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Freio na economia do Brasil impulsiona a candidatura de Aécio

Recessão e fantasma da inflação fortalecem o tucano como alternativa econômica

Mercados comemoram o resultado eleitoral

Neves conseguiu um 33,5% dos votos.
Neves conseguiu um 33,5% dos votos. Bloomberg

Em 1º. de setembro, em baixa nas pesquisas, o candidato à presidência Aécio Neves leu os jornais e ficou sabendo que a maior parte da imprensa já o dava como politicamente morto e especulava abertamente sobre o destino do seu partido sem ele, sem faltar inclusive de quem garantisse que o tucano estava prestes a desistir. No dia seguinte, Aécio reuniu o seu grupo de colaboradores e declarou que não só não pensava em abandonar a disputa como iria anunciar publicamente sua intenção de prosseguir. Teimoso, tranquilo e com muito sangue frio, suportou a crise, alterou a estratégia eleitoral e começou a ganhar apoios e a subir nas pesquisas. No domingo, conseguiu passar ao segundo turno da eleição, com 33,5% dos votos válidos, atrás dos 41,5% da presidenta Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), mas à frente de Marina Silva, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), com 21,3%. A seu favor, contou com uma cega confiança em si mesmo, com um projeto político e, sobretudo, com o desmoronamento esmagador da candidatura da sua adversária Silva, vitimada por suas próprias contradições. Agora, nas três semanas que restam para o round definitivo, Aécio se apoia em outro aliado além de sua perseverança: o ritmo anêmico da economia brasileira, estancada, quase em retrocesso – no segundo trimestre, entrou no que os especialistas chamam de recessão técnica. O desemprego se mantém em 5%, mas há cada vez mais demissões, sobretudo no setor industrial. Além disso, a inflação, verdadeiro fantasma da economia brasileira, ronda atualmente os 6,5%, a um passo do considerado intolerável. Não houve debate, comício ou entrevista em que Aécio, de uma ideologia que na Europa seria qualificada como liberal, não mencionasse esses fatos, para em seguida se apresentar como alternativa.

E, se a economia impulsiona sua candidatura e é uma das cartadas que Aécio irá empregar em sua decisiva batalha contra Dilma Rousseff, a economia acredita nele. A Bolsa brasileira subiu oito pontos na manhã desta segunda-feira, assim que os mercados acordaram com a notícia de que o candidato do PSDB disputará a presidência no próximo dia 26.

O próprio Aécio, de 54 anos, economista de formação, embora seja político desde os 21 anos, já lançou acenos que os mercados agradecem. Como, por exemplo, ao antecipar quem será o seu ministro da Fazenda – Armínio Fraga, que presidiu o Banco Central sob o presidente Fernando Henrique Cardoso. Este, que governou o Brasil de 1995 a 2002, é considerado por seus defensores como o mandatário que conseguiu estabilizar a moeda brasileira e lançou as bases econômicas que posteriormente, com instinto e sabedoria, o petista Lula soube aproveitar nos oito anos posteriores. Aécio sempre se apresentou como seguidor das medidas de Fernando Henrique, e o próprio ex-presidente figurou entre os principais aliados do candidato durante a campanha.

Nesta segunda-feira, o senador iniciou sua caminhada no segundo turno por São Paulo, onde os tucanos obtiveram as vitórias mais expressivas das eleições deste ano. Ao lado do governador Geraldo Alckmin, reeleito neste domingo com 57% dos votos, e do ex-governador José Serra, eleito senador com 58%, Aécio rebateu discurso feito na noite deste domingo pela presidenta Dilma, em que a candidata à reeleição mencionou "fantasmas do passado" para criticar os tucanos.

“Me surpreende abrir os jornais e ouvir a candidata oficial falar de fantasmas do passado. Na verdade os brasileiros estão muito preocupados com os monstros do presente: inflação alta, recessão e corrupção”, disse o tucano, que ficou na frente de Dilma na disputa presidencial em São Paulo, com 44% dos votos. Durante entrevista coletiva concedida na tarde desta segunda-feira, o senador convidou “a candidata Dilma para fazer uma campanha de alto nível, propositiva, à altura do que espera de nós, os brasileiros". Sobre o possível apoio de Marina Silva, terceira colocada na corrida presidencial, no segundo turno, o senador mineiro disse que "temos de dar tempo ao tempo".

Aécio procede de uma estirpe de políticos famosa no Brasil (seu avô foi Tancredo Neves, que foi eleito presidente em 1985, mas morreu antes de tomar posse). Ele mesmo participou de várias campanhas junto com seu avô e foi deputado federal por Minais Gerais, Estado onde nasceu e onde, em 2003, foi eleito Governador, cargo que ocupou até 2010. Chegou prometendo austeridade e contenção fiscal. Segundo alguns, cumpriu. Outros dizem que não. Mas o fato é que, quando deixou o cargo, tinha 80% de aprovação popular.

Para tentar arrebanhar os votos dos seguidores de Marina Silva, decisivos a partir de agora, Aécio fustigará Dilma e o PT não só com a economia, mas também com constantes menções aos casos de corrupção que cercam o partido do poder. Em especial as que minam a maior empresa do país, a Petrobras, sobre a qual pendem acusações de subornos políticos e enriquecimentos ilegais e astronômicos de alguns de seus dirigentes. Contudo, o próprio Aécio não está isento de acusações deste tipo: em meio à campanha eleitoral, a imprensa brasileira publicou que durante sua gestão em Minas Gerais ele havia promovido a construção de um aeroporto na fazenda de um parente.

Para se precaver, ele prometeu manter os principais programas sociais realizados por Dilma, relativos à ajuda a famílias pobres e à subvenção para a compra de moradias para pessoas com poucos recursos. Contudo, ainda não apresentou em detalhe o seu programa eleitoral. Quando fizer isso, se verá como e com que recursos ele pensa em fazer tudo.

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