Ex-apresentador Jimmy Savile abusou de 63 pessoas em hospital

Relatório revela que houve queixa formal enviada à instituição, que não a encaminhou

Jimmy Savile, em 2002, durante as comemorações do Jubileu de Ouro, em Londres.
Jimmy Savile, em 2002, durante as comemorações do Jubileu de Ouro, em Londres.ADRIAN DENNIS (AFP)

Jimmy Savile, ex-apresentador da BBC falecido há quatro anos e que foi uma autêntica celebridade no Reino Unido durante décadas, abusou de 63 pessoas entre 1968 e 1992 num hospital da Inglaterra, segundo um relatório independente divulgado nesta quinta-feira. O documento revela que nem sequer uma queixa formal de uma de suas vítimas, que tinham entre 8 e 40 anos, e incluíam pacientes, visitantes e equipe de saúde, foi enviada à polícia.

O relatório, realizado pelas médicas Androulla Johnstone e Christine Dent para o NHS (Serviço Nacional de Saúde), depois das denúncias de abusos cometidos pelo famoso apresentador dos anos setenta, afirma que a reputação de Savile era um “segredo conhecido de todos”. Savile, morto em 2011 e que, segundo afirmou a Polícia há dois anos, foi um “depravado sexual” que abusou de mais de 200 crianças e adultos, também foi um ídolo da televisão nas décadas de setenta e de noventa, e era muito querido pelo público, pois fazia trabalhos beneficentes para diversas instituições.

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O relatório, um dos muitos preparados sobre os abusos de Savile, cita o hospital Stoke Mandeville, do condado de Buckinghamshire, ao norte da capital britânica. Detalha que o pai de uma vítima apresentou uma queixa formal no hospital em 1977, mas que não foi entregue à polícia. Embora a equipe do hospital estivesse a par dos abusos de Savile, seu comportamento, provavelmente, nunca foi denunciado à direção do hospital, acrescenta o relatório.

Além dessa queixa formal, houve nove informais, mas “não foram levadas a sério” ou “encaminhadas à direção”, afirma o documento de 348 páginas. Para essa investigação, realizada por especialistas independentes, foram entrevistadas 37 vítimas, entre elas pacientes do hospital, visitantes e equipe de saúde, que admitiram que Savile os estuprou e os acariciou.

Entre as vítimas havia crianças por volta de 8 anos, mas também adultos, inclusive uma mulher de 20 anos grávida, que estava no hospital porque tinha um filho doente, e uma adolescente de 19 anos em cadeira de rodas. Uma das vítimas, que tinha então 18 anos, relatou como Savile entrou em seu quarto através da janela enquanto estava quase adormecida pelos efeitos de sedativos, em 1973.

“Savile foi um predador oportunista que também às vezes mostrava um alto nível de premeditação quando planejava os ataques contra suas vítimas”, destaca o relatório. Apesar de seu comportamento, Savile “era homenageado pela diretoria como uma parte importante da vida do hospital”. Além disso, Savile tinha pleno acesso a muitas áreas da unidade de saúde e à dos pacientes.

Há dois anos, a Polícia Metropolitana de Londres (Met) e a Sociedade para a Proteção das Crianças (NSPCC, na sigla em inglês) divulgaram um documento preparado na época das denúncias recebidas depois da morte de Savile, em 2011, quando ninguém sabia da extensão de seus atos. O caso do apresentador provocou uma grande comoção no país, e as pessoas ainda hoje se perguntam como Savile pôde abusar de tanta gente durante tanto tempo, sem que a polícia nem a BBC percebessem.

Segundo a polícia, os delitos cometidos por Savile, que faleceu aos 84 anos, “não têm precedentes” e mostram que cometeu abusos sexuais entre 1955 e 2009 em hospitais, centros de atendimento a doentes mentais, hospícios e até na BBC, e que 73% de suas vítimas eram menores de 18 anos. Savile, ao qual a rainha Elizabeth II concedeu o título de Sir, chegou a utilizar os escritórios da rede BBC para abusar de menores entre 1966 e 2006, segundo a Polícia.

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