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Sabesp, Governos federal e estadual batem cabeça sobre crise hídrica

Agência Nacional de Água diz que Sabesp já usa o segundo volume morto de represa

Mulher recolhe água com um balde, em Itu.
Mulher recolhe água com um balde, em Itu.

O cabo de guerra da crise hídrica no Estado de São Paulo tem três forças opostas. E todas dizem ter razão – cada uma à sua maneira. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) atribui a falta de água ao cenário climático atual: altas temperaturas, baixa umidade, nada de chuva. Administradora de seis represas que abastecem São Paulo e mais 365 municípios, a concessionária assumiu nesta quarta-feira que garante o fornecimento até novembro.

Em depoimento nesta quarta-feira à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Sabesp na Câmara Municipal, a presidente da concessionária, Dilma Pena, afirmou que a água vai acabar "em meados de novembro" caso a estiagem se prolongue. Durante a audiência, Pena não admitiu que esteja havendo racionamento de água no Estado, mesmo com o relato diário de vários pontos da cidade e municípios paulistas com restrições para consumo. Ainda assim, afirmou que nenhum bairro da capital fica sem água "por mais de 12 horas".

O governador Geraldo Alckmin, por outro lado, afirmou nesta quinta-feira em coletiva de imprensa que não faltará água em novembro e negou que o sistema Cantareira, que abastece 8,1 milhões de habitantes na região metropolitana de São Paulo, estivesse comprometido – nesta quinta-feira, chegou a um novo recorde: tem apenas 4,1% de sua capacidade total. Enquanto isso, a Agência Nacional de Águas (ANA) aponta em relatório que a Sabesp já está utilizando uma segunda reserva do volume morto – que está abaixo das comportas da represa –, o que somente poderia ser feito com sua autorização e um prévio reconhecimento de que não tem condições de garantir o abastecimento das dez cidades que atende com o volume do sistema, originalmente de 182,5 bilhões de litros.

A concessionária alega que ainda tem 23% do primeiro volume morto (40 bilhões de litros), mais 105 bilhões de litros da segunda cota. Sem consenso entre Sabesp, ANA e governo estadual, a crise hídrica segue sem solução. Ao mesmo tempo, as previsões meteorológicas não dão esperança de que os reservatórios serão preenchidos rapidamente.

Por ora, a Sabesp está remanejando a água das represas e mudando a direção do bombeamento para não sobrecarregar o sistema Cantareira. Assim, usa água de outros reservatórios para atender à demanda que antes era suprida por apenas uma reserva.

Segundo Alckmin, as principais fontes usadas para aliviar o sistema são o Rio Grande, que estava nesta quinta-feira com 73,1% de capacidade, e a represa Guarapiranga, com 44,8%. Hoje, há registros de falta de água nas zonas leste, oeste e sul da cidade. A empresa, porém, justifica que se trata de "restrições operacionais" e "limitação de retirada de água imposta pela ANA". Em nota, a Sabesp alegou que o bombeamento de água, com o volume reduzido pela estiagem, demora mais tempo para chegar até os bairros mais altos e distantes dos centros de abastecimento, o que explica, por exemplo, a falta de água na periferia de São Paulo. Mas, bairros nobres da capital já sentem as restrições há semanas.

Interior

O quadro da falta de água se estende para dezenas de municípios paulistas. A 104 quilômetros da capital, os mais de 165.000 moradores de Itu, por exemplo, vivem uma rotina da escassez hídrica, e de barricadas e protestos nas ruas pelo descaso com a situação. A cidade não é abastecida pela Sabesp, mas por outra concessionária, a Águas de Itu, que também padece com a seca que enxuga as reservas hídricas da região desde o começo do ano. Para minorar o drama, um rodízio foi estabelecido, oficialmente, em dias alternados desde fevereiro. Mas fora do papel, a falta de água é bem mais cruel.

Na parte alta do município, no bairro de Cidade Nova, não cai uma gota das torneiras desde o dia da eleição, 5 de outubro, embora outros vizinhos relatem desabastecimento há mais de 20 dias. "Passamos noites inteiras esperando o caminhão pipa [da concessionária], mas ele nunca vem. Já corri atrás de um, enquanto o motorista me dizia que 'não' com o dedo. Está muito difícil aqui", conta Danielle Bellon, de 28 anos. Há 21 dias a sua família toma banho de caneca.

Durante o dia há uma peregrinação dos moradores em busca de água. Há quem vá à chácara de algum parente que tenha um poço artesiano, outros chegam carregados de baldes ao estacionamento da subprefeitura, onde as torneiras ainda funcionam. Outros escolheram uma bica nos fundos do bairro, circundada de esgoto, onde as filas se estendem noite adentro.

É quando as rádios das viaturas policiais começam sua maior atividade. Há dias em que se vive uma espécie de perseguição de gato e rato, quando alguns vizinhos desafiam as autoridades cortando o trânsito com barricadas na frente do terminal de ônibus do município. Um coletivo já foi queimado. "Queremos água! Ninguém faz nada!", gritam os moradores ao ar, enquanto os policiais tentam apagar o fogo e não há sinal dos bombeiros.

A 400 quilômetros da capital, o município paulista de Franca, polo da produção de calçados, vive uma situação similar. Um terço das casas amanheceram sem água nesta quarta-feira. Neste caso, a água da cidade de mais de 300.000 habitantes é distribuída pela Sabesp que, como em São Paulo, nega o racionamento, apesar de ter divulgado um mapa com os bairros atingidos (71, na quarta-feira, e 64 na quinta, segundo o diário local Comércio).

À falta de chuvas se somaram as temperaturas recorde destes dias no interior do Estado, acelerando ainda mais a perda de água nos reservatórios e mananciais da região.