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Condenados os repressores da filha da líder das Avós da Praça de Maio

19 foram sentenciados pelos crimes do centro de detenção onde ficou Laura Carlotto

Alejandro Rebossio
Etchecolatz, ex-chefe da inteligência da Polícia de Buenos Aires, depois de escutar a sentença em Buenos Aires.
Etchecolatz, ex-chefe da inteligência da Polícia de Buenos Aires, depois de escutar a sentença em Buenos Aires.REUTERS

Dois meses depois de a líder das Avós da Praça de Maio, Estela Barnes de Carlotto, encontrar seu neto Ignacio Guido após 36 anos de busca, a Justiça argentina condenou na sexta-feira os responsáveis pelo desaparecimento de sua filha Laura, mãe daquele menino e agora jovem que recuperou sua identidade. Um tribunal de La Plata julgou esse e outros 134 casos de vítimas de detenção ilegal, tortura e genocídio ocorridos no centro clandestino de detenção La Cacha durante a última ditadura militar na Argentina (1976-1983). Os magistrados condenaram 19 dos 20 acusados: 15 deles deverão cumprir prisão perpétua, três cumprirão pena de 13 anos e o restante, de 12 anos.

"Não é uma alegria, mas é um grande passo para a Justiça. Finalmente essa gente estará onde sempre teve de estar: na prisão", disse Estela de Carlotto, cuja filha estudava História na Universidade de La Plata e militava com seu companheiro, Walmir Montoya, na guerrilha peronista Montoneros, quando desapareceu em 1977. Laura Carlotto estava grávida e seu filho, Guido, foi levado pelos militares a uma cidade a mais de 300 quilômetros dali, Olavarría, onde um latifundiário entregou o bebê aos peões, que o batizaram de Ignacio. O sequestro daquele bebê e o assassinato da jovem de 23 anos não foram objeto do julgamento sobre La Cacha, mas serão abordados em outros processos. A juíza María Servini de Cubría, que analisa o roubo de Ignacio Guido Montoya Carlotto, quer intimar para depor o peão rural Clemente Hurban, que teria registrado o menino como seu, e o médico policial Julio Sacher, que teria atestado o falso parto em Olavarría. O neto de Carlotto defende Hurban e afirma que sua assinatura no registro de nascimento foi falsificada, enquanto Sacher alega que sua rubrica não aparece no documento.

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"Estão falando com uma avó feliz por recuperar seu neto, que está se tornando ciente desse acontecimento no qual se menciona a sua mãe; com estas condenações a quem não tem nenhum pingo de humanidade, porque ainda se revoltam, insultam e se veem como vítimas", disse Estela de Carlotto, que assistiu à leitura da sentença acompanhada de dois de seus quatro filhos, Claudia e Guido, e sem seu neto. Juntos ouviram um dos condenados dizer a eles e a outros familiares de vítimas que estavam ali: "Vão para a puta que os pariu". Outros condenados olhavam para eles altivos.

Entre os 15 que passarão o resto da vida na prisão está um civil que foi ministro do Governo da província de Buenos Aires, Jaime Smart, responsável pelo sequestro de Carlotto, segundo o tribunal. Também figura o ex-chefe da inteligência da Polícia de Buenos Aires, Miguel Etchecolatz. Ambos já tinham sido condenados à prisão perpétua em outros julgamentos por crimes da ditadura. Os outros 13 sentenciados a prisão perpétua são ex-militares da área de inteligência do Exército. Três civis foram condenados a 13 anos de prisão e um ex-militar da Marinha a 12 anos. Só um ex-militar foi absolvido.

Laura Carlotto era a mãe do jovem recuperado em agosto passado

No julgamento sobre La Cacha também foram condenados os sequestros da avó e do pai do embaixador argentino em Madri, Carlos Bettini, e o homicídio de seu irmão. "Foram mais de 30 anos de espera por este momento de justiça. Não repara totalmente, mas é um bom desfecho para contar para a minha mamãe, que sempre esperou por isso", reagiu o embaixador após ouvir a decisão na sala de julgamento em La Plata. Bettini disse estar feliz, mas admitiu que o processo judicial é "a volta para recuperar toda a história vivida, todos os sacrifícios e as torturas que padeceram os meus e todos outros".

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