ANÁLISE

A sociedade foi a grande ausente do debate

Será que os candidatos pensam que a educação é um assunto que não dá votos e por isso não vale a pena perder tempo com ele nos debates?

Aécio e Dilma no debate de domingo.
Aécio e Dilma no debate de domingo.Sebastião Moreira (EFE)

No debate entre os presidenciáveis na noite de domingo, na TV Record, o penúltimo antes das eleições, a sociedade brasileira e os problemas reais – os do dia-a-dia, os que preocupam e amargam a vida dos cidadãos – ficaram de fora. Não houve voz para eles.

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A impressão que as pessoas comuns devem ter tido – aquelas que provavelmente não puderam assistir à discussão porque, principalmente nas grandes cidades, têm que madrugar para chegar ao trabalho a tempo – é de que elas não interessam àqueles que disputam a conquista da Presidência.

No debate tenso, nervoso, por vezes duro, no qual predominaram as acusações de uns contra outros, os candidatos Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves pareciam mais preocupados em se agredir mutuamente e se defender das agressões do que em discutir o que interessa à população e a faz sofrer.

Nas duas horas de debate, falou-se de muitas coisas, inclusive da corrupção na Petrobras que envergonha e indigna o país, como afirmou Aécio duramente. Mas não houve nada ou quase nada daquilo que angustia de verdade uma sociedade que, em junho do ano passado, saiu às ruas para reivindicar uma melhor qualidade de vida, com serviços públicos dignos de um país rico e em pleno desenvolvimento, e para exigir mais voz nas decisões do poder como forma de fortalecer e ampliar a democracia.

Nenhuma das três grandes reivindicações daqueles protestos – melhor transporte público, um sistema educacional mais moderno e um serviço de saúde que não humilhe os doentes – protagonizaram o debate. Dois deles – transporte e educação – estiveram totalmente ausentes, esquecidos. A saúde pública apareceu por alguns segundos e, em seguida, desapareceu.

A sociedade, a população, os brasileiros apareceram somente quando Marina Silva, ao ser perguntada pela candidata Luciana Genro sobre o significado de sua bandeira de “nova política”, respondeu se tratar de uma nova forma de fazer política que não será feita pelos partidos, nem pelos sindicatos, nem pelo governo, mas sim “está sendo feita pela sociedade”.

Entretanto, foi essa sociedade que, na noite de domingo, ficou nas ruas, sem entrada para o debate. Um modelo de debate que, além do mais, deveria ser totalmente modificado, porque seu rígido regulamento se traduz em um apertado espartilho para os candidatos, que os impede de se expressar em liberdade, encurralados na tirania do meio minuto de pergunta e do um minuto e meio de resposta, com réplicas e tréplicas relâmpago, que mais parecem um videogame do que um debate político sério. Chega a ser grotesco ver como os candidatos ficam com as frases penduradas na boca sem quase nunca conseguir terminá-las.

Nas redes sociais, alguns telespectadores se perguntavam angustiados: “E a educação? O assunto não interessa a nenhum dos candidatos?”. Aparentemente não interessou nem aos jornalistas da Record, que também ignoraram o tema em suas perguntas.

Por incrível que pareça, a palavra “educação” não foi pronunciada nem uma vez em todo o debate.

Será que os candidatos pensam que o Brasil poderá um dia sair de seu atraso, que os filhos da nova classe média vinda da pobreza poderão construir um país melhor, mais moderno do que aqueles em que seus pais viveram – muitos deles ainda hoje vítimas do analfabetismo –, sem uma mudança radical no ensino?

Será que os candidatos pensam que a educação é um assunto que não dá votos e por isso não vale a pena perder tempo com ele nos debates?

E, no entanto, os países cujas sociedades hoje desfrutam de melhores condições de vida, e que se desenvolveram economicamente e socialmente com rapidez, foram os que souberam colocar a educação no centro nervoso do interesse público.

Será que os candidatos à Presidência não sabem que o Brasil, que aspira ser líder no continente, ainda aparece entre os últimos na lista mundial de qualidade de ensino?

Vai fazer 15 anos que entrevistei o então ministro da Educação Paulo Renato Souza, já falecido. Ele me confidenciou que, até pouquíssimo tempo antes, o Brasil não tinha consciência de que a educação era um assunto importante que atingia toda a sociedade. Disse-me, mais ou menos: “O grande mundo dos pobres se conforma com o fato de que quem estuda sejam os filhos dos ricos porque os dos pobres nasceram para trabalhar”. Será que os candidatos acreditam que a sociedade brasileira continua pensando assim?

Eduardo Campos, antes do acidente aéreo que o vitimou, surpreendeu os brasileiros com esta frase literal: “No dia em que os filhos do pobre e do rico... estudarem na mesma escola, nesse dia o Brasil será o país que queremos”.

Será que esse sonho de Campos morreu também com ele entre os destroços do avião?