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O vento que verga Marina Silva

A vida e as contradições da candidata socialista foram exploradas a fundo nessas eleições

Marina Silva, na sexta no Rio de Janeiro.
Marina Silva, na sexta no Rio de Janeiro. reuters

“Uma providência divina”. Foi assim que Marina Silva encontrou explicação para dizer por quê não estava no mesmo avião que Eduardo Campos (PSB) no dia 13 de agosto, quando a aeronave caiu, matando o político pernambucano e outras seis pessoas em Santos (SP). A tragédia provocou uma comoção nacional e uma reviravolta nas eleições brasileiras.

Logo após essa declaração, descobriu-se que, na verdade, a razão de Marina Silva não estar com seu líder de chapa naquele avião foi uma providência política: A ambientalista não queria participar de um evento porque o candidato à reeleição do Governo de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), também estaria presente.

Marina sobreviveu. Sua convicção em não se aliar ao tucano, não. Ao longo da campanha, ela percebeu que o apoio do PSDB em São Paulo poderia ser fundamental dependendo de como as peças do tabuleiro eleitoral se movessem. Por isso, voltando atrás em uma decisão, acabou autorizando que o nome de Alckmin fosse impresso em seus santinhos.

Marina Silva (a segunda, da direita para a esquerda) em 1975. ampliar foto
Marina Silva (a segunda, da direita para a esquerda) em 1975. AP

Essa não foi a única vez que a acreana Maria Osmarina Silva Souza, de 56 anos, viu suas convicções mudarem de rumo. No ano passado, ela lutava para criar seu próprio partido, a Rede, mas não conseguiu a quantidade de assinaturas exigidas pelo Tribunal Superior Eleitoral – 492.000, ou 0,5% do total de votos válidos nas eleições anteriores.

Teve então que se aliar a alguma sigla para poder participar como protagonista das eleições deste ano. Acabou se aproximando do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e, em outubro do ano passado, se filiou, já negociando o apoio a Eduardo Campos para candidato à presidência. Em abril deste ano, o partido anunciou Marina como vice na chapa de Campos.

Após a morte trágica do líder pernambucano, que figurava nas pesquisas em terceiro lugar, com 9% das intenções de voto, Marina virou um fenômeno eleitoral. Na primeira pesquisa após a morte do socialista, ela já surgia em segundo lugar, atrás de Dilma Rousseff, com 21% dos votos.

“Vou votar na Marina Silva. Imagina uma acreana presidente?”, disse um prestador de serviços em Rio Branco, capital do Acre, onde o Governo é do PT há 15 anos. O pensamento orgulhoso desse eleitor conterrâneo ultrapassou as fronteiras e o país foi tomado por uma onda. Nas pesquisas, Marina só crescia, chegando a ultrapassar Dilma Rousseff em uma simulação do segundo turno. Seu tradicional coque, que ela usa religiosamente todos os dias no cabelo, virou símbolo de apoio à sua candidatura pela internet.

Marina, em 1995. ampliar foto
Marina, em 1995. AP

Mas o fator emocional passou, e a mistura dos ataques de seus adversários – que passaram a ser cada vez mais constantes e pesados – e de uma sucessão de erros, fez o cometa Marina se parecer mais com uma estrela cadente.

Marina foi traída por seu programa de governo. Com idas e vindas, ela mudou de ideia sobre temas sensíveis como os direitos dos homossexuais. Se calou em relação a questões importantes e polêmicas como o aborto e a descriminalização das drogas. Deixou de lado temas fundamentais para a ascensão das mulheres na sociedade. Se esqueceu de um detalhe fundamental: seu próprio número. Às vésperas das eleições, quase metade (45%) de seus eleitores não sabiam seu número, segundo o Datafolha. Sua rejeição começou a subir.

Em um debate na televisão, afirmou que havia votado a favor da CPMF, um imposto criado em 1997 e que vigorou até 2007. “Me estarrece que a senhora não se lembre como votou quatro vezes contra a criação da CPMF”, disse Dilma Rousseff, antes do intervalo, quando entrou um programa eleitoral do PT com fotos comprovando os votos de Marina Silva contra a criação da taxa. Marina se tornara vítima das suas próprias contradições.

Recitando passagens bíblicas sempre que podia, Marina disse que não atacaria ninguém, oferecendo sempre a “outra face”, e cravou que seria a candidata da “terceira via”. Desdenhou de apoios políticos importantes dizendo que não iria se aliar a nenhum partido em troca de tempo na televisão. No final da campanha, deixou para trás seu tom verde e se encheu de vermelho, rebatendo os ataques tanto de Dilma Rousseff quanto de Aécio Neves, que a cada nova pesquisa encostava mais na posição da socialista.

Em seu último programa eleitoral na TV antes do primeiro turno, Marina mostrou as garras. Em um discurso enérgico e emocional, a candidata relembrou seu passado “eu sonhei um dia com [uma] coisa muito simples. Sonhei em deixar de ser analfabeta...” e atacou sua maior rival: “Quem não foi nem vereadora e vira presidente do Brasil come pela boca do marqueteiro, come pela boca do assessor. Não me venha chamar de mentirosa. Mentira é quem diz que não sabe que tinha roubo na Petrobras”, disse, lembrando que Dilma Rousseff não fora eleita a nada antes de chegar à presidência e atacando sua rival citando o escândalo da Petrobras.

Marina e o pai, Pedro Augusto da Silva, em 2002. ampliar foto
Marina e o pai, Pedro Augusto da Silva, em 2002. reuters

Marina foi vereadora em Rio Branco, deputada estadual e senadora, antes de ser escolhida como ministra do Meio Ambiente do Governo Lula, em 2003. Negra, de origem pobre e humilde, saiu da comunidade de Breu Velho, no Seringal Bagaço em Rio Branco (AC), onde nasceu, para se alfabetizar aos 16 anos. Trabalhou de empregada doméstica, foi para a universidade e se tornou professora de história.

Militou ao lado da figura emblemática do seringueiro Chico Mendes, que foi quem a levou para o PT. Tem uma história e uma trajetória inegavelmente de respeito, que, em parte, lembra a do ex-presidente Lula. Depois de iniciar sua carreira política no Partido dos Trabalhadores (PT), onde militou até 2009, e passando pelo Partido Verde (PV), pelo qual foi candidata à presidência em 2010, o PSB foi seu terceiro partido.

Seu nome se tornou verbo. Marinei passou a significar "mudei meu voto para Marina". Virou adjetivo também: Seus adeptos são chamados de marineiros. Na boca do cantor Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura do Governo Lula, seu jingle parecia mais uma canção de ninar, com pouca energia, assim como a figura dela transparece ser. “Marinar vou eu, votar na Marina, marinar...”.

Sua aparência é frágil. Muito magra por conta das diversas restrições alimentares que tem que seguir pelas doenças que a acometeram na infância e adolescência, Marina contraiu uma rouquidão do meio para o final da campanha que alimentou a sensação de fraqueza. Mas já foi comparada, por um companheiro de militância, a um bambu: o vento verga, mas não quebra.

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