em uma piora do nível de vida, com dois em cada três nigerianos vivendo abaixo da linha de pobreza, enquanto um em cada quatro está desempregado.

Se nenhum dos dois candidatos conseguir superar a barreira dos 50% dos votos, será realizado um segundo turno. De acordo com a lei eleitoral nigeriana, essa votação normalmente ocorre uma semana depois da proclamação dos resultados.

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