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MERCADO DE TRABALHO

Indústria traz de volta o temor da temporada de demissões no Brasil

Três dos cinco setores da economia devem fechar o ano com mais dispensas que contratações

Pátio da montadora Mercedes Benz, em São Bernardo do Campo. Ampliar foto
Pátio da montadora Mercedes Benz, em São Bernardo do Campo.

Em 2009, como um reflexo da crise econômica do ano anterior, Marcos Carvalho da Silva foi demitido da empreiteira em que trabalhava. Demorou quase um ano para conseguir um novo emprego, em uma metalúrgica. No início de 2014, foi dispensado desta empresa em razão do corte de gastos devido a outra crise que começa a dar o mais temido dos sinais, um possível aumento do desemprego. Agora, aos 43 anos ele busca um trabalho em “qualquer área” que lhe dê o mínimo de estabilidade. “De ajudante de carga a servente de pedreiro, de vigilante a entregador ou ajudante de cozinha. O que vier estou encarando. Cansei de fazer ‘bicos’ e não ter garantia de nada”, disse Silva, logo após ser escolhido para participar de uma seleção em um agência pública de empregos em São Bernardo do Campo, onde está boa parte do complexo fabril da região metropolitana de São Paulo.

Uma análise do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas estima que a ociosidade na indústria do país atingiu os 18%, é o pior número dos últimos cinco anos. Além disso, diversas montadoras já começaram com os programas de demissão voluntária (como a Mercedes Benz, a Ford, a Peugeot e a GM) e com os lay off, que são as reduções temporária de horários.

A estimativa é que em São Paulo, Estado que concentra a maior parte do setor industrial brasileiro, 100.000 pessoas sejam dispensadas até o fim do ano. “A crise atual é parecida com a de 2009, quando foram demitidos 100.000 nas indústrias do Estado. A diferença é que enquanto se aproximava o fim do ano, a indústria estava reagindo, contratando. Esses empregos foram recuperados em 2010. Agora, não. Em 2015, não haverá essa recuperação”, afirmou o diretor de economia da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Francini.

O desempregado Marcos Carvalho da Silva, que está há quase um ano em busca de trabalho. ampliar foto
O desempregado Marcos Carvalho da Silva, que está há quase um ano em busca de trabalho.

Os maus resultados da indústria são sentidos desde o início do ano e eles costumam puxar para baixo os números dos demais setores. “Perdi meu emprego de auxiliar de produção quando a empresa decidiu cortar o terceiro turno. Agora, minha rotina semanal é ir até a agência de empregos e distribuir ao menos 20 currículos por semana”, disse o desempregado Franklin Jales, de 36 anos. Ao lado dele, em uma agência de empregos de São Bernardo do Campo estava sua mulher, de 31 anos, uma metalúrgica desempregada, e o filho pequeno do casal, de 2 anos. Por enquanto, a família depende do seguro desemprego do casal, que deve acabar no mês que vem.

Panorama geral

Os últimos dados do Ministério do Trabalho, referentes ao mês passado, mostram um cenário nada animador para a maioria das áreas. Com o fechamento de 30.300 postos de trabalho, outubro de 2014 registrou o pior resultado para o mês desde 1998, quando houve 64.100 demissões. A estimativa para o ano inteiro é de que sejam criados 400 mil novos postos, número inferior ao 1,138 milhão criados no ano passado, e que representa menos da metade da meta do Governo Dilma Rousseff, de 1 milhão.

Vários fatores explicam essa crise, segundo especialistas, alguns deles são: o esgotamento do modelo econômico brasileiro, uma valorização cambial que dificulta a competitividade da indústria e reflexos das dificuldades financeiras dos países desenvolvidos.

Uma análise elaborada pela consultoria econômica LCA sobre os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) concluiu que três das cinco áreas pilares da economia devem ter perdas de vagas neste ano: indústria (146.000 vagas a menos), construção civil (68.450) e agropecuária (27.300). O saldo só não será negativo de uma forma geral porque serviços e comércio abriram novas vagas, 90.000 e 401.000, respectivamente. Ainda assim serão piores do que os últimos dez anos.

A resposta do diretor da Fiesp para a seguinte pergunta mostra um pouco do que pode se esperar para os próximos meses:

- O que o senhor faria se tivesse o poder de decidir os rumos econômicos do país? Se tivesse a caneta na mão?

- Largaria a caneta e pegaria um terço -, brincou Paulo Francini.

Falando em tom sério, o diretor da entidade paulista usa a fórmula quase consensual entre os especialistas. Para ele, a recuperação dos empregos passa por uma intervenção na área fiscal que recupere a confiança dos agentes econômicos, por meio de um programa econômico claro e transparente. “Não há saída milagrosa, não há bala de prata, não há uma fórmula para resolver o problema em 30 dias, de uma hora para outra.”

Governo culpa eleições pelo mau resultado de outubro

O ministro Manoel Dias, em janeiro.
O ministro Manoel Dias, em janeiro. MTE

O Governo Dilma Rousseff não esperava que o mês de outubro tivesse um cenário tão negativo, com a redução de 30 mil postos de trabalho, já que a forte queda nos empregos costuma ser verificada apenas em dezembro.

Em um comunicado enviado nesta semana, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, disse que as demissões foram feitas, mas as contratações esperaram a definição da disputa eleitoral para ocorrer. Até por isso, a expectativa da gestão petista é que haja mais contratações em novembro.

O ministro afirmou também que os fatores climáticos também influenciaram nas demissões, principalmente na região Sudeste, que enfrenta uma grave seca.

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