Crise na Venezuela

Policial que atirou em estudante em protesto é detido na Venezuela

Em discurso na TV, Nicolas Maduro lamenta morte de adolescente de 14 anos Morte ocorreu em meio a confrontos com forças de segurança no Estado de Táchira

Jovem se ajoelha diante de policiais após morte de colega.
Jovem se ajoelha diante de policiais após morte de colega.STRINGER/VENEZUELA (REUTERS)

A crescente tensão na Venezuela se intensificou nesta terça-feira com a morte de um adolescente de 14 anos Kluiver Roa durante violentos confrontos entre manifestantes oposicionistas e as forças de segurança em San Cristóbal, no Estado de Táchira. A cidade foi o epicentro dos protestos nos quais morreram 43 pessoas há um ano.

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O jovem, estudante do segundo ano do ensino médio, sofreu um impacto na cabeça, não há confirmação ainda se foi ferida de bala ou munição de caça. O policial que disparou, Javier Mora Ortiz, de 23 anos, se encontra detido e o Ministério Público informou que abrirá uma investigação contra ele.  O incidente ocorre depois de o governo autorizar, em lei, o uso de armas letais para reprimir manifestações e reuniões públicas.

Horas depois do ocorrido, o presidente Nicolas Maduro falou em cadeia obrigatória de TV: "É muito doloroso perder um rapaz em circunstâncias inverossímeis, de confusão", disse antes de acrescentar que a morte do rapaz era fruto da influência dos "grupos de ultradireita envenenando uns rapazes".

Aumentou também a inquietação em relação às medidas que o governo venezuelano poderá adotar contra a oposição, em meio à crise econômica, política e social que o país atravessa, e meses antes das eleições parlamentares. Enquanto os partidos de oposição se encontravam em um ato de apoio ao prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, que está preso, foi dado o alarme de que havia uma invasão a uma das sedes do partido social-cristão COPEI em Caracas. Antonio Ecarri, presidente do partido na capital, lançou o alerta no Twitter. Ele disse que um “grupo armado” havia entrado na sede social em Las Palmas, onde são dadas aulas para crianças e consultas médicas para a comunidade. E denunciou que as pessoas que se encontravam no lugar tinham sido feitas reféns.

Em seguida, o vice-presidente do partido em Caracas, Mario Acosta, especificou que se tratava de um grupo de “invasores” que havia chegado de madrugada, rompido o cadeado e forçado a grade para ocupar a sede. Acosta afirmou se tratar de um grupo de homens e mulheres, alguns armados com revólveres, que exigiam um lugar para moradia digna. Segundo Ecarri, eram de 15 a 20 pessoas, partidárias do Governo, mas que portavam cartazes para reivindicar à Administração de Maduro que lhes desse uma habitação.

Por volta de meio dia a Guarda Nacional Bolivariana e agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin) entraram no lugar, mas não desalojaram os ocupantes nem mostraram um mandado de operação ou buscas. “Não trocaram palavras conosco, com nenhum dos dirigentes do partido que estavam ali. É um evidente atropelo. O que primeiro acabou sendo um sequestro, passou a invasão e logo se tornou uma ocupação ilegal”, disse Ecarri. Os funcionários do Sebin levaram material de propaganda política de outras eleições que se encontrava no local. Nesta terça-feira a sede ainda continuava ocupada. O presidente do COPEI, Roberto Enríquez, disse também que outras sedes do partido em diferentes cidades do país tinham sido ameaçadas, mas não foi informado nenhum incidente.

Enquanto isso, um grupo de deputados governistas foi ao Ministério Público pedir a abertura de uma investigação formal de um deputado da oposição, Julio Borges, que Maduro acusou de estar envolvido em um suposto plano golpista contra ele. Algumas horas depois, foi convocada para esta terça-feira uma sessão da Assembleia na qual se irá debater a suposta participação de Borges nesses planos. “Temos de dar as caras e resistir”, disse Borges em uma rádio, antes do início da sessão parlamentar.

Segundo um artigo de Luis Vicente León, presidente do instituto de pesquisas Datanálisis, a repressão e a intimidação procuram provocar maior abstenção entre a população nas próximas eleições, fator que sempre favoreceu o Governo, que conta com uma máquina eficaz, mas também poderia se tornar contraproducente. “Levar à Justiça líderes oposicionistas-chave poderia gerar uma dinâmica contrária à que o Governo busca”, afirma. “Unificaria a oposição ao redor de uma estratégia eleitoral para encaminhar-se às eleições legislativas que estão por vir.”

Um dos líderes oposicionistas, Henrique Capriles, se referiu nesta terça-feira aos dados do principal instituto de pesquisas do país para voltar à carga, pelo Twitter, contra o presidente Maduro. Segundo o Datanálisis, 85,6% dos venezuelanos considera a situação do país negativa; 79% acreditam que Maduro não está preparado para enfrentar a crise econômica e 52,5% avaliam que o principal responsável pelo desabastecimento é o presidente.