Eleições brasileiras, o ponto de partida para retomar a relação com os EUA

Especialistas preveem que o entendimento deva melhorar com qualquer presidente eleito, mas acreditam que Marina Silva possa ter mais margem de manobra

Obama e Dilma durante encontro em Brasília, em 2011.
Obama e Dilma durante encontro em Brasília, em 2011. PR

A história recente das relações entre Estados Unidos e Brasil é de avanços e retrocessos, de grandes expectativas que não conseguiram se cristalizar totalmente. O maior retrocesso aconteceu em setembro de 2013 depois da revelação de que os EUA tinham espionado a presidenta brasileira, Dilma Rousseff. Um ano depois, na antessala das eleições presidenciais do domingo, a sensação em Washington é que as relações só podem melhorar. A incógnita é quanto isto vai variar segundo quem ganhe as eleições.

“Em um segundo mandato de Rousseff, a relação melhoraria. [Por causa do retrocesso econômico] ela teria que procurar novas oportunidades para que o Brasil avance e isso envolveria olhar para os EUA”, considera, em entrevista, Jason Marczak, analista do Atlantic Council, um think tank em Washington. No caso de um governo de Marina Silva, que está atrás de Rousseff nas pesquisas, começaria uma “página em branco”. Mas Marczak sublinha que a candidata do Partido Socialista Brasileiro avançou na aposta por uma relação mais próxima aos EUA e que, em um “sinal real” dessa vontade, enviou na semana passada seu chefe de campanha para fazer um discurso em Washington, no qual defendeu um tratado comercial bilateral.

À espera de concretizações, palavras e gestos como este e outros podem dar algumas pistas. Teoricamente, um dos melhores exemplos da vontade dos governos de Barack Obama e de Dilma Rousseff de superar as tensões ficou evidente na quarta-feira, quando os dois países anunciaram um acordo para resolver seus doze anos de disputa pelos subsídios norte-americanos à produção de algodão.

Mais informações

O ministro de Assuntos Exteriores brasileiro, Luiz Fernando Figueiredo, viajou a Washington para a assinatura do acordo. No que se presumia como uma ocasião para celebrar a melhora do entendimento, Figueiredo se limitou a dizer que o acordo é um “passo a favor do aperfeiçoamento das relações comerciais” entre as duas maiores democracias e economias da América. E traçou uma diferença com as relações políticas ao reafirmar que a espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) foi um “fato gravíssimo” que “continua sendo um problema”.

Depois do resultado das investigações, a partir dos vazamentos do antigo técnico da NSA, Edward Snowden, Dilma cancelou a importante visita de Estado que tinha previsto fazer a Washington em outubro de 2013. O caso dilapidou a confiança de seu governo no de Obama, que desde então deu explicações sobre os planos de reforma da NSA, mas não chegou o reclamado pedido de desculpas oficial. Nos últimos meses, as relações foram se recuperando de forma incipiente. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, se reuniu com a presidenta brasileira em junho em Brasília, e houve avanços em grupos técnicos bilaterais.

Segundo Marczak, é “muito provável” que, caso seja reeleita, Rousseff faça no próximo ano a visita a Washington. A dúvida é se, nesse momento, a confiança terá sido totalmente recuperada. Para os analistas Carl Meacham e Hussein Kalout – do centro CSIS e da Universidade de Harvard, e autores de um relatório sobre a visão exterior do Brasil – dependerá em grande parte dos movimentos que os Estados Unidos fizerem para enterrar definitivamente a polêmica da NSA e manifestar seu compromisso de alcançar uma relação estratégica com o Brasil, de acordo com sua relevância como sétima economia mundial e ator emergente.

No entanto, os especialistas advertem que, além da atitude de Washington, as pressões domésticas de Rousseff poderiam limitar seu grau de manobra para retomar a relação. Portanto, acham que Marina Silva seria “mais capaz” disso, mas avisam que também buscaria gestos de Washington. Independentemente de quem for eleito presidente, do que não há dúvidas é do potencial por explorar a relação bilateral, sobretudo nas áreas de energia, tecnologia e meio ambiente. O grande desafio é evitar novos retrocessos.