Considerações nascidas no 15 de março

Difícil exercer a independência de pensamento num país que escolheu o medíocre caminho do sectarismo

Independente da contagem de quantas pessoas foram às ruas no último domingo protestar contra o governo petista, é indiscutível que o número foi grande o suficiente para tornar o dia 15 de março um marco na história recente do Brasil e para nos empurrar a uma crise institucional sem precedentes na crônica da nossa jovem, frágil e rudimentar democracia. Abaixo, algumas reflexões colhidas ao acaso.

AVESTRUZES (1) - Difícil exercer a independência de pensamento num país que escolheu o medíocre caminho do sectarismo. Eu me recuso a compartilhar o ressentimento dos que perderam as últimas eleições e, de forma ilegítima, pressionam por um terceiro turno – assim como rejeito apoiar um governo comprometido até às raízes com um dos maiores escândalos de corrupção da administração pública brasileira. Ainda acredito na via da legalidade: está em curso um inquérito no Supremo Tribunal Federal contra envolvidos na Operação Lava-Jato e temos de aguardar os próximos passos. Enquanto isso, deveríamos sair às ruas para exigir uma reforma política ampla e saneadora, que garantisse não a extirpação da corrupção (pois, infelizmente, é do homem a ganância), mas que os governantes cumpram sua função de cuidar da coisa pública com lisura e competência. Acreditar que a saída de Dilma Rousseff para dar lugar a Michel Temer, no caso de impeachment, ou a Aécio Neves, em futuras eleições, resolverá o problema do Brasil é fazer o que sempre fazemos por aqui: tapar o sol com a peneira...

AVESTRUZES (2) – Pressionada pelas manifestações, a presidente Dilma anunciou que enviará ao Congresso um pacote anticorrupção. Mesmo sem saber a extensão das medidas é desconcertante saber que só agora, após 12 anos de governo, o PT se anima a tomar essa atitude, que, cumprindo promessas de campanha, deveria ter sido adotada logo no primeiro dia de mandato do governo Lula.

MAIS INFORMAÇÕES

MUDANÇA – Outra medida a ser tomada pela presidente Dilma para tentar assegurar a governabilidade será ampliar o espaço do PMDB no Ministério... O PMDB vem extorquindo todos os governos desde o fim da ditadura militar – pelo tamanho de sua bancada, que inclui alguns parlamentares sérios mas composta principalmente por defensores de seus próprios interesses, o partido mantém há décadas o Brasil refém. Na atual crise política, o PMDB já demonstrou de forma clara para que lado pende: os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha, negociam dificuldades para vender facilidades. E o vice-presidente Temer aguarda paciente a subida de tom das vozes das ruas...

OS IMBECIS – O Dicionário Houaiss consigna imbecil como “aquele que denota inteligência curta, pouco juízo, idiota, tolo”. Não há outra palavra possível para descrever o grupo, pequeno é verdade, de pessoas que vão à rua para pedir a volta dos militares ao poder. Ignorantes os seguidores, obscurantistas as lideranças, uns e outros desejam impingir a imagem de que os 21 anos de ditadura foram um período de estabilidade política, econômica e social. Não dizem que a cada sucessão brigavam entre si os vários setores das Forças Armadas para fazer prevalecer seus interesses – golpe de 1969 que guindou o general Garrastazu Médici ao poder; rebelião de militares linha dura contra o general Ernesto Geisel; pacote de Abril de 1977 que sufocou a oposição; rebelião de militares linha dura contra o general João Batista Figueiredo. Não dizem da crise que minou a economia brasileira e iria repercutir até o início do governo Fernando Henrique – a inflação média no período da ditadura era de 20% ao ano (contra 7,5% ao ano no período democrático), e ultrapassava os 200% ao ano quando devolveram o poder aos civis. Não dizem que a dívida externa chegou a 54% do Produto Interno Bruto – hoje não alcança 40%. Não dizem que a corrupção grassava nas mais de 500 empresas estatais existentes, que incluíam siderúrgicas, bancos, rádios, refinarias, etc. Não dizem da censura aos meios de comunicação e nem da repressão generalizada. Não dizem dos mortos e torturados nos porões das prisões. Não dizem da destruição dos sistemas de educação e saúde. Não dizem da ampliação do fosso entre ricos e pobres – o bolo do chamado milagre econômico nunca foi repartido. Por isso, é emblemático um fato ocorrido na avenida Paulista, durante as manifestações do 15 de março: uma jovem, cujo nome a história não registrou, ficou pelada em cima de um carro de som em defesa da volta dos militares... Um acontecimento que dispensa comentários.

CARECAS – Dos raros incidentes ocorridos na gigantesca manifestação de 15 de março na avenida Paulista, um quase passou despercebido. Um grupo, intitulado Carecas do Subúrbio, foi detido porque portava em suas mochilas soco inglês e fogos de artifício. Logo, foram tachados de simpatizantes do PT infiltrados na multidão para causar tumulto, o que é ignorar completamente os objetivos dessa facção, fundada em 1979. Em seu site oficial podemos ler que quem quiser incorporar-se ao movimento deve aderir aos seus princípios de forma incondicional, que são: “nacionalismo, conservadorismo, honra e virtudes dos valores tradicionais brasileiros”. Ou seja, trata-se de uma agremiação fascista, muito mais próxima dos que defendem a volta da ditadura militar do que os que defendem a manutenção de Dilma no poder.

PERGUNTAS (1) – Quando conseguiremos arrastar multidões apaixonadas para as ruas para exigir educação pública de qualidade, um sistema de saúde digno, mais segurança?

PERGUNTAS (2) – Há uma corrente que defende a instalação de uma Assembleia Constituinte já. Eu também. Mas um passarinho me perguntou, como quem nada quer: diante do aumento do espaço das forças reacionárias na política, escudadas numa cada vez maior presença do fundamentalismo religioso, não corremos o risco de acabar acolhendo um conjunto de leis ainda mais retrógrado no país? A se pensar...

Arquivado Em: