Argentina encontra corpo de vítima da violência policial

Caso de adolescente desaparecido desde 2009 revela maus tratos das forças de segurança

Policiais federais nas ruas de Buenos Aires.
Policiais federais nas ruas de Buenos Aires.DAMIAN DOPACIO / EFE

Luciano Arruga, um jovem pobre da Grande Buenos Aires (periferia da capital argentina) foi encontrado na sexta-feira, cinco anos depois de seu desaparecimento. Já não sorri como nas fotos em que era recordado desde 2009, quando estava prestes a completar 17 anos. Seu corpo foi enterrado sem identificação no principal cemitério de Buenos Aires, o La Chacarita. A autopsia indica que morreu atropelado no limite da capital com a Grande Buenos Aires, mas a família do adolescente e uma das mais reconhecidas organizações de defesa dos direitos humanos, o Centro de Estudos Legais e Sociais, apontam para a responsabilidade de policiais.

O caso de Arruga revelou à sociedade argentina os maus tratos sofridos pelos jovens pobres da Argentina por parte das forças de segurança. Vanesa Orieta, irmã da vítima, contou a história de Luciano ao EL PAÍS devido às rebeliões policiais de dezembro do ano passado: “Primeiro os policiais ofereceram a meu irmão roubar para eles. A polícia tentava seduzi-lo. Diziam para ele: ´Se roubar para a gente vamos dar tênis para você e para sua família´”. O calçado é um dos objetos mais desejados pelos adolescentes das periferias populares de Grande Buenos Aires. “Depois começaram a oferecer armas e carro, mas ele se negava. Então começou a ser detido sistematicamente. É muito comum que isso aconteça com jovens de bairros humildes. Te colocam contra a parede na rua, te ameaçam e te batem forte, na frente dos vizinhos, para que sinta vergonha. Há violência física e verbal”. No fim, o jovem desapareceu e só foi encontrado morto cinco anos depois.

A família Arruga jamais denunciou o assédio sofrido pelo adolescente. “Nós pobres não somos idiotas, não vamos denunciar sem garantias uma máfia como é a polícia. Em um momento, tratamos de resguardá-lo. Mas eles armam processos. E nós pobres não temos dinheiro para advogados. Agora não temos mais medo”, disse a irmã da vítima.

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Orieta afirma que os oito policiais considerados suspeitos por ela pela suposta tortura e o desaparecimento de seu irmão foram chamados pela Justiça para depor somente na condição de testemunhas, nunca foram acusados, e o Governo da província de Buenos Aires, a cargo do kirchnerista Daniel Scioli, demorou até 2013 para afastá-los da força. Scioli é um peronista moderado, mas encabeça atualmente as pesquisas para vencer as primárias presidenciais kirchneristas de 2015. “Com o silêncio do poder político e judicial, o desaparecimento se confirmou. Há mais de 3.000 jovens mortos por ´gatilho fácil´ (fuzilamentos ilegais executados por policiais) e mais de 200 desaparecidos em 31 anos de democracia”, afirmou a irmã da vítima. Orieta disparou contra o kirchnerismo, que tem se destacado por retomar os julgamentos contra os crimes da última ditadura militar (1976-1983): “Se fala do Governo dos direitos humanos, mas a violência institucional não se resolve”.

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