Esposa de ex-prefeito de Iguala é acusada por envolvimento com tráfico

Pineda é considerada autora junto com o marido do desaparecimento de 43 normalistas

José Luis Abarca e sua esposa, María de los Ángeles Pineda.
José Luis Abarca e sua esposa, María de los Ángeles Pineda.ALEJANDRINO GONZALEZ (AP)

O caminho judicial para esclarecer o sequestro e desaparecimento há mais de três meses dos estudantes de magistério em Guerrero, estado do sul do México, segue seu curso. María de lós Ángeles Pineda, considerada junto com seu marido, o ex-prefeito de Iguala, autora intelectual do crime, foi acusada nesta segunda-feira dos delitos de crime organizado e operações com recursos de procedência ilícita, e enviada ao presídio federal de Nayarit, estado do oeste do México.

Depois de fugir de Iguala, a cidade onde foram sequestrados os estudantes, o casal foi capturado pela polícia no início de novembro em uma casa em ruínas do popular distrito de Iztapalapa, na capital do país. A versão oficial da Promotoria é que os estudantes foram vítimas da ação conjunta do tráfico e da polícia municipal, que, seguindo as ordens do ex-governante e de sua esposa, atacaram a balas os estudantes, os sequestraram e os entregaram ao cartel local, Guerreros Unidos.

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A vinculação de Pineda com esse grupo criminoso foi uma das hipóteses que ressoou com mais força durante a investigação, que até agora resultou em mais de 70 prisões e que finalmente foi confirmada por um juiz. A acusação formal contra o ex-prefeito de Iguala chegou antes. José Luis Abarca está na prisão desde meados de novembro e enfrenta as acusações de sequestro, crime organizado e homicídio.

A justiça confirma a vinculação de Pineda com o cartel local,  Guerreros Unidos

Depois da detenção do casal, a Promotoria solicitou a prisão preventiva de Pineda enquanto avançava na investigação dos fatos e procurava provas sólidas nas quais basear a acusação contra ela. Passados 40 dias da medida cautelar, conhecida no México como arraigo, a Promotoria não tinha ainda construído base legal suficiente para levar Pineda a julgamento, o que levantou uma nuvem de suspeitas no país. Um dos efeitos do crime sobre a sociedade mexicana foi uma considerável redução da tolerância diante da impunidade.

O Promotor Geral, Jesús Murillo Karam, garantiu na época que não havia possibilidade de que Pineda Villa fosse colocado em liberdade, porque havia elementos contra ele. A investigação precisou em todo o caso de um segundo período de carência, que venceu no domingo passado.

As declarações do líder do cartel dos Guerreros Unidos, Sidronio Casarrubias Salgado, um dos presos, foram chave no avanço da investigação. Ele revelou às autoridades que o casal fazia parte da cúpula local da organização e que a esposa ocupava papel central nessa trama. Filha de uma operária do capo Arturo Beltrán Levya e irmã dos dois traficantes que criaram o embrião dos Guerreiros Unidos, Pineda Villa dava as cartas do cartel em Iguala.

Entre seus planos inclusive estava candidatar-se à prefeitura nas eleições de 2015. Realmente, na noite do desaparecimento dos normalistas, o casal tinha organizado o ato que deveria servir de tiro de largada para sua corrida eleitoral. Foi então que os estudantes, percebidos pelo poder municipal como ameaça, chegaram à cidade. A ordem para a polícia municipal e os assassinos do cartel local foi de tirá-los da frente.

Até agora, os peritos identificaram apenas os restos encontrados de um dos 43 estudantes, Alexander Mora Venancio, de 19 anos. O trabalho de identificação dos corpos pode se prolongar ainda por vários meses. Devido ao grau de decomposição das provas encontradas, as autoridades mexicanas remeteram os restos a um laboratório de Innsbruck, na Áusria, especializado em exames forenses de DNA.