_
_
_
_

Bonde de Jerusalém se torna novo epicentro do conflito

Veículo foi projetado para transporte de israelenses e palestinos

Pessoas esperam o bonde em Jerusalém.
Pessoas esperam o bonde em Jerusalém.RONEN ZVULUN (REUTERS)

Foi idealizado como o primeiro meio de transporte comum para os habitantes do oeste e do leste, israelenses e palestinos, mas três anos depois de entrar em operação o bonde de Jerusalém é um dos epicentros da violência na cidade, paradigma de uma convivência desgastada que transformou a capital triplamente santa em um barril de pólvora. Na quarta-feira, a estação Colina das Munições — uma das 23 abertas em um percurso de 14 quilômetros — sofreu o primeiro ataque fatal da história da linha, quando um motorista palestino lançou seu carro contra a plataforma, matando um bebê de três meses e uma jovem de 22 anos.

Esses vagões, que em um mundo ideal deveriam unir árabes e judeus que apenas se cruzam em um hospital ou em um shopping, não são mais que aço e vidro de máxima segurança levando pessoas que não se olham, não se tocam. A única proximidade é a física, forçada na hora do rush.

Mais informações
Carro atropela oito pedestres e mata um bebê em Jerusalém
Israel planeja ampliar com mais mil casas as colônias de Jerusalém
Parlamento britânico dá sinal verde para que Governo reconheça Palestina

Um judeu de quipá com uma maleta se estica como chiclete na barra para não encostar em uma mãe palestina com seu bebê e cobertor nas costas. Os jovens do serviço militar — com seus uniformes, com seu rifles — se sentam junto a adolescentes dos campos de refugiados. Garotas haredi (ultraortodoxas), recatadas e tímidas, olham as muçulmanas com véus coloridos, que por sua vez olham os turistas de shorts. Todos os tipos são possíveis em uma linha que vai de norte a sul, usando inclusive a Linha Verde dos mapas como traçado de sua via, enlaçando assentamentos, zonas residenciais árabes, a Cidade Velha, a prefeitura, o mercado ou um cemitério militar.

Quando foi liberada em agosto de 2011, o lado israelense criticava a linha dizendo que poderia ser alvo de atentados. O lado palestino a rejeitava por considerá-la uma tentativa de normalização forçada, de unificar uma cidade ocupada desde 1967. A comodidade do serviço foi se impondo, permitindo ver cada vez mais palestinos no coração judeu, ou judeus que no shabat, com o oeste fechado, pegavam o bonde em direção ao leste. Mas a deterioração do dia a dia na cidade ameaça por fim ao sonho.

O fluxo de 14.000 passageiros que usam o bonde diariamente caiu 20% em meados do ano, quando as ruas ardiam depois do assassinato de três estudantes judeus na Cisjordânia e de um menor palestino em Shuafat, onde as barricadas se instalaram justamente em cima das vias. Segundo a empresa concessionária CityPass, desde meados de julho foram consertados 150 vagões, danificados por pedras e coquetéis molotov. A Polícia de Jerusalém prendeu 54 pessoas acusadas de vandalismo. Todas árabes.

A ofensiva de Gaza aumentou as manifestações e os ataques ao bonde, que não pararam agora que Jerusalém parece estar sofrendo de febre constante: novas colônias, visitas de extremistas judeus à Esplanada das Mesquitas, tentativas de linchamento entre judeus e palestinos... “Eu não uso. É uma imposição de Israel. Como vou aceitar que os colonos ao lado entrem ainda mais em minha região, sentados e com ar condicionado?”, comenta indignada a palestina Shereen Barakat, de 22 anos, estudante de administração.

O prefeito Nir Barkat, que não é filiado a nenhum partido, nega que seja “um símbolo de dominação”, mas “uma aposta pela convivência”, e por isso convoca os moradores de Jerusalém a respeitar o meio de transporte. Palavras que são acompanhadas de mais vigilância, com a criação de uma unidade policial especial para enfrentar possíveis ataques. Já existem três vigias armados em cada estação. Mas em uma terra que cura suas feridas em questão de horas, o impacto do atropelamento não durou. O silêncio e a distância já são padrão.

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_